15.000 km pela América a bordo de uma Honda Biz: Parte 6

Surpresas e lugares inusitados surgiram neste trecho da viagem de Fernando Hungria e sua valente Honda Biz

Texto e Fotos: Fernando Hungria Nalesso

Depois da trilha extremamente desgastante, acordar em Villa O’Higgins foi fácil. Difícil foi conseguir sair da cama, pois eu estava exausto, com a moto toda judiada, muita roupa suja e o corpo cansado. Resolvi passar o dia sem rodar. Levantei tarde, deixei as roupas de molho na banheira e fui cuidar da Biz, revisar alguns itens e passar o dia descansando em Villa O’Higgins, ao sul do Chile e localizada na província de Capitan Prat, ao sul da região de Aisen, onde encontra-se o fim da Carretera Austral. A vila é assim chamada em homenagem ao herói da independência chilena, Bernardo O’Higgins.

Mas ainda havia imprevistos: com as fortes chuvas que caíam na região as estradas ficaram sob água e a cidade, totalmente isolada. Consegui com o dono da pousada três litros de gasolina, mesmo ele dizendo que seria muito mais caro que o preço normal, pois era extremamente rara gasolina por ali, e paguei a fortuna equivalente a R$ 2,20 o litro. Fiquei imaginando que num lugar totalmente isolado de tudo, com a gasolina em falta, sendo avisado que me cobrariam um valor muito acima do normal, eu ainda assim estava pagando menos que no Brasil. Ao anoitecer fui a um festival de música na quadra de esportes da comunidade. Lá encontrei cinco israelenses que viajaram de balsa comigo no dia anterior. Após o festival, ficamos de papo na praça da cidade até de madrugada, terminando o meu dia de “folga”.

RETOMANDO A ESTRADA

Após um dia sem estrada e com a moto descansada, saí de Villa O’Higggins por volta da hora do almoço. Seguindo informações do dono da pousada, segui no sentido norte, o único que há, rumo a Puerto Yungay, 100 km a frente. Ali há uma balsa, único modo de continuar na estrada. Segui com a intenção de pegar a balsa das 13h00, parando para tirar algumas fotos, mas acabei me atrasando um pouco. Já da estrada, me aproximando do porto, vi a balsa manobrando para ir embora, acelerei o que dava, buzinei, parei e, mesmo acenando eles, não me viram e foram embora. Olhei no relógio e ainda eram 12h58, fiquei “irado”, eles tinham saído 2 minutos antes do horário oficial e, por causa disto, eu teria que esperar a próxima, que seria somente às 19h00. Sem nada para fazer, o jeito foi se acomodar na guarita abandonada, armar a rede, reorganizar tudo na moto mais uma vez, recosturar as malas, fazer o almoço e, mesmo assim, o tempo não passava. A balsa das 19h00 chegou e segui nesta. Uma hora depois, cheguei ao outro lado do lago e continuei pela maravilhosa e assustadora Carretera Austral. Um trecho úmido encravado na mata num circuito serrano, contornando penhascos e rios, onde qualquer tombo poderia acabar numa tragédia.

CALETA TORTELL

Mesmo atrasado e sem gasolina, resolvi sair um pouco da rota e seguir para Caleta Tortell, mesmo sabendo que estava me distanciando da rota principal e sem saber se iria conseguir combustível. O risco da escolha valeu a pena. Tortel é uma cidade única, construída na encosta do Pacifico, no meio da mata, constituída de passarelas e escadarias. Por lá não existem ruas e tudo nela é construído em madeira e os únicos veículos dos moradores são barcos, o que me dava um alívio, pois, com tanta moto, serra e barquinhos, em algum lugar eu haveria de achar gasolina ou algo parecido.  Para chegar a esta cidade é necessário deixar a moto num estacionamento próximo e seguir caminhando pelas passarelas. A estrada de acesso a este estacionamento foi construída há poucos anos, “facilitando” este acesso. Pernoitar em Tortell foi algo maravilhoso. Estar ali e caminhar com calma pelo vilarejo, subir e descer milhares de degraus, embora cansativo, foi muito interessante. A cidade realmente impressiona pelo seu modo de ser. Preocupado com a falta de gasolina fui atrás de algo parecido com um posto e cheguei ao mercado local, onde, ao lado de um galpão de madeira havia centenas de tonéis junto com botijões de gás e outros produtos inflamáveis. Comprei 3 litros de gasolina e saí imaginando onde iria parar tudo aquilo, caso de uma “bituca” de cigarro se perdesse por ali. Deixei Tortell por volta da hora do almoço e segui no sentido Puerto Tranqüilo.

