Destino: América do Norte – Parte 1

Pilotar uma Honda Gold Wing pelos EUA e Canadá pode ser muito mais prazeroso do que se imagina

Texto e fotos: Carlos Rigueira

Longas viagens sobre duas rodas sempre despertaram o interesse do motociclista Carlos Rigueira – que, em mais de dez anos, já percorreu boa parte do globo terrestre. Seus roteiros nunca são repetidos, pois a intenção é explorar todas as variações possíveis de vegetação e paisagem. Desta vez, os destinos escolhidos foram os EUA e o Canadá. O objetivo era percorrer, a bordo de uma Gold Wing, a América do Norte de costa a costa em apenas nove dias. Na sequência, confira o relato do motociclista.

PRIMEIRA VIAGEM

Desembarquei em Nova York (EUA), onde permaneceria por apenas 24 horas. Tempo suficiente para pequenas compras e um passeio pela Times Square. Era minha primeira viagem aos Estados Unidos e o desejo era apenas sentar na moto e seguir viagem através do país. O trânsito da cidade se assemelha (e muito!) ao trânsito de São Paulo. Caos total!

Um “city tour” pela cidade dura, em média, duas horas – mas só algumas quadras são percorridas, nada mais do que seis quilômetros. Ao contrário do que pensamos, não há, nas ruas, uma grande quantidade de motocicletas. Notei que, no trânsito, os norte-americanos são pacientes, ninguém buzina. Há concordância com a situação. No dia seguinte recebi minha fiel companheira, uma Honda Gold Wing. Na versão norte-americana, a motocicleta tem GPS integrado ao painel. Completíssima e fantástica! A primeira sensação ao subir na máquina foi de receio… Sempre pilotei modelos Harley e a Gold Wing era uma experiência nova. Confesso que tentei compará-las nas primeiras 50 milhas, mas desisti… Tudo é diferente (chassi, motor, câmbio, suspensões, assentos, ciclística, centro de gravidade etc.). Cabe a cada motociclista definir qual o modelo que melhor o atenda. Resolvi passar de motocicleta pela Ponte do Brooklyn, primeira ponte suspensa forjada em aço (esta obra-prima data de 1883). A sensação foi de extrema liberdade.

“DESCULPE!”

A saída da cidade de Nova York não foi fácil. Evitei pilotar entre os carros e permaneci quase uma hora em apenas três ruas. Por seu porte, a moto chamava muita atenção, já que estava parado em ruas movimentadas.

Depois, peguei a Rota 87 em direção a Québec no Canadá. O primeiro trecho da viagem era de 830 km. Chovia e fazia frio.

Mantive a velocidade de 70 milhas (112 km/h) por um bom tempo, pois não queria ter problemas no país. Percebi que muitos motoristas não respeitavam a velocidade máxima. Não tive nenhum problema com relação à velocidade – mas sim, quando, em um pequeno vilarejo, ultrapassei uma viatura policial que estava com as luzes acessas sem o uso da sirene. Em apenas um segundo, a viatura acelerou em minha direção com uma sirene estridente e um forte farol. Razão: É proibido ultrapassar viaturas quando estas reduzem ou param o trânsito. A multa foi discutida e, depois de alguns minutos, fui liberado sem ser multado. A palavra “desculpe” funciona muito bem naquele país.

VILAREJOS PECULIARES

Segui viagem e notei a existência de muitos hotéis pelo caminho. Mas as opções mais interessantes são os de duas a três estrelas, das redes “Motel 6”, “Super 8” e “Holiday Inn”. Os valores das diárias são módicos, bem diferentes dos nossos – em média, US$ 60,00. Não é preciso reservar, sempre há quartos disponíveis. As rodovias são bem sinalizadas e os postos de gasolina adotam o sistema pré-pago de auto-atendimento. Um galão tem 3,78 litros e custa entre US$ 3,70 e  US$ 4,00, menos da metade de nossa melhor gasolina, a Podium, da Petrobrás. Vale lembrar que a gasolina norte-americana é pura, sem etanol.

O leste dos EUA, diferentemente do oeste, não possui rodovias com longas retas. É importante ficar alerta mesmo com navegação GPS. Os vilarejos são peculiares e, a cada parada, surge algo novo e muitas pessoas curiosas. É um bom momento para um bate-papo. Conversar sobre política pode ser um pouco difícil, caso não haja confiança. Em geral, as pessoas são simpáticas e prestativas. É uma experiência muito legal.

