15.000 km pela América a bordo de uma Honda Biz: Parte 7

Estradas de rípio e um vulcão em erupção “saudaram” Fernando Hungria nesta etapa de sua viagem

Texto e Fotos: Fernando Hungria Nalesso

Após passar a noite em uma pousada, poucos quilômetros à frente de Coihaique (em um vilarejo que se estendia por, no máximo, 150m à beira da estrada), levantei cedo e, um pouco antes das 05h00, já estava na estrada. Teria que sair cedo, pois seria um longo dia, com vários quilômetros pela frente – muitos, por estradas de rípio e em obras.

OUTRO TESTE

O trecho seguinte estava muito ruim, com pedras grandes e soltas. A suspensão batia “seca” nos buracos e a moto “sentia” bastante; em alguns trechos, o veículo entrava em ressonância por um bom tempo, devido às “costelinhas” da estrada. O freio dianteiro continuava estourando e ainda me fazia falta: era imperativo que achasse uma loja de motos, mas só passava por lugares ermos.

Com o objetivo de ganhar tempo para tirar o atraso, tinha a opção de seguir para Chaiten e, lá, conseguir uma balsa até Puerto Mont. Isso me daria uma dianteira, mas eu perderia um trecho bonito perto de Bariloche. Porém, não foi preciso pensar muito: soube que um vulcão entrará em erupção na cidade de Chaiten, fechando toda a cidade (como em um filme, as pessoas tinham que sair dela com os pertences que conseguissem pegar). A cidade estava em estado de emergência e completamente deserta. Não se podia sequer seguir pela estrada, onde havia barreiras policiais impedindo o acesso. Isto me obrigou a seguir a Futalefu, onde cruzaria a fronteira para a Argentina. Era pouco mais de meio dia e eu já rodara cerca de 500 km por uma estrada horrível; mas, agora, faltava menos de 100 km para Trevelin, onde encontraria o tão desejado asfalto e, provavelmente, rodaria bastante, sendo possível chegar a Bariloche o mais rápido possível.

SEM PARAR

Em Futalefu, segui em direção à aduana. Uma vez que eu entrará no Chile pela trilha do Lago O’Higgins e, no papel da aduana, constava que minha moto fora a primeira a cruzar aquela fronteira, quis guardar o documento. Consegui uma cópia do mesmo e a entreguei na fronteira, ficando com a original. Fizeram-me assinar alguns papéis, sem grandes problemas.

Vale lembrar que, devido à erupção do vulcão de Chaiten, a cidade estava coberta de poeira e o sol, fortíssimo. Eu, de roupa preta, suava muito – e assim que cruzei para a Argentina e passei por Trevelin, não resisti e fiz uma parada para tomar um bom banho e água gelada em um dos rios locais. Depois de alguns dias rodando somente por estradas de rípio, o asfalto era maravilhoso!

Cheguei a Esquel e, passando por uma loja, encontrei o que procurava há algumas semanas:retrovisores, corrente, óleo para o motor, câmara de pneu, cabo de freio e o tão procurado pneu traseiro; enfim, tudo o que eu precisava. Isto me deixou satisfeito, embora não tenha trocado o pneu ali: apenas amarrei-o sobre o baú e segui tranquilo. Caso furasse, eu mesmo faria a troca na beira da estrada. Assim não perderia tempo, já que almejava chegar ao menos a El Bolson.

Rodei direto de Esquel até El Bolson, pegando o pôr-do-sol na estrada. Encostei em um posto de gasolina para abastecer e conseguir informações sobre a localidade – e naquele momento, encontrei Luis Gustavo, um argentino que mora em Ushuaia e passa boa parte da vida viajando em sua BMW 1980. Trocando ideia resolvemos seguir para o mesmo albergue, onde, mais tarde, chegou um mochileiro e se juntou a nós. Assim, resolvemos deixar as motos “dormindo” enquanto, a pé, íamos tomar uma cerveja acompanhada de uma boa pizza. Trocamos contatos e histórias e, exaustos, voltamos ao albergue, onde “capotamos” de cansaço.

SUGESTÃO DE BOM ROTEIRO

No dia seguinte nos despedimos e cada um seguiu seu caminho. Algumas horas depois chegava a San Carlos de Bariloche, cidade que, embora muito conhecida no inverno, também é linda no verão, com lagos e montanhas maravilhosas. Fiz uma parada para almoçar e reservei três horas para caminhar pela região. Logo depois voltei à estrada, contornando o Lago Nahuel Huapi, que tem uma paisagem especial. Parado em um mirante, eu avistava aquela água azul (que, de tão transparente, permitia enxergar os galhos e pedras no fundo). O sol estava forte e resolvi dar um mergulho. Contornei a estrada e saí no primeiro caminho de pedra que avistei; logo estava naquela água linda, embora muito gelada.

Nadei por meia hora e segui viagem, passando por Vila La Angostura, cidadezinha muito charmosa perto de Bariloche. Logo à frente o asfalto acabou e, só de ver aquela estrada de terra de “costelinhas”, meu braço quase ficou dormente, ao me lembrar dos dias anteriores. Mas, tudo bem: seriam apenas 30 km até Pichi Traful; depois, mais 70 km asfaltados até Junin de los Andes (onde consegui um confortável e barato chalé para o pernoite).

CRUZANDO A FRONTEIRA…MAIS UMA VEZ!

Na manhã seguinte, já na estrada, segui por Malleo até a fronteira com o Chile – das de dez vezes em que a cruzei, essa foi aquela em que mais fui inspecionado. Pediram-me para retirar todas as coisas da moto e passar pelo Raio-X. E ainda assim, um fiscal bisbilhotou o baú do veículo, confiscando algumas de minhas cápsulas de própolis!

Sem mais problemas, completei os trâmites e voltei à estrada – agora, contornando de perto o famoso vulcão Villarrica, dirigindo através do parque de mesmo nome, cerca de 40 km à frente até a bela cidade chilena Pucon, com seus barzinhos e cadeiras nas calçadas.

O tempo era curto e logo terá que seguir estrada. Com um gostinho de “quero mais”, deixei Pucon e segui para Villarrica. Pouco mais de 40 km adiante de Villarrica, eu encontraria a Ruta 5-CH, também conhecida como “Rodovia Panamericana” – provavelmente, a melhor estrada chilena (por ela, 700 km à frente, chegamos a Santiago, capital chilena).

*Matéria publicada na edição #114 da revista Moto Adventure – Parte 7

Confira a Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4, Parte 5 e Parte 6 dessa aventura.

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