15.000 km pela América a bordo de uma Honda Biz: Parte final

Deixando a Cordilheira dos Andes para trás, Fernando Hungria concluiu uma jornada memorável

Depois de pernoitar entre as vilas Puente Del Inca e Los Penitentes, ambas localizadas na Cordilheira dos Andes, no lado argentino, logo cedo eu já estava de pé. O dia amanheceu com céu claro, mas a neve do dia anterior permanecia ali. Mal tomara o café da manhã e liguei a moto, seguindo rumo à estrada que leva ao Cristo Redentor. A paisagem era impressionante, valorizada pelo branco da neve.

Conforme a moto subia, perdia “fôlego” – e a partir da metade da subida só era possível prosseguir em primeira marcha. Estava perto dos 4.100 metros acima do mar e o ar rarefeito influenciava a performance do veículo, deixando-o fraco. Eu também sentia a altitude, ofegando a qualquer esforço. Para se ter uma ideia, aviões despressurizados voam abaixo disso, em torno de 11.000 pés. 4.100 metros equivalem a 13.500 pés – nível de vôo 135. Em um avião pressurizado, caso haja problemas de pressurização, as máscaras de oxigênio caem automaticamente a 14.000 pés (4.200m) para fornecer oxigênio aos passageiros. É uma altura considerável.

Continuei a viagem – mas a neve, em certos trechos da estrada, fazia com que a moto deslizasse no gelo e não subisse. Sem corrente no pneu, o jeito foi pegar algumas chaves de boca e, com uma cinta plástica, improvisar uma “corrente” para que a Biz deixasse de patinar. Logo cheguei ao Cristo e ao topo da estrada. Dali era possível avistar o Monte Aconcagua, o segundo mais alto no planeta, e boa parte da Cordilheira dos Andes. Valeu o esforço!

“QUASE” SATISFEITO

Àquela altura, faltava pouco a se conhecer antes de voltar para casa. Só queria passar por Mendoza – o resto seria apenas estrada, até por conta do tempo disponível para a viagem, que já estava se esgotando. Deixando o Cristo, desci até a estrada principal, passando por Las Cuevas, uma autêntica “cidade-fantasma”, onde as lojas, postos de gasolina e fábricas foram abandonadas. Depois surgiu Puentes del Incas, conhecida por sua curiosa formação rochosa. Passei no hotel, tomei café, arrumei as malas e segui para Mendonza.

Embora a estrada, no lado chileno, conte com o impressionante “caracoles”, o caminho é mais bonito no lado argentino – menos íngreme, com longas curvas e contornando enormes encostas que beiram os trilhos da antiga Ferrocarril. O resultado é um típico “cenário de faroeste”.

Depois de 300 km rodados desde o início do dia, finalmente chegava a Mendoza. Segui para um passeio na cidade e conheci o Parque San Martin. É um local perfeito para se passeio a pé, bem-acompanhado ou sozinho. Se não fosse a pressa de pegar a estrada, passaria o dia todo ali.

VOLTA PARA CASA

Deixei Mendoza e segui pela Ruta 7 no sentido de San Luis. Na estrada, parei sob um viaduto para esticar as pernas e dar uma rápida olhada na moto. Foi quando notei que o pneu estava bastante liso. Decidi trocá-lo em San Luis, tão logo chegasse. Aproveitaria e trocaria o óleo do motor e a corrente. Isto já seria suficiente para voltar ao Brasil.

Cheguei a San Luis ao entardecer e fui procurar um local para dormir. Um frentista me indicou um hotel diante de um posto de gasolina – e bem ao lado de uma oficina e de um borracheiro: era tudo o que eu precisava! Deixei a moto “zerada” e bem abastecida para, no dia seguinte, voltar à estrada.

Estudando o mapa, resolvi cortar caminho por Córdoba, pois já conhecera muita coisa. Além disso, o clima era quente e abafado e a pressão caía. Provavelmente, logo viria chuva! Acelerei forte, pois me decidira a chegar ao menos a Santa Fé, na Argentina. Mas o dia rendeu um pouco mais e cruzei o Rio Paraná até a cidade de mesmo nome, por um túnel sob o rio. Rodei 758 km naquele dia e parei para dormir em Cerrito, cidadezinha gostosa na província de Entre Rios.

No dia seguinte, saltei da cama ouvindo fortes trovoadas. Eram 06h00 e não tive alternativa senão retornar à estrada. Rodei uns bons 80 km sob intenso aguaceiro, antes de ver o sol novamente.

EM SOLO BRASILEIRO

Após 350 km rodados, estava novamente em outra aduana, fazendo os devidos trâmites. Mas, desta vez, a situação era especial – não só pela burocracia envolvida, mas por estar de volta ao Brasil. Entrei no país por Uruguaiana e segui direto para São Borja, onde, ao final do dia, comemorei com uma boa cerveja brasileira meu regresso à pátria. A sensação de estar em casa era boa, mas não resisti à tentação de “espichar” um pouco o passeio. Mudei de rota e, ao invés de seguir para Chapecó, segui no sentido de Posadas, na Argentina, e Encarnacion, no Paraguai. Rodei, então, até Ciudad Del Est e entrei novamente no Brasil, via Foz do Iguaçu (PR). Dali fui para Cascavel (PR), que dista 700 km de Paranapanema (SP), minha cidade. No dia seguinte passei por Maringá, Londrina e Ourinhos (já em São Paulo). Faltavam apenas 100 km para chegar em casa e decidi passar uma noite em Terras de Santa Cristina, à beira da represa Jurumirim.

ÚLTIMOS QUILÔMETROS

Levantei sem pressa, ainda absorvendo tudo o que vivera nos últimos dias. Caminhei, dei um passeio de barco e tomei um banho de represa. À tarde subi na moto e a liguei pela última vez naquela viagem: segui para a Rodovia SP-270 (Raposo Tavares). Era o fim de uma jornada de 14.960 km por cinco países, enfrentando altas e baixas temperaturas. Momentos que, eu sabia, me acompanhariam para sempre. Nos últimos quilômetros a emoção tomou conta de mim e não pude conter as lágrimas.

Finda a viagem, reassumi minhas funções como piloto de aviões – mas sempre que possível, encaro a estrada a bordo de uma moto. A perspectiva de conhecer novos lugares e caminhos faz palpitar meu coração. Quanto a minha fiel companheira de viagem, a Honda Biz? Está em minha garagem, bem cuidada e estacionada ao lado da Honda África Twin que comprei do motociclista alemão Leo.

*Matéria publicada na edição #116 da revista Moto Adventure – Parte final

Confira a Parte 1, Parte 2, Parte 3, Parte 4, Parte 5Parte 6Parte 7 e Parte final dessa aventura.

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