15.000 km pela América a bordo de uma Honda Biz: Parte 8

Neve fora de temporada e muitos imprevistos esperavam por Fernando Hungria nesta etapa de sua viagem pela América do Sul

Texto e Fotos: Fernando Hungria Nalesso

Depois de passar por belos lugares, agora eu rodava próximo de grandes cidades e pilotava em pistas duplicadas e com tráfego intenso: estava na Rodovia Panamericana. Ali, em trecho duplicado, os quilômetros no velocímetro da Biz giravam um pouco mais rápidos. Graças ao tanque extra sob o banco, rodava de quatro a cinco horas sem parar.

Em um desses “recessos”, apeei na cidade de Temuco, no meio da tarde, para um acesso “relâmpago” à Internet, notificando meus parentes de que tudo estava bem. A outra parada foi um pernoite à beira da estrada em Chillan. Entrar em cidades grandes como Temuco em meio ao trânsito, buzinas e pessoas estressadas era algo que eu não fazia há quase um mês.

CARTÃO DE CRÉDITO

Quando entrei no Chile, não fiz câmbio de moeda e fiquei apenas com o dinheiro chileno que trazia na carteira. Embora não fosse muito, era uma quantia razoável. E considerando que rodaria em regiões mais povoadas, usar o cartão de crédito não deveria ser um problema. Parei em um posto de gasolina para abastecer e comer algo. Ao pagar a conta, foi constatado que a máquina de cartão não funcionava – e o jeito foi me sentar à mesa do gerente e negociar! Alegando que o posto tinha a bandeira do meu cartão, e que meu cartão estava “OK”, era dever do frentista me alertar que o serviço estava indisponível. Precisava manter um trocado no bolso para pagar o local do pernoite.

Guardei o necessário e mostrei o dinheiro restante – porém, ainda faltava metade, e ofereci as demais notas que tinha na carteira. Sem outra alternativa, o gerente do estabelecimento aceitou a barganha. Para fechar a conta, acessamos sites de “câmbio” e, desta forma, a conta foi paga em Reais, Pesos Argentinos, Pesos Chilenos e com a adição de mais US$ 2,50. “Limpei” todos os meus trocados da carteira e segui viagem, esquecendo-me dos pedágios da Rodovia Panamericana. Felizmente, descobri que uma dessas cabines aceitava pagamento em cartões.

EM BUSCA DE UM DORMITÓRIO

Já anoitecia e, depois de rodar por um longo trecho, segundo o mapa, estava a poucos quilômetros de Chilan. Resolvi seguir até aquela cidade e parar no primeiro lugar para pernoitar. Logo avistei um lugar duvidoso, na beira da estrada. Desisti e segui procurando, finalmente parando em um motel. Durante a viagem dormira em lugares piores que aquele primeiro que vi; e fiquei pensando nas razões pelas quais o rejeitara. É engraçado como vamos ficando desconfiados à medida que nos aproximamos da civilização. E com certa razão, pois, bem ao sul, na Cordilheira, passara a noite no mato e ao ar-livre, sem encadear a moto e isento de preocupações: que ladrão haveria por ali? O que haveria para roubar?

Lembrei que aprendi a gostar de dormir em motéis de beira de estrada, com a vantagem de ter uma garagem exclusiva. Um lugar para tomar um bom banho, dormir e, no dia seguinte, pagar a conta e voltar para a estrada.

RUMO À CORDILHEIRA

No dia seguinte, logo cedo, rodei 380 km até Santiago, capital chilena, alcançando-a depois do almoço. A trabalho, costumo visitar Santiago com freqüência. Não tive muito interesse em visitar a localidade e optei por não seguir até Vina del Mar (algo de que me arrependeria mais tarde). Segui no sentido de Los Andes, depois da Cordilheira, passando pelos famosos Caracoles, com sua paisagem inacreditável (com exceção de minha moto, tudo à volta era gigantesco!).

TÚNEL DEL CRISTO REDENTOR

Logo depois surgiu o posto aduaneiro do Chile, “Complejo Fronterizo los Libertadores”. A seguir avista-se o Túnel Del Cristo Redentor, que liga o Chile e a Argentina na região conhecida como Paso Libertadores na Cordilheira dos Andes. Localiza-se entre a província argentina de Mendoza e a província chilena de Los Andes. O túnel situa-se a 3.185m de altitude e possui 3.080 metros de extensão, dos quais 1.564 correspondem ao território chileno e 1.516 ao argentino. Foi aberto em 1980 e corre ao lado de um túnel similar, construído no inicío do século XX para o Ferrocarril Trasandino Los Andes-Mendoza. Devido à altitude em que se encontra, a passagem pelo túnel é dificultada, nos meses de inverno, por fortes nevascas.

PARA VER O CRISTO

Durante o planejamento da viagem, descobri que ali existe uma antiga estrada de terra que faz o cruzamento por cima do túnel, onde encontra-se o Cristo Redentor. Parei no posto de fiscalizacão em frente ao túnel e perguntei sobre a tal estrada. Os policiais nao a recomendaram, pois era tarde e, como nevara na noite anterior, a via estava parcialmente coberta por gelo.

De posse dessas informações, preferi não arriscar: além de estar prestes a escurecer, em caso de emergência não conseguiria chamar ninguém. Chateado por não poder cruzar por cima do túnel, segui por dentro e, do outro lado, tive uma surpresa: devido à chuva e ao clima (que piorara!), inacreditavelmente (e contra todas as previsões), estava nevando.

Para mim, foi o máximo! Fiquei alguns instantes curtindo o visual da neve e olhando o contraste de cores motivado pelo gelo a cair na montanha. Era fim de tarde e, embora meus planos fossem seguir até a parte baixa da Cordilheira, resolvi ficar mais um tempo por ali.

Procurei informaçoes sobre a estrada até o Cristo – desta vez, no lado argentino. De pouco em pouco fui achando o caminho; e segui por ele até encontrar neve. Com cuidado, era possivel rodar naqueles caminhos – mas o sol estava prestes a morrer e achei melhor voltar. De tão maravilhado com aquilo tudo, resolvi quebrar o roteiro mais uma vez e pernoitar na região. Toda a nebulosidade se dissipava e apostei que, no dia seguinte, o céu estaria claro, e com ainda mais neve. Poderia avistar toda a cordilheira naquelas condições especiais. Mas isto teria que ser de manhã, antes que o sol esquentasse e a neve derretesse, ja que esta, no verão/outono, não é tao frequente quanto no inverno. Valeria a pena atrasar mais um pouco – e o jeito foi seguir para um hotel, descansar e dar prosseguimento a viagem que continuaria.

*Matéria publicada na edição #115 da revista Moto Adventure – Parte 8

Confira a Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4, Parte 5Parte 6 e Parte 7 dessa aventura.

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