O relato a seguir, enviado por um de nossos leitores, conta a saga de uma incursão de moto pelo leste da África. A bordo de uma BMW GSA 1200, o aventureiro percorreu cerca de 18.000 km. Embarque conosco na primeira parte desta viagem!

TEXTO E FOTOS: JULIANO BERNERT

Como contar, em poucos caracteres, uma história que começou em Curitiba, passou por Buenos Aires, reiniciou simbolicamente no ponto mais austral da África (o Cabo das Agulhas) e foi concluída 18.000 km depois, em Alexandria, Egito, de frente para o Mar Mediterrâneo? Bem… vamos tentar! Cruzar a África nunca foi um sonho meu – meus planos eram outros. Na verdade, eu queria cruzar a Rússia, talvez a Índia e a China. Depois de várias semanas estudando mapas, roteiros, relatos de viajantes, histórias das mais diversas regiões de um continente imenso, e de tentar conversar com quem já tinha estado por lá, a saga tornou-se o meu objetivo de viagem. Poderia ir só ou acompanhado, tamanha era a fascinação que a África me provocava.

Cabe um adendo sobre algo que percebi muito cedo, e que tornou nossa jornada ainda mais desafiadora e inesperada: não existe África! A nomenclatura não sobrevive além do conceito político, pois tudo nos países que formam a África é diferente. Povo, cultura, língua, cor da pele, costumes, receptividade, polícia, moeda, relevo, clima… e por aí vai! Em pouco mais de 50 dias, entre janeiro e fevereiro de 2017, saímos de uma latitude equivalente à de Curitiba, indo até o Trópico de Câncer, passando por sete desertos – todos completamente diferentes entre si, seja na aparência ou na temperatura, com calor intenso na maioria deles, além do frio inacreditável no norte do Sudão, em direção à fronteira com o Egito.

Em dezembro de 2016, despachamos nossas motos, duas BMW GSA 1200 2007/2008, de Buenos Aires para Johanesburgo. Este, na verdade, era o nosso plano “D”. Tomamos essa decisão, pois desistimos de alimentar incertezas sobre as chances da Receita Federal autorizar o embarque das motocicletas a tempo de serem desembaraçadas na África do Sul antes de nossa chegada. Um viajante precisa saber quanto as coisas custam (do contrário, não há viagem). Toda a complicação, muito além da medida, me fez retomar o contato antigo com um mecânico/despachante argentino, famoso entre os gringos que chegam até a América do Sul, e que prontamente me passou uma única cotação e os trâmites para o envio das motos. Suas palavras foram: “2300 USD. Cheguem em um dia útil e reservem outros dois para todos os trâmites”. Esta foi a resposta de Javier, representado por sua esposa, Sandra, da Dakar Motos, na capital argentina. Enquanto, no Brasil, pediam de 30 a 60 dias de antecedência para o envio via Curitiba, Guarulhos ou Viracopos (com enormes custos de armazenagem pré-embarque envolvidos), o casal portenho me solicitou três dias, mas resolveu tudo em apenas dois. Gastamos seis dias entre a ida e a volta. Mas, de forma descomplicada, nossas motos seguiram pela South African Airlines para nosso primeiro destino: Johanesburgo (Joburg).

ÁFRICA DO SUL

Nessa altura, eu já fizera contato com o despachante sul-africano. Ele atendera uma ucraniana que estava dando a volta ao mundo, e que conheci em Curitiba. Ela foi do Brasil para Johanesburgo com sua KTM, o que foi um grande facilitador. Em apenas um dia, sem procuração ou outro documento – apenas com cópias de nossos passaportes e do “Bill of Landing” (conhecimento de frete aéreo) –, ele retirou as GSs do terminal de cargas e as armazenou em uma garagem improvisada em um conjunto habitacional para lá de simples, mas providencialmente próximo ao aeroporto.

A partir de Johanesburgo, fiz uma estréia inusitada, considerando que ficaria longe da família por quase 60 dias. Na companhia de minha esposa, giramos de Leste a Sul e, depois, de Oeste a Norte pela África do Sul, país quase comparável aos EUA ou à Europa em termos de infraestrutura de turismo (ou ao Brasil, pela desigualdade). Estradas bem conservadas, boa culinária, parques com fauna exuberante, hotéis excelentes, bom atendimento, facilidade de comunicação (em Inglês) e tudo a preços inferiores àqueles praticados no Brasil.

Tudo isto fez com que a viagem parecesse menos individualista, mais “família” e parecida com um passeio perto de casa. Por 17 dias, viajamos conhecendo cenários completamente diferentes, como o Blyde River Canion, os game-drives (safáris fotográficos) em reservas grudadas no gigantesco Kruger Park, a Garden Route na Costa Sul, o Cabo das Agulhas, a região das vinícolas (Stellenbosch), as praias nos arredores da Cidade do Cabo até o Cabo da Boa Esperança, para ficar no mais conhecido. Subimos pela costa Oeste até a fronteira com a Namíbia, entrando no primeiro deserto da viagem, e chegamos à cidade litorânea de Luderitz, vilarejo alemão encravado no meio de dois parques nacionais, para uma homenagem silenciosa a Amyr Klink. Retornamos, então, à Johanesburgo, para a revisão das motos e a colocação de pneus 50/50, o Heidenau K60, que acabou se revelando excelente, tamanha a durabilidade e a segurança transmitida em todos os terrenos.

