Big Trip – Caverna do Diabo (SP) – História, curvas e cavernas

Estrada da Caverna do Diabo

Trecho entre Piedade e Eldorado (SP) oferece uma viagem que remete aos tempos da imigração europeia ao Brasil e aventuras por serras repletas de estradas sinuosas que levam até as cavernas do sul do Estado

Texto: Celso Renato A. da Silva
Fotos: Marco Mendes

Alguns dos atrativos da região Sul do Estado de São Paulo são praias, como Peruíbe, Ilha Comprida, Iguape e Cananeia. Seguindo mais ao sul, surge também uma região riquíssima em grutas e cavernas e que estão espalhadas em quase dez municípios. Labirintos, fendas, pequenos riachos de água límpida, estalactites e estalagmites e cores incomparáveis estão sempre prontos para a descoberta dos amantes da natureza. Uma das mais famosas é a Caverna do Diabo, a maior caverna paulista, que fica na cidade de Eldorado, distante 248 km da capital paulista. Para quem parte da capital rumo a este atrativo, o caminho mais comumente utilizado é a Rodovia Régis Bittencourt (BR-116). Alguns optam por seguir pelo litoral, pela Rodovia dos Imigrantes, depois Rodovia Padre Anchieta e seguem então por Peruíbe até a Rodovia Regis Bittencourt, já na cidade de Miracatu.

Mas este nosso roteiro tem uma proposta diferente de caminho, sem passar pela BR-116. Assim, traçamos uma rota a partir de Piedade, onde iniciamos a viagem rumo à Caverna do Diabo. Esse início de viagem acontece em um lugar muito bacana, conhecido como Vila Élvio. Dali a viagem irá prosseguir por uma serra, até o Vale do Ribeira, e seguir por estradas vicinais até Eldorado. E logicamente, para deixar o passeio mais divertido, surgirão alguns trechos em terra.

HISTÓRIA

Piedade é uma simpática cidade do interior paulista, a 135 km da capital e a 30 km de Sorocaba. É ali, em sua zona rural, que surge a Vila Élvio que, além de ser uma localidade muito charmosa, possui uma rica história ligada à imigração italiana na região. Essa história começa com o imigrante italiano Luigi Liscio, que desembarcou no Brasil no fim do século XIX e tornou-se pioneiro na fabricação de móveis em larga escala. Anos depois, o bem-sucedido empresário novamente surpreenderia a todos com a criação de uma colônia agrícola como satélite de sua indústria instalada em Piedade, onde iniciou a aquisição de terras em 1935, atraído pela vegetação abundante em espécies de madeira.

Foi nesse mesmo ano que faleceu seu jovem filho Élvio. A vila, que já despontava na época, ganhou o nome deste filho como homenagem. Nascia então a Vila Élvio. Os imigrantes que se integraram ao projeto de Luigi Liscio encontraram ali uma oportunidade de viver em paz, de ter onde morar, trabalhar e ter seu próprio sustento. A Organização Agrícola Vila Élvio pautou-se em exigências técnicas de profissionais vindos da Europa. Na época, havia uma pequena serraria, tocada por uma roda d’água e, em 1939, foi construída uma usina para iluminar as moradias (até hoje em funcionamento). Crescia assim indústria e a Vila Élvio se expandia, passando a contar com infra-estrutura, sistema de escoamento de águas pluviais, pronto-socorro, padaria, escola, armazém, quitanda, hotel, restaurante e até cinema.

O êxito do empreendimento se deu em virtude das conquistas obtidas pelas famílias que fizeram parte dessa história. Atualmente a pitoresca Vila Élvio possui 2.221 hectares e integra a Reserva Estadual do Parque do Jurupará. No local existe a Gruta Nossa Senhora de Lourdes, com grande importância na história religiosa de Piedade, e o Horto Florestal, um belo refúgio numa área de Mata Atlântica, que conta com lagos e trilhas para passeios ecológicos. O local também concentra nos finais de semana grupos de aventureiros para desbravar as suas trilhas, de bicicletas, motos e jipes. Enfim, apenas a história desse lugar e seus atrativos já fazem merecer uma viagem até Piedade. Mas nossa proposta é ir um pouco além.

CURVAS E MAIS CURVAS

Depois de explorar a Vila Élvio, seus atrativos, estradinhas e trilhas, será hora de continuar a viagem e seguir rumo à rodovia BR-478, que liga Piedade a Tapiraí. Cruze a cidade de Tapiraí e comece a descer a serra sentido Juquiá pela Rodovia Tenente Celestino Américo. Essa estrada é um capitulo à parte do roteiro, extremamente sinuosa e emoldurada pela vegetação de Mata Atlântica, em muitos pontos margeada pelo Rio das Corujas. É um trecho muito prazeroso para pilotar. Ao final da serra está a cidade de Juquiá, no Vale do Ribeira.