CANADÁ

À noite cheguei à fronteira do Canadá. Não houve burocracia quanto à documentação, mas sim, quanto à motocicleta. Fui levado a uma sala e, quando retornei, percebi que os policiais tinham aberto as maletas (uma delas não travou). Houve uma rápida revista. Na sequência, contornei a cidade de Montreal. A partir daí ainda havia 250 km. Segui pela Rota 20 da parte franco-canadense. O idioma e o clima mudaram. Começou a nevar – e pilotar nessas condições é sempre uma experiência marcante. Nada de manobras bruscas e atenção redobrada em baixa velocidade. Cheguei a Québec depois da meia-noite.

QUÉBEC

Com quase 700 mil habitantes, Québec lembra Paris. Uma coisa interessante é o fato de ser murada – é como se estivéssemos em uma fortaleza. Não há nada igual na América do Norte. Suas ruas de pedras e construções históricas têm uma atmosfera romântica. A cidade é dividida em duas partes: a alta (Haute Ville) e a baixa (Basse Ville). Cerca de 80% da população é descendente de franceses. Outro fato interessante é que a maioria é católica, diferentemente do resto do país, onde há mais protestantes.

PAISAGEM FANTÁSTICA

No dia seguinte, percorri o centro da cidade e segui viagem em direção a Montreal e Toronto. Não quis repetir o percurso da ida e optei pela Rota 40, que está no outro lado da hidrovia do Rio São Lourenço. O novo trecho era de 803 km. A paisagem é fantástica. Há bosques em todo o percurso. Creio que esta seja a região mais bela do Canadá. A vontade é parar no acostamento e tirar fotos e mais fotos. Podemos ver grandes embarcações em um espaço especialmente projetado para isto. Cheguei a Montreal no horário do almoço. Não quis ficar muito tempo, pois minha intenção era priorizar a estadia em Toronto. Permaneci alguns minutos à beira do São Lourenço, onde desfrutei das iguarias de um bistrô. Visitei a Basílica de Notre-Dame, construção do século XVII que mescla elementos neoclássicos e neogóticos, principal ponto turístico da cidade.

CARTÕES POSTAIS

Continuei na estrada e as paradas foram apenas para abastecimento. A Gold Wing consumia cinco galões (19 litros) a cada 45 minutos a uma velocidade de 90 a 100 milhas/h (de 144 a 160 km/h). Uma média compatível com a cilindrada (1.832 cc). Cheguei em Toronto no final da tarde. Já na entrada da cidade é possível avistar a CN Tower, torre de televisão cartão postal da cidade. Essa torre tem 553,33 metros e é a segunda maior do mundo. Nela há um restaurante com vista panorâmica de 360°. A sensação é única. O restaurante serve ótimos pratos internacionais, além dos tradicionais da culinária local. Sentamos em verdadeiros sofás em um local com ar romântico e aconchegante.

No dia seguinte segui para as Cataratas do Niágara (estava apenas a 130 km dele). Minha intenção era passar algumas horas no local e seguir pela Rota 401 até Detroit, já do outro lado da fronteira. O percurso do dia ficou determinado em 530 km.

PARQUE DE DIVERSÕES

O estrondo das Cataratas do Niágara pode ser ouvido a alguns quilômetros, mas o magnífico arco de água que despenca de duas quedas em um ângulo de 90° em meio a nuvens densas é algo fascinante – único! A Torre Skylon proporciona uma visão privilegiada de toda a extensão das cataratas, principalmente à noite, quando há iluminação das margens do Rio Niágara. Interessantes, também, são os passeios de barco: uma aventura e tanto.

Os canadenses montaram nas proximidades das cataratas um parque de diversão com diversos atrativos. Vale a pena, principalmente a casa mal-assombrada. Há, ainda, uma concessionária Harley-Davidson cujo “cartão de visita” é uma Deluxe (posicionada à frente do estabelecimento). Dali segui pelas Rotas 403 e 401. London, cidade universitária de médio porte (tem 337 mil habitantes), despertou minha atenção. A Universidade Western Ontário é a principal. O centro é muito agradável e oferece ótimos restaurantes, nos quais se come ao ar-livre. Almocei já no fim da tarde e prossegui viagem. A fronteira dos EUA estava a poucos quilômetros e já se percebiam os contrastes entre as casas do lado canadense e os imponentes prédios norte-americanos. Optei por pernoitar na fronteira e fugir do agito da metrópole que me esperava.

*Matéria publicada na edição #129 da revista Moto Adventure – Parte 1.

Veja Também

DEIXE UMA RESPOSTA