BOTSWANA

Da África do Sul – agora, viajando solo na moto e com a dupla oficialmente formada –, rumamos para o norte, com o intuito de fazermos o primeiro desvio do roteiro. Em um jantar embalado a whisky (que eu comprara em Joburg), alguns fazendeiros sul-africanos nos convenceram a mudar um pouco a rota e conhecer o Delta do Okavango, no oeste da Botswana. Embora o plano fosse subir direto para a Zâmbia, cruzando rapidamente a Botswana, embicamos à esquerda para Maun, onde tivemos o primeiro contato autêntico com a fauna africana, navegando o delta em pequenas canoas, os “mocoros”, para, depois, percorrermos a parte seca a pé, em um “walking safari”. Uma experiência marcante, pois os animais estavam nas mesmas condições que nós – ou nós nas deles – e, ali, o respeito à natureza precisava ser mais do que dobrado. E foi! Mas nem por isto deixamos de aproveitar a relativa proximidade com grupos de zebras, búfalos, girafas e alguns elefantes mais tímidos.

Indo em direção a Kazane, na fronteira com a Zâmbia, a estrada atravessa dois parques nacionais contíguos (Nxai Pan e Makgadikdadi). Logo no acesso a eles, sem cercas ou grades, uma placa anunciava: “Diminua a velocidade e aprecie os animais”. Pensei que era exagero, mas não demorou para avistarmos, à beira da estrada, os mesmos animais que, nos dias anteriores, vimos em um local de difícil acesso e bastante protegido. Aqui, andando de moto, viajávamos dentro de um safári, só que em uma estrada asfaltada, de boa qualidade, que, em menos de um mês, estaria inundada pelo início das chuvas fortes na região. Entre Nata e Kasane, passamos por muitos elefantes (alguns solitários e outros em grupos) que atravessavam a pista com certa agilidade, por causa do tráfego de veículos, mas com grande naturalidade, embora não parecessem contentes em nos ver, sempre bramindo quando nos aproximávamos demais.

ZÂMBIA

Entramos na Zâmbia cruzando o Rio Zambeze em uma balsa (por enquanto, a única forma de ligação com a Botswana). Uma ponte está sendo construída há alguns anos por uma empresa sul-coreana – a primeira asiática de muitas que veríamos em grandes projetos na África – e, possivelmente, estará concluída em breve, o que facilitará o comércio entre os países que integram esta quadríplice fronteira: Botswana, Zâmbia, Namíbia e Zimbabwe. Este mesmo Rio Zambeze, a poucos quilômetros dali, forma a impressionante Victoria Falls, acessada no lado da Zâmbia a partir de Livingstone, para onde fomos e passamos dois dias, no primeiro backpacker da viagem.

Visitar esta exuberante queda d’água era o primeiro destino turístico da travessia da África e, por conta disso, desenhamos a rota via Botswana, deixando de lado Moçambique e Zimbábue, economizando um longo trecho de estrada e, talvez, fugindo do único lugar onde poderíamos encontrar malária. A preocupação com a doença tropical foi constante antes e durante a viagem. Ninguém queria ficar doente a ponto de não conseguir sair da cama por várias semanas, vitimado por febres altas e vendo “aranhas no teto” (como já li relatos e ouvi de um viajante que contraiu a doença no oeste africano, anos atrás).

Diariamente, passamos a tomar um comprimido de cloridrato de doxiciclina, antes de entrarmos em regiões consideradas “endêmicas”. Adotamos esse procedimento quase até o final da viagem. A realidade, no entanto, é que a malária foi assunto apenas de viajantes, já que foram raros os lugares pelos quais passamos em que casos da doença haviam sido reportados recentemente (sem esquecer que o mosquito transmissor da doença se prolifera apenas em lugares muito quentes, e a África é enorme, estando situada tanto no hemisfério sul quanto no norte). Nem sempre uma região dará condições de vida ao mosquito. Então, o medo da malária é algo muito mais psicológico do que real. É claro que ela existe, mas não o ano todo, e nem em todos os lugares.

Viajamos pela África em janeiro e fevereiro, meses nos quais há chuvas em algumas regiões e em outras, não. Não existe época ideal para a empreitada, especialmente, se esta é feita em um período curto, por causa da dimensão continental da travessia. Na Zâmbia, pegamos chuva que valeu por toda a viagem. Indo em direção à fronteira com o Malawi, fomos surpreendidos por uma tempestade que impediu até os caminhões de prosseguissem por um trecho de estrada de chão que era preciso percorrer por conta de obras na pista. Muita água na estrada, lama, desvios e improvisos. Chegamos até a ajudar um caminhoneiro que tentava puxar, com uma corda (amarrada ao caminhão), um tronco enorme que servia para impedir a utilização da estrada, ainda não liberada. Já que o tronco era imenso, a corda arrebentou, para a frustração de todos. Estrada de terra molhada, à noite, foi a combinação perfeita para a segunda, terceira e quarta derrubadas da moto daquele dia, algo que, a partir dali, se repetiria com bastante frequência.

