15.000 km pela América a bordo de uma Honda Biz: Parte 3

Cruzando a Península Valdes, nosso viajante chega ao Ushuaia a bordo de sua valente Honda Biz

Texto e Fotos: Fernando Hungria Nalesso

Partindo de Porto Pirâmides, continuei a viajar rumo à Península Valdes, lugar que teve importância fundamental nas origens desta viagem: lendo o livro “Asas do Vento”, de Gerard e Margi Moss (que narra uma volta ao mundo em um motoplanador), me impressionou uma foto da região. Eu a guardei na memória com a idéia de, um dia, ali chegar de moto.

Assim, fui conhecer a Península Valdes, que se tornou Patrimônio da Humanidade em 1999. Valdes possui uma superfície de 4000 km2 de área de falésias e enseadas, região que abriga uma variedade de espécies animais e que conserva um ecossistema peculiar.

Por se tratar de um ponto importante da viagem, resolvi gastar o dia conhecendo a Península. Seriam aproximados 250 km de estrada de rípio para dar a volta completa no lugar. Deixei no albergue as bolsas laterais da moto e toda a minha bagagem. Com a moto leve, carregando somente a máquina fotográfica, saí sem pressa, a fim de curtir o dia e deixar este trecho da viagem me surpreender. A ideia era rodar no sentido de Punta Delgada (extremo sul), seguir pela orla do Atlântico, costeando as enormes falésias, passar por Punta Castor e chegar a Punta Norte, retornando, então, para Porto Piramides pelo lado do Golfo San Jose. A região é famosa por abrigar as baleias brancas (entre junho e dezembro) e as orcas (no outono). Mas eu estava em fevereiro e o jeito era me contentar com os leões, lobos e elefantes marinhos, pinguins e outros animais selvagens da temporada.

PARCEIROS DE ESTRADA

Ao chegar a Punta Castor, parei a moto ao lado de uma Honda Africa Twin, modelo clássico e resistente que a Honda, infelizmente, nunca trouxe ao Brasil. Com placa europeia, pertencia a mais um viajante que se divertia pelo mundo: Leo Schultze. Cinco minutos de bate-papo e notamos que iríamos fazer o mesmo caminho pela Península. Combinamos de rodar juntos o resto do percurso. Há 20 meses na estrada, vindo do Alaska, ele já tinha passado pelo Ushuaia e me deu algumas dicas sobre a Ruta 40. Disse, também, que dali seguiria para Buenos Aires (Argentina), onde venderia a moto e voltaria para casa, na Alemanha. Já em Piramides, com mapas abertos, cerveja gelada e as motos guardadas, trocamos várias dicas sobre as estradas percorridas. Eu ainda tinha 10 mil km pela frente.

Ao saber que ele pretendia vender a moto por U$ 1.500,00, exclamei: “O quê? U$ 1.500,00 por uma Africa Twin? Estique até o Brasil, pois tenho um cliente certo para comprar sua moto”. Ele não respondeu nem que sim, nem que não, mas combinamos de manter contato por e-mail durante a viagem.

Depois de um dia de passeio, a estrada me esperava. Desmontamos as barracas, abastecemos as motos e voltamos para a pista: eu seguiria rumo ao sul e Leo, para o norte. Fizemos uma foto, nos despedindo com a promessa de nos encontrarmos pelas estradas.  Feliz por ter conhecido a Península Valdes e por ter feito um novo amigo, voltei a me concentrar na viagem. Meu objetivo, agora, era rodar muito e parar pouco. Ventos fortíssimos, de través, por volta de 70km\h, chacoalhavam a moto – e eu tinha que rodar com ela bem inclinada, para compensar. Mais de 550 km por uma infinita reta me separavam de Comodoro Rivadavia, aonde cheguei às 22h00. No dia seguinte, levantei cedo, animado: a meta do dia era rodar cerca de 800 km e chegar perto de Rio Gallegos – mas não foi bem assim…

QUE AZAR!

Comodoro Rivadavia é a cidade mais populosa da província de Chubut, com cerca de 125 mil habitantes. É a capital argentina do petróleo, lugar seco e cercado pelo deserto patagônico, com imponentes montanhas esculpidas pelo vento e banhadas pelas águas frias do Atlântico sul. Tentando fazer uma boa foto da cidade, fui ao ponto que parecia ser o mais alto, por estrada, e um trecho final de trilha íngreme. Acelerei a Biz, e esta quase não chega ao topo da montanha. Mas valeu o esforço: diante daquela vista maravilhosa da cidade e do Atlântico, ao fundo, posicionei a moto bem próximo da beirada da montanha para um “clique” histórico. No entanto, ao colocar o descanso lateral, meu capacete caiu do banco, rolou pelo chão e se projetou de 300 metros de altura, morro abaixo – a cada “quicada”, um fragmento se soltava da peça! Se não fosse o som adaptado ao capacete, eu teria comprado outro em alguma loja local. Mas aquilo fazia uma grande diferença na estrada e acabei perdendo cerca de três horas escalando o morro e procurando-o. Na teimosia de recuperar o capacete, me vi encurralado à beira do penhasco. Paralisado, eu olhava para baixo e, dali, não saía. Tudo de ruim passava por minha cabeça, sendo, aquele, o momento de maior terror em toda a viagem. Graças a Deus, consegui voltar à moto. Quando subi na Biz, percebi que a chave da moto não estava comigo. Sem acreditar, perdi mais de uma hora até achá-la, caída pelo caminho. Depois de tanto atraso, voltei para a estrada e segui para San Julian.

DE VOLTA À NORMALIDADE

Mantive uma média de consumo de 36 a 37 km\litro, com a moto rodando a 100km\hora e sob um tempo bom. Em Laguna Del Carbón, a Biz rodou próxima ao ponto mais baixo da América do Sul (105 metros abaixo do nível médio do mar). Seguindo a estrada, sempre em sonolentas retas, passei por Rio Gallegos e segui até a fronteira com o Chile. Não tive problemas com os trâmites aduaneiros e, em pouco tempo, estava naquele país.

Da fronteira com o Chile, faltava rodar menos de 200 km de estrada de rípio para cruzar novamente a fronteira com a Argentina. Mas, em Rio Grande, o tempo piorou e começou a chover. O vento era forte e a sensação térmica, de sete graus negativos. Rodei sob chuva e vento fortes e, mesmo tremendo de frio, a sensação de estar prestes a realizar meu sonho era incrível – estava conquistando metade da minha proposta. Faltaria “apenas” a volta…

Assim, após 7.100 km rodados desde Itapetininga (SP) e muitos percalços, eu chegava ao Ushuaia – ao anoitecer e totalmente molhado! Procurei um albergue, mas fiquei mesmo em um hotel. Afinal, eu merecia um pouco de luxo! Lavar as roupas na banheira e as colocar para secar no aquecedor do quarto. Enquanto as roupas ficavam de molho na banheira. Vesti-me com o que sobrou e corri para o “Dublin” (tradicional “pub” de cerveja artesanal), brindando com vários “gringos”. Cada um tinha seu motivo para celebrar – mas todos saboreavam a mesma sensação: a de estar ali, naquele lugar chamado de “Fim do Mundo”. A viagem, porém, iria continuar….

*Matéria publicada na edição #109 da revista Moto Adventure – Parte 3.

Confira a Parte 1 e Parte 2 dessa aventura.

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