SUSTO

Pilotei quase 200 km em estada de terra e o asfalto ainda estava muito longe: seriam dois dias sem asfalto, apenas terra, pedra, cascalho e muitos buracos. Por vezes formavam-se trilhos profundos por onde passavam as rodas dos carros deixando um relevo de pedras soltas ao centro e nas laterais da estrada, obrigando a rodar nos trilhos. Alguns quilômetros após Tortel, umas das malas laterais da moto cedeu e uma rápida olhada para trás foi o suficiente para a moto sair do trilho. Quando vi não tinha mais o que fazer, estava saltando o morro lateral e decolando em direção a uma moita. Esperei o pior, mas a moita literalmente grudou a Biz: a moto cravou no arbusto e, quando vi, ainda estava em cima da moto com os pés no estribo e as mãos no guidão, enfiado no meio da planta. Ao me dar conta que não tinha acontecido nada, comecei a rir e imaginar a cena digna de um desenho animado. Embora não tenha acontecido nada a pancada foi forte, entortou as bengalas da moto e o manete bateu num galho, estourando o cabo de freio. Precisei de alguma ajuda para poder tirar a moto encravada nos arbustos.

SEM FREIO

Depois dei umas batidas na roupa para tirar o pó, subi na moto e segui pela estrada com o coração ainda batendo disparado. Devido ao acidente eu ainda estava me acostumando a andar sem freio dianteiro e, por reflexo, a toda hora recorria ao freio e nada encontrava. Como numa moto o freio dianteiro corresponde com a maior parte da frenagem, imaginem o quão ruim é dirigir por uma serra de pedras soltas com uma moto pesada, sem pneu apropriado e somente freio traseiro. O jeito era recorrer bastante ao freio motor, sem dó, e confiante de sua resistência. A qualquer curva eu reduzia da quarta para a segunda marcha e às vezes até para a primeira, fazendo o motor “gritar”. Segui nesta condição, sem freio, por quase 300 km e cheguei em Puerto Traquilo. Procurei logo um camping a beira da estrada, levantei acampamento, tomei um bom banho e, na minha “varanda”, acendi meu fogareiro e fiz um bom jantar, comendo e papeando com meus vizinhos de barraca – um casal de americanos que estavam vindo do Alaska e seguindo ao Ushuaia em suas bicicletas.

CAPELA DE MÁRMORE

Levantei cedo, deixei a moto no camping, cruzei a estrada e, com outros mochileiros, dividimos uma “voadeira” (pequeno barco a motor) e fomos conhecer as belezas locais. Seguimos pelo lago General Carrera, (o maior lago Chileno) até algumas formações rochosas esculpidas pela água, a mais famosa delas conhecida por Capela de Mármore. É interessante notar que este lago possui 970 km2  em território chileno e outros 880 em território argentino, tendo, do lado argentino, um fácil acesso pela Rota 40; porém, do lado chileno, manteve-se isolado até a construção da Carretera Austral em 1990.

Retornando do passeio, carreguei as coisas na moto, paguei a diária do camping e segui sentido Coihaique, passando por Bahia Murta e Serro Castillo, estrada que contorna muitos lagos e rios maravilhosos, com diferentes tons esverdeados, um trecho fantástico por sua beleza, mas também muito esburacado.Quando cruzava com algum carro e via a suspensão deste trabalhando, a impressão que dava é de que a qualquer momento a roda iria saltar fora. Em Bahia Murta tem-se a impressão de que o mundo acabou.  Centenas de árvores mortas, os rios já secos e uma poeira da estrada pairava no ar, deixando o cenário bem interessante. Um pouco mais à frente parei para pedir informações para duas francesas que estavam viajando de carona pela Carretera e, para recompensar a ajuda, acabei dando uma carona ate próximo a Serro Castillo. Foi meio apertado, mas a valente Biz seguiu viagem sem maiores problemas. De Serro Castillos ate Coiahique a estrada estava bem melhor e a tocada foi mais rápida e cheguei à cidade ao final da tarde.

FAZENDO AMIGOS

Rodando sem rumo em Coihaique, parei em frente a um hotel para perguntar o preço de estadia. Olhei ao lado e vi uma loja de troca de óleo, perguntei ao funcionário que estava fechando a loja se eles fariam solda ou poderiam me emprestar a máquina para eu mesmo soldar. Quando percebi, estava nos fundos da loja, com o dono e seus amigos. Estávamos sentados em carros velhos abandonados tomando cerveja e contando histórias. Mais tarde saímos para alguns bares da cidade e acabei arrumando ajuda e local para pernoite.

No dia seguinte, acordei não tão cedo, desmontei a moto toda para soldar o tanque e o suporte do baú, que haviam trincado devido a péssima condição da Carretera Austral, e tirei um gomo da corrente, além de limpar o filtro de ar e fazer a troca de óleo.

Sabendo que ainda teria muitos quilômetros de estrada esburacada e em péssimas condições pela frente, e ainda sem conseguir achar o cabo do freio, eu estava preocupado em ficar ali tranquilo com o pessoal e não resolver meus problemas me deixava desconfortável. Quis sair logo de Coiahique e toquei por apenas 50 km até um vilarejo à beira da estrada, onde precisava  descansar e me concentrar para o próximo dia, que seria muito puxado.

*Matéria publicada na edição #113 da revista Moto Adventure – Parte 6

Confira a Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4, e Parte 5 dessa aventura.

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