MALAWI

O Malawi foi o destino seguinte e o contraste com a Zâmbia foi marcante. Povo acolhedor e simpático, diferente da quase indiferença que recebemos na Zâmbia. Contribuiu muito para a nossa impressão positiva do novo país termos comprado, na fronteira, com muita facilidade e por um preço irrisório, um “chip” de celular que nos reconectou ao mundo. Internet 3 ou 4G, com boa velocidade, sem qualquer burocracia, a preços baixos, é o paraíso para um viajante. Encontramos isto em todos os países a partir da Zâmbia, com exceção da Tanzânia. Objeto de desejo do viajante moderno, a disponibilidade de internet (Wi-Fi) era quase o principal motivo de escolha de onde passar a noite ao longo da viagem. Chuveiro com água quente era algo secundário neste processo – talvez, nem tanto, mas é interessante pensar que vamos tão longe para, ao mesmo tempo, querermos estar conectados com nossas casas e familiares.

Visitamos a capital, Lilongwe, e vimos uma cidade bem estruturada, aparentemente segura, com bons restaurantes e supermercados e muito parecida com uma cidade média brasileira. Alguns aspectos davam sinais de atraso, como a impossibilidade de comprar qualquer coisa com cartão de crédito. Viajamos rumo ao norte pelo caminho mais longo (porém, o mais bonito), beirando o Lago Malawi – enorme e azul, e cujas inúmeras baías recebem turistas de todo o mundo, e de qualquer nível econômico, já que há acomodações simples e hotéis mais refinados. Acampamos na área de camping de um hotel cinco estrelas, à beira do lago. Nosso companheiro “adotado” de viagem, um sul-africano que ia de CapeTown até a Espanha, e com quem rodamos por alguns dias, se escandalizou com o preço do quarto triplo – algo em torno de R$ 120,00. Então, o acompanhamos na área de camping do hotel, que estava vazio, era seguro e minimamente estruturado. Desembolsamos menos de R$ 2,00 para dormir, mas pudemos jantar e tomar café da manhã no hotel, pagando à parte. Com exceção de hotéis deste nível, todas as refeições sempre foram muito baratas em toda a África. E, invariavelmente, boas! Encontramos uma base muito similar ao que comemos no Brasil, com arroz, feijão, macarrão, carne de gado, frango e saladas (as diferenças se restringiam aos modos de preparo e aos temperos). Ao invés de emagrecer, o que seria esperado em uma viagem longa como esta, com grande parte do dia sobre a moto, engordei quase 5 kg, o que comprova que a falta de comida foi algo com que não nos defrontamos.

TANZÂNIA

Entramos na Tanzânia, já com mais de 8.000 km rodados, mas ainda longe do destino final. Foi quando tivemos um inesperado contato visual com os massai-maras, a uns 300 km de distância de Arusha. Vestidos com trajes próprios da tribo, de cor vermelha, e usando lanças e outras armas primitivas, eles dominaram a paisagem durante toda a passagem. Não paramos para pedir informações, água ou para tirar fotos, pois a impressão que tínhamos era de pouca hospitalidade (embora não de hostilidade). Seguimos nosso caminho até chegarmos a Arusha, cidade bem ao norte do país que é base para adentrar o enorme Parque Nacional do Seringheti, assim como outras áreas de preservação próximas a ele. O destaque é a Cratera do Ngorongoro, um buraco de mais de 400 km2, com muita vida animal em estado bruto. Leoas caçando à nossa frente, hienas sendo enxotadas por grupos de zebras e antílopes, hipopótamos machos disputando a dominância sobre lagoas com inúmeras fêmeas etc.

Ali, tudo nos pareceu realmente selvagem e exuberante, com exceção do congestionamento de caminhonetes de safári nos pontos de maior interesse da cratera, como os lugares em que eram avistados leões (certamente um dos animais que mais atrai as atenções). Arusha é uma cidade que vive em função deste tipo de turismo. Embora seja mais uma cidade caótica de médio porte da África, como tantas outras que conhecemos, a estrutura de hotéis e restaurantes a torna perfeita para uma parada estratégica por alguns dias.

Até Arusha ainda não tínhamos rodado por longos trechos de estradas de chão. Indo em direção ao Quênia, encontramos várias partes ainda sendo abertas, algumas em áreas montanhosas, com grande movimento de ônibus interligando os vilarejos à cidade. Esses veículos praticamente não se importavam conosco e vinham em alta velocidade, nos forçando a sair da estrada (muitas vezes, no meio de curvas).

Na próxima edição de Moto Adventure, não deixe de conferir a segunda parte de nossa aventura pela África, com muitas informações sobre os lugares visitados. Até lá!

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