15.000 km pela América a bordo de uma Honda Biz: Parte 2

Cruzando a fronteira com o Uruguai, Fernando Hungria e sua Honda Biz seguiram por estradas sul-americanas. Até que um acidente impôs um longo intervalo à jornada…

Texto e Fotos: Fernando Hungria Nalesso

Depois de cruzar a fronteira e pisar em solo uruguaio, segui pela Rota 9 até um posto de gasolina, em algum lugar entre as cidades de Rocha e Chuí. A ideia era abastecer e percorrer o Uruguai de uma vez, pilotando direto até Colônia Del Sacramento, pegar o Buque Bus e cruzar para Buenos Aires (Argentina). Porém, levei um “balde d’água fria” ao conversar com uma turma de Brasília que conheci na estrada: eles também viajavam de moto e, ao tentar atravessar para Buenos Aires, encontraram as fronteiras por terra fechadas por conta de protestos. A única alternativa era a balsa, o que lotava todos os horários do Buque Bus. Mudei meus planos e segui para Punta Del Este, já que dar a volta seria praticamente impossível e uma semana de espera acabaria com a viagem. Em Punta consegui um horário para dali a quatro dias, o que era melhor do que uma semana. Mesmo assim, três dias significariam quase 2 mil km rodados. Fui dormir tenso e preocupado.

Acordei e corri para a loja do Buque Bus: havia um horário para as 03h00 da próxima madrugada. Mais esperançoso, remarquei a passagem – a balsa sairia dali a quase 20 horas e eram apenas 280 km. Era cedo e segui para o píer em Punta, para relaxar um pouco. Comi alguma coisa e perambulei entre os veleiros, ouvindo os sons de metal batendo nos mastros. Finalmente, subi na moto e deixei Punta Del Este pela Rota 1, costeando o litoral. Havia uma infinidade de ferros-velhos à beira d a estrada e parei algumas vezes para dar uma olhada nas raridades uruguaias. Cheguei a Colonia Del Sacramento por volta das 23h00 e já havia uma fila no Buque Bus. Não importava: logo mais, minha viagem continuaria..  O tempo de travessia entre Colônia de Sacramento e Buenos Aires foi de três horas.

Na Argentina, fiz os trâmites burocráticos e, do cais do porto, segui a Porto Madero pela Avenida 9 de Julho, pois queria tirar algumas fotos. Depois, fui direto para a Rota 2, rumo a Mar Del Plata, para ganhar tempo. No entanto, quando passei pelo primeiro pedágio, me dei conta de que esquecera de fazer o câmbio por moeda Argentina! Dei uma de louco e perguntei se aceitavam dólares ou pesos uruguaios, já que estava sem pesos argentinos. A atendente mandou que eu seguisse em frente.

SURPRESAS

Viajando pela Rota 2, pouco tempo depois de Buenos Aires, passei por uma placa e li a seguinte frase: “aqui se fabrica la nueva Honda biz”.

Não dispunha de muito tempo, mas resolvi voltar. Era a fabrica da Honda. Na entrada, me identifiquei, alegando querer visitar a fábrica. Fui recebido pelo Gerente Gustavo Ogura e por um instrutor de pilotagem, que amavelmente me mostraram a fábrica e até me ofereceram um almoço, enquanto a equipe fazia uma revisão na Biz: troca de óleo, vela e escapamento – que, mesmo “zerado”, estava manchado. Ganhei mais três litros de óleo. Acabei me atrasando ainda mais, no entanto, valeu a pena: antes de sair da fábrica, Gustavo me deu uma carta de recomendação feita de próprio punho, me recomendando a outras concessionárias, caso necessitasse de ajuda. Deixei a fábrica por volta das 15h00, rumo a Mar Del Plata.

Na saída de Mar Del Plata passei por uma concessionária Honda e parei para comprar um retrovisor. Quando coloquei os pés na loja, uma surpresa: um homem se aproximou, dizendo: ”Fernando, estávamos à sua espera. Como vai? Gustavo me ligou e disse que você passaria por aqui.”

Agradeci e conversamos um pouco. Ele me perguntou se eu poderia esperar a TV chegar – seria rápido! Concordei e, muito bem recebido por Martin e Eduardo, donos da concessionária Porta Motos, acabei sendo entrevistado por uma equipe de reportagem. Pedi desculpas por estar sem tempo, me despedi com a promessa de mandar fotos e dar noticias sobre a viagem e rumei para o sul.

Estava meio atrasado quando, ao parar em um semáforo, olhei para os lados e, sem ver ninguém, resolvi avançar. Alguns segundos depois fui abordado por uma moto policial da Argentina. Eu fora pego avançando o sinal vermelho. O policial disse que, “naquele país, não é permitido passar o sinal vermelho” – uma observação que julguei meio irônica. Pedi desculpas e reconheci que estava errado. Ele perguntou para onde eu ia e, diante da resposta – “o Ushuaia” –, pediu que o acompanhasse. Imaginei que seria levado a alguma delegacia, mas o policial me conduziu até uma bifurcação e me liberou. “Siga por aqui – sorte!”. Pasmo, segui em frente e me dei conta de que as “lendas” sobre os tiras argentinos não se aplicavam àquilo que eu acabara de presenciar.

