15.000 km pela América a bordo de uma Honda Biz: Parte 4

No “Fim do Mundo”, Fernando Hungria e sua Biz encararam novos desafios

Texto e Fotos: Fernando Hungria Nalesso

Acordar em Ushuaia me dava um “ar de conquista”.  Como ainda ficaria alguns dias por ali, tratei de pegar a moto e andar pela redondeza para conhecer o que há por perto. Nas coordenadas 54*48´57´´S, 68*19´04´´W, no limite setentrional do canal de Beagle, Ushuaia fica a sudeste da Ilha Grande da Terra do Fogo. Conhecida como a “Cidade mais Austral do Mundo”, tem um nome derivado do idioma indígena Yámana: us (ao fundo) e uaia (baía), pronunciado, em Castelhano, como duas palavras separadas, Us-uaia.

Meu plano previa conhecer alguns pontos turísticos, caminhar pela cidade, simplesmente respirar o ar e gastar horas por ali, esperando a visita de meu irmão e de dois amigos, que chegariam dentro de alguns dias. Meu aniversário estava próximo e, quem sabe, faríamos alguma coisa. Resolvi subir o Glacial Martial (que, na verdade, não tem nada de glacial), andar pelos parques e passar um dia convivendo com os navegantes que ali fazem paradas para reabastecer seus veleiros, antes de partirem rumo à Antártida. Acabei ficando uma semana em Ushuaia – e quando meus amigos chegaram, fizemos um belo passeio de barco pelo canal de Beagle, chegando ao famoso farol que simboliza a cidade.

DESENCONTRO

No dia 10 de fevereiro, tirei o dia para fazer manutenção da moto. Precisava, entre outras coisas, monitorar a compressão e regular as válvulas. Ocupei-me disto enquanto meus amigos faziam trilhas nos parques. Resolvido o problema da moto, ao fim do dia, passei no supermercado e fiz uma grande compra. Carreguei a moto com sacolas e rodei “carregado” por vários quilômetros, até o Parque Nacional, a caminho de La Pataia, onde estávamos acampando. Imaginei ali chegar e, enquanto a turma fazia o jantar, terminar de montar a moto. Então comemoraríamos bebendo vinho, já que, a partir da meia noite, seria meu aniversário. Mas as coisas não foram bem assim: imprevistos aconteceram, deixando a turma sem bateria no carro. Um pouco frustrado, terminei de montar a moto à luz da fogueira. Acendemos as velinhas com um maçarico e comemoramos um pouco, mas o clima ainda estava pesado e decidi que já passara tempo demais ali. Para mim, o Ushuaia já tinha se esgotado e, no dia seguinte, bem cedo, eu voltaria à estrada.

FRIO E CHUVAS

Decidido a não gastar mais tempo em Ushuaia, acordei no dia 11 pronto para deixar a cidade. Carreguei a moto, fui até o fim da Rota 3, onde todo viajante tira uma foto na Placa de La Pataia, e rumei para a estrada. Estava frio, nublado e, logo na saída, veio a chuva e o vento forte, durante 230 km. Mesmo assim, segui viagem e, em Rio Grande, abasteci a moto. Continuei viagem por 200 km de terra, em uma corrida contra o tempo. Por conta de minha própria falta de organização, baixo rendimento da moto e atraso na aduana, perdi a Balsa para Punta Arenas, precisando cruzar o estreito de Magalhães por outra balsa e rodar outros 200 km durante a noite, até um posto de gasolina próximo a Governador Phillipi, vilarejo que fica 200 km ao norte de Punta Arenas (onde consegui um pouco de gasolina e, por sorte, um canto para dormir). Como resultado, passei o dia do meu aniversario em cima de uma moto, rodando mais de 600 km em diferentes condições. Ao deitar, agradeci por, apesar de tudo, ter passado aquela data com pessoas importantes e fazendo algo que me dava prazer.