VALE DO RIBEIRA

O Vale do Ribeira está localizado no sul do Estado de São Paulo e norte do Estado do Paraná, abrangendo a Bacia Hidrográfica do Rio Ribeira de Iguape e o Complexo Estuarino Lagunar de Iguape-Cananeia-Paranaguá. Sua área inclui integralmente a extensão de 31 municípios (nove paranaenses e 22 paulistas). A região destaca-se pelo alto grau de preservação de suas matas e por grande diversidade ecológica. O Vale do Ribeira atualmente se caracteriza pela grande concentração de pequenas propriedades, com até 50 hectares. A principal cultura atualmente é a da banana, seguida da carne bovina, do tomate e da tangerina, além da atividade de pesca em sua porção litorânea.

Na região há uma série de projetos e ações de geração de renda e manejo sustentável de recursos naturais colhendo resultados positivos. Um bom exemplo é o turismo, que gera empregos tanto em Iguape e Ilha Comprida, no litoral, como em Iporanga e Apiaí, no Alto Vale. Uma das maiores atrações da região é o conjunto de cavernas calcárias, um dos mais expressivos do mundo. As mais famosas, entre as mais de 200 catalogadas, são as cavernas do Diabo, Santana, Morro Preto, Água Suja e Casa da Pedra.

MAIS ESTRADA

Sabendo agora um pouco sobre o Vale do Ribeira, continue acelerando. Atravesse Juquiá e siga pela rodovia SP-165 sentido Sete Barras. Nesse trecho o fluxo de veículos é pequeno e não surgem pontos de assistência. Por isso, não faça este trecho necessitando abastecimento. Cruze então Sete Barras e acesse a Estrada Municipal Sete Barras sentido Eldorado e, em seguida, siga pela Rodovia Benedito Pascoal de França, sentido Iporanga. Essa pista margeia o Rio Ribeira de Iguape acompanhando toda a sua sinuosidade, o que permite uma pilotagem divertida com um cenário cinematográfico. Vá com calma e curta a paisagem, pois cenas surreais, como bois atravessando o rio embarcados em pequenas balsas, podem surgir a qualquer momento. Siga então a sinalização que leva até a estrada de acesso para a Caverna do Diabo. Uma serrinha de aproximadamente 5 km levará o visitante até a portaria do Parque Estadual da Caverna do Diabo.

CAVERNA

Localizada no Parque Estadual de Jacupiranga, no município de Eldorado, a Caverna do Diabo é a maior do Estado de São Paulo. Desde sua descoberta, há mais de 50 anos, sua história é povoada pelas mais incríveis lendas. A caverna não é totalmente aberta à visitação pública. Dos seus 8.000 metros de extensão, apenas 800 metros estão livres para os turistas. Essa área dispõe de sistema de luz, passarelas, escadas e corrimãos. A visitação na caverna é feita de terça-feira a domingo, das 8h00 às 17h00, ou até se atingir o limite máximo de visitantes por dia (336 pessoas). A entrada da caverna fica a 500 metros de altitude e, lá dentro, o cenário é surpreendente. Curiosas estalactites, estalagmites, cortinas de pedras e cascatas de calcita intrigam especialistas e turistas que tentam desvendar os mistérios do lugar. As estalactites se formaram com a penetração da água no solo e, posteriormente, na camada de calcário, até atingir o teto da caverna. As estalagmites se elevam do solo, numa proporção estimada em um centímetro cúbico a cada 10 anos, o que justifica a preocupação dos guias e guardas da caverna com a degradação de seu interior.

VOLTA PARA CASA

Depois da visitação à Caverna do Diabo será hora de seguir para uma pousada da região ou então voltar para casa. No caso de quem voltará para a capital paulista nossa dica é descer a serra até a Rodovia Benedito Pascoal de França e seguir sentido Eldorado. Pegue então o acesso para Cajati e siga pela Estrada Itapeúna/Cajati, em terra, até a Rodovia Regis Bittencourt.

BOX

A moto utilizada foi uma Ducati Hyperstrada 2016, ótima para viagens com extremo conforto e também condução em estradas de terra com segurança.

Este roteiro é bem tranquiilo e viável para motociclistas iniciantes em aventuras on e off-road, pois poucos trechos possuem dificuldades. Com piso seco é possível fazer todo o percurso com pneus originais e com segurança.

SERVIÇOS

Aventur (11) 99296-4677

Fale com Celsinho, que organiza trips on e off road Brasil afora (www.aventur.tur.br).

APOIO

Aplicar logotipos: Ducati – Alpinestars – Bell

*Matéria publicada na edição #187 da revista Moto Adventure.

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