Avaliação-Honda-CRF-1100L-Africa-Twin-2022

Conheça as nossas impressões após pilotarmos as quatro versões da grande novidade da marca japonesa para 2021.

Após muita ansiedade, finalmente a espera acabou e desde meados de julho, o consumidor brasileiro tem a oportunidade de conhecer as novas big trail da Honda.

A moto chega em dois modelos (Standard e Adventure Sports) sendo que em cada uma delas, há a versão com câmbio convencional ou de dupla embreagem (DCT), resultando em quatro possibilidades.

Nosso colaborador Julio Rosenfeld esteve presente no evento de apresentação oficial da moto e pôde conferir como cada uma delas se comporta. A matéria contendo todas as informações técnicas e novidades foi publicada originalmente em nossa edição de número 249 (agosto/2021) e agora, você acompanha as opiniões dele após um dia inteiro de pilotagem em todas as condições de uso.

Na estrada

Iniciamos o test ride partindo para a rodovia. Nem passamos por trecho urbano, o ponto de encontro foi direto na estrada mesmo. O destino era Guararema, interior de São Paulo, onde pudemos encarar alguns quilômetros de estradas de terra com cascalhos e muitos buracos.

Fiquei com a Adventure Sports DCT neste primeiro trecho, sorte minha pois estava bem frio. Precisei esperar até o primeiro pedágio para descobrir como ligar os punhos aquecidos, mas ao menos pude aproveitar a proteção aerodinâmica desde o início. Você precisa das duas mãos para levantar a bolha, então é melhor fazer isso ainda parado. Mesmo com ela na posição mais alta, o piloto ainda fica bastante exposto pois ela é estreita, porém reduz um pouco da fadiga em longas viagens.

Ligar os punhos aquecidos também não foi tão trivial, é necessário vasculhar pelas funções do computador de bordo e depois selecionar o nível de aquecimento com outro botão não muito óbvio. Por falar em botões, os punhos da Africa Twin são lotados deles. Setas, funções, controle de cruzeiro e, se for o DCT, você ainda ganha as alavancas para trocas de marcha no punho esquerdo e os seletores de modo do câmbio no punho direito. Pensei que a tela touch fosse livrar alguns botões mas… não foi o caso aqui, lembra uma Goldwing dos anos 90.

O assento da Africa Twin tem dois ajustes de altura, 850mm ou 870mm, e o meu estava na posição mais baixa, o que deixou minhas pernas mais flexionadas. Tenho 1,86m de altura mas, ainda assim, não fiquei desconfortável. A maior crítica ao assento fica por conta da densidade da espuma, excessivamente dura, não tarda a incomodar. O guidão é bem alto, pensado para condução em pé, o que também garante uma postura ereta e confortável para rodar sentado.

Saindo com a moto, logo sentimos seu bom equilíbrio, o que facilita a condução em baixa velocidade. Deixei a minha no D (drive) do DCT para ver como seriam as trocas de marcha. A arrancada lembra um pouco a de um scooter pois você só acelera e a moto vai para frente, mas aqui ela sai de forma um pouco mais brusca, então é preciso ter cuidado com o acelerador. Uma vez na estrada, o modo D não estica muito as marchas e fornece uma aceleração calma e controlada. As trocas de marcha são bem suaves mas, com certa atenção, é possível notá-las. Para realizar ultrapassagens neste modo, o condutor precisa enrolar o cabo até o fim, só então o câmbio vai reagir com mais vigor e baixar as marchas para prover uma aceleração adequada.

O câmbio DCT merece um parágrafo só para ele, mais por sua complexidade que por sua utilidade. No punho direito, ele tem um seletor que permite escolher o modo D ou S (sport). O modo S tem 3 sub modos com diferentes atuações, todos privilegiando uma tocada mais esportiva que o D. Como não bastasse, há outro seletor para o modo manual, que permite trocas através de dois botões no punho esquerdo. Trocar as marchas com botões no punho lembra muito a sensação de trocar as marchas em uma bicicleta de guidão reto. Porém, há muitos outros botões na moto que podem confundir o piloto, como os indicadores, a buzina, etc. Uma vez no modo manual, a moto reage rapidamente aos comandos e o câmbio se mostra eficaz e obediente. Uma vantagem é que a moto nunca vai morrer pois, mesmo no modo manual, se você parar em um pedágio em sexta marcha, ela volta para a primeira automaticamente. 

Na terra

Depois de alguns quilômetros, chegamos à primeira parada, onde trocamos de moto e partimos rumo à estrada de terra. Eu desci da Adventure Sports DCT, modelo top de linha que custa R$ 96.626, para o modelo mais básico. Uma excelente troca para o que vinha pela frente.

Montado no modelo de base, logo me senti em uma moto menor e mais ágil. A bolha não invadia meu campo de visão e o tanque não era tão largo. Ligamos as motos e puxei a boa e velha embreagem para espetar a primeira com o pé. Tinha sentido falta do câmbio convencional.

Logo nos primeiros metros, me senti com maior domínio da moto, mais familiarizado com ela. Sabe do que ela me lembrou? De uma XRE 300. É isso mesmo, ela é tão maleável e fácil de conduzir que parece uma moto menor, mas com muito motor. E é justamente essa característica que a torna tão competente no off-road. Conduzir em pé? Moleza. Engolir buracos? Facinho. Dar saltos? Também sabe. O acerto de fábrica das suspensões é um tanto rígido, possibilitando uma condução mais esportiva na terra sem deteriorar a agilidade e estabilidade no asfalto.

O motor é um show à parte. Ele é muito elástico, permitindo tracionar desde rotações super baixas, abaixo de 2.000 rpm, sem trepidar ou reclamar. De lá para cima vem a porrada, sempre disponível quando se enrola o cabo. E uma das melhores partes é o ronco, delicioso, encorpado, como você imaginaria em uma dirt bike sobredimensionada. Ah sim, esse motor tem o necessário para te deixar com um sorriso no rosto, ainda mais em uma moto tão ágil como a Africa Twin de base, com seus 206 kg à seco.

Os freios também não deixam nada a desejar. São fortes e o ABS de última geração consegue funcionar bem tanto na terra como no asfalto. O câmbio convencional fornece trocas suaves e a embreagem não é das mais pesadas, mas nem das mais leves.

Logo paramos para mais uma troca de moto. Desta vez, fiquei com uma Adventure Sports manual para uso na terra. Vale lembrar que, além das carenagens extras, essa versão, mesmo manual, tem suspensões eletrônicas e esse foi o momento de avaliá-las.

A primeira coisa que veio à mente foi que a bolha, mesmo na posição mais baixa, atrapalha a visão quando estamos na terra. As suspensões tiveram uma atuação semelhante à da versão de base, isso rodando no modo Gravel que, neste modelo, altera o ajuste. Fora isso, não senti tanta diferença.

Depois paramos para mais uma troca, desta vez fiquei com a Africa Twin DCT, para rodar na terra. Tonto que fui, selecionei o modo D para ver como seriam as trocas de marcha automáticas na terra, péssima idéia. O câmbio fica indeciso, joga a terceira no meio da subida e deixa o motor sem fôlego, depois precisa reduzir e ainda arrisca dar uma patinada no momento. Acabei completando o percurso com ela no modo manual, trocando as marchas com os dedos mesmo, e sem maiores dificuldades.

Por último, me colocaram de volta na versão mais básica para completar o percurso rodoviário do retorno. Quer saber de uma coisa? Seria a versão que eu levaria para casa. Uma trail legítima com patada de sobra, uma máquina de diversão, que permite uso radical ou racional, mas sempre com emoção.