PORTO NATALES

Acordando à beira da estrada, com tanque cheio e sem desfazer as malas, seguir viagem foi rápido – e chegar a Puerto Natales, nada difícil. Localizada a 247 km a sudoeste de Punta Arenas, o lugar é a capital da província de Ultima Esperanza, na região de Magalhães e Antártida Chilena. É o principal ponto de entrada para os visitantes do Parque Nacional Torres Del Paine e o término da linha marítima proveniente de Puerto Montt, sendo uma cidade com pouco ou nada para fazer. Qualquer porta é uma loja de aluguel/venda de equipamento para trekking, agência de turismo ou um albergue. Porto Natales é uma comunidade que serve para dar apoio aos turistas que se dirigem a Torres Del Paine.

TORRES DEL PAINE

Surgido como um parque no final da década de 1950, o local foi declarado Reserva da Biosfera pela Unesco, em 1978. Tem uma área de aproximadamente 242 mil hectares, na qual se acha a cadeia montanhosa Del Paine. Lagos, rios, cascatas e glaciares. O parque é considerado o mais impressionante ao Sul do Chile. Acampei por dois ali, onde, além de rodar de moto, naveguei no lago Grey e caminhei na geleira. Torres Del Paine oferece ótima infraestrutura aos viajantes e aventureiros, com áreas para camping mergulhadas dentro da natureza.

LEMBRANÇAS DA ROTA 40

Saindo de Torres Del Paine, roda-se por uma estrada de rípio, onde as condições de rodagem variam o ano todo. Depois pilotei pela Ruta 9, no Chile, onde rodei até a fronteira com a Argentina. Cruzei de volta para terras argentinas por Cerro Castillo. A famosa Ruta 40, famosa por sua péssima conservação, estava ainda pior devido às chuvas na região. Tudo isto, somado ao estado ruim dos pneus da Bizz e à lama neles acumulada, exigiu que eu tivesse muito cuidado para não cair ou deslizar de um canto a outro da estrada. O frio insuportável e a chuva me incomodavam, mas, ao menos, a moto estava boa e não apresentava problemas.

Já que as coisas sempre podem piorar, bastou eu passar em uma grande poça para a moto começar a falhar (o clássico problema de água na vela de ignição). Dei-me conta de que, na revisão anterior à viagem, não havia trocado o cachimbo, que era original de fábrica. Passados nove anos desde a fabricação do modelo, era bem provável que a peça estivesse com a borracha de vedação ressecada. E, com aquela forte chuva, poderia entrar água. Situação nada grave, mas trabalhosa: com um frio daqueles, além de não poder mexer muito as mãos, precisei empurrar a moto até o canto da estrada, tirar o capacete e as luvas e arrancar e secar o cachimbo da vela; depois montar de novo, calçar as luvas, recolocar o capacete e ligar a moto, repetindo o processo outras quatro vezes a intervalos de um quilômetro. Percebi que, para rodar 50 km de lama nesse ritmo, gastaria mais do que o dia todo. Para completar o ciclo de azar do dia, esbarrei com a mão em um parafuso e cortei o dedo. O jeito foi parar e pensar em uma solução: resolvi pegar uma câmara de ar velha na mala, embalar o cachimbo, travar com uma cinta plástica e forçar sobre a vela, de modo que esta furasse apenas o seu tamanho e a câmara a vedasse. Pronto: a gambiarra se manteve pelo resto da viagem e nunca mais tive problemas (mesmo sob forte chuva). A moto não falhou mais; porém, continuou a deslizar de um lado parta o outro por mais de 40 km. Quando cheguei ao asfalto, senti vontade de beijar o chão. Nesse tipo de piso, a moto voltou a fazer seus 100km\h.

Mesmo assim, até chegar a El Calafate, a estrada parecia não ter fim. Cansado, encharcado e faminto, tudo o que eu queria era um banho quente, uma boa refeição e cama!

*Matéria publicada na edição #110 da revista Moto Adventure – Parte 4.

Confira a Parte 1, Parte 2 e Parte 3 dessa aventura.

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