O “ANJO MIGUEL”

Passando por Miramar, falésias acompanhavam a estrada e lindos panoramas se sucediam. Rumei com destino à Bahia Blanca. Passei por Necochea e Três Arroyos. Dali a poucos quilômetros estaria cruzando o trevo da famosa Rota 3 – e, então, bastaria virar à esquerda e seguir reto por milhares de quilômetros, até La Pataia, Ushuaia. Porém, próximo da tão esperada Rota 3, uma caminhonete me fechou e caí da moto. Foi um tombo leve, mas muita gente se aproximou rápido e fiquei deitado por algum tempo. Notei algo errado em minha perna esquerda. O motorista da caminhonete me pediu desculpas e disse que a ambulância estava chegando. Chateado, apenas coloquei o fone de ouvido e fiquei pensando no “porque” de tudo aquilo. Continuar a viagem com o pé enfaixado não seria muito fácil, mas eu não queria desistir!

Naquela hora, um homem apareceu e me deu seu cartão, apresentando-se como “Miguel” e afirmando também ter uma moto. Ele me disse que iria carregar a moto e que, em 15 minutos, eu estaria no hospital. Na sequência chegou a ambulância e, ao ser atendido, descobri que o tombo não fora “tão” inofensivo: eu quebrara a tíbia e a fíbula, os dois ossos da canela. Meu pé estava literalmente “solto” e seria necessário imobilizar a perna e passar por uma cirurgia, em Buenos Aires ou em São Paulo. Na hora percebi que minha viagem acabara ali – e isso doía mais que o meu pé ferido. Pedi que o imobilizassem logo. Eu providenciaria minha passagem para São Paulo por telefone. Ainda assim, precisei passar duas noites no hospital.

Miguel, o sujeito que conhecera na estrada, carregou minha moto para sua casa e me acompanhou durante a estadia no hospital. Levou seus filhos para me distrair e me ajudou com tudo o que precisei. Também disse que manteria minha moto em sua casa pelo tempo que fosse necessário, até eu decidir o que faria com ela – e assim foi feito, por dois anos. Passei a chamar este novo amigo de “Anjo Miguel”. De volta a São Paulo, passei 15 dias no hospital e minha perna foi “consertada” com a inserção de uma haste e quatro parafusos.

RECOMEÇO

Algum tempo depois, visitei Miguel em companhia de meu pai, aproveitando para ver como estava minha Biz. Ela estava encostada em um depósito, apenas com alguns arranhões. Disse a Miguel que retomaria a viagem dali a um ano. Ele, por sua vez, afirmou que a máquina poderia ficar o tempo que fosse necessário em sua propriedade.  E assim foi feito.

Exatamente dois anos após o acidente, liguei para Miguel e avisei que estava a caminho. Embarquei em um voo até Buenos e, de lá, segui de ônibus até Três Arroyos, onde Miguel me esperava na rodoviária. Fomos à sua casa e tirei a moto empoeirada do depósito, fiz a troca de óleo, limpei o carburador e dei a partida: ela respondeu perfeitamente, o que me arrepiou. Dei um forte abraço em Miguel e rumei para a estrada.

Parei no posto para abastecer e decidi voltar: embora quisesse pegar logo a estrada, Miguel me ajudara tanto que valeria a pena passar mais um dia lá – o mínimo que eu podia fazer era convidá-lo para uma carne e uma cerveja, por minha conta!

Assim, no dia seguinte, peguei a estrada e segui para a Rota 3, sentido sul: a ideia era chegar a Viedma o quanto antes. Porém, em Bahia Blanca, o tempo fechou e decidi parar em um posto de gasolina. Acabei dormindo em uma pousada à beira da estrada, 10 km depois da saída de Bahia Blanca. No dia seguinte rodei direto até Viedma.

Fiz uma rápida parada em Las Grutas para um lanche. Fotografei a bela praia, caminhei pelo centrinho da cidade e, depois, rodei mais 130 km até o entardecer. Parei em uma vila chamada Sierra Grande. Devido a uma festa local, todas as pousadas e hotéis estavam lotados, e o jeito foi pedir ajuda aos bombeiros, que me receberam bem. Improvisei uma cama em uma sala e dormi.

Meu destino, agora, era a Península Valdés. Apenas 180 km de estrada me levariam até lá. Uma vez na península, segui pelo Parque Nacional, pagando uma taxa de US$ 14,00, e logo achei um albergue em Porto Pirâmides, onde dividi um quarto com outros 18 viajantes. Deixei minhas coisas por lá, coloquei uma bermuda e fui explorar as redondezas – aquilo era lindo demais! Fiquei admirando a região e antecipei as próximas etapas da jornada, enquanto curtia um magnífico pôr-do-sol e me preparava para próxima etapa da viagem…

*Matéria publicada na edição #108 da revista Moto Adventure – Parte 2

Confira a Parte 1 dessa aventura aqui.

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