Destino: América do Norte – Parte 2

A bordo de sua Honda Gold Wing, um motociclista brasileiro sobreviveu a um ciclone e vivenciou “in loco” a cultura estadunidense

Texto e fotos: Carlos Rigueira

Na segunda parte desta expedição, o motociclista Carlos Rigueira cruzou os estados do Michigan, Indiana, Illinois e Missouri. Percorreu quase todo o território da Região dos Grandes Lagos, área de grande beleza natural. Saiba mais no relato do viajante.

DETROIT

A nova etapa da viagem contemplou a travessia da fronteira dos EUA. Detroit estava a apenas 5 km. É fácil perceber os contrastes entre a pacata cidade canadense e a metrópole norte-americana. Uma magnífica ponte suspensa separa os dois países – a Ponte Ambassador. Atravessá-la é um dos pontos altos da viagem.

A alfândega é dividida em duas partes, uma à esquerda (para veículos de passeio) e a outra à direita (veículos de carga). Quase não há sinalizações e a chance de erro é grande. Infelizmente, foi o que aconteceu comigo. Segui entre os caminhões até que a polícia me abordasse a poucos metros da cancela de acesso. Os policiais ficaram muito irritados e fizeram várias perguntas. A sensação que tive foi a pior possível. Imediatamente pensei que perderia a motocicleta e ainda pagaria uma multa pesada. Mantive a calma e logo percebi que o problema não era o trajeto proibido, e sim, minha segurança. Era apenas uma advertência.

Segui em frente e fui conhecer a região metropolitana de Detroit, que possui 4,5 milhões de habitantes. É a maior cidade do estado do Michigan. Ali estão as sedes de montadoras como General Motors, Ford e Chrysler. A principal fonte de renda é a indústria automobilística. Interessante ressaltar que a origem do nome da cidade é francesa. Significa, em nosso idioma, “o estreito”. Detroit foi fundada em 1701, pelo comerciante de peles francês Antoine de la Mothe Cadillac.

Avistei diversos prédios em total abandono – além de muitos mendigos. Uma situação bem diferente às de outras grandes cidades do país. Tal decadência econômica foi acentuada nos últimos anos. Hoje, quase um quarto da população de Detroit vive abaixo da linha da pobreza.

LAGO MICHIGAN

De volta à estrada, meu objetivo, naquele dia, era percorrer 460 km até Chicago. Na saída de Detroit passei por Livonia, cidade com 95 mil habitantes e assim nomeada em homenagem a Livonia, região que compreende a Letônia e a Estônia. Fiz um breve passeio pelo centro, conhecendo o prédio da Universidade Eastern Michigan e sua imponente estrutura de vidro.   Segui pela Rota 94 em direção ao Lago Michigan. Após percorrer 200 km, fiz uma pequena pausa para o almoço em Battle Creek. A cidade ficou conhecida pela clínica do Dr. John Kellog, um entusiasta dos cereais como refeições matinais. Ele, juntamente com o irmão, fundou a Kellog’s, uma gigante do ramo alimentício. Pouco mais de 100 km me separava do Lago Michigan. Minha intenção era conhecer suas margens. O lugar é fantástico: à primeira vista, parece um mar. Inclusive, havia muitos banhistas e guarda-sóis. Deixei a Honda Gold Wing, minha fiel escudeira, no calçadão, e caminhei (já com sunga de banho) em direção à água. A temperatura estava amena. Não deu a mínima vontade de deixar o local. Nadei a certa distância da margem, onde, no início do percurso de volta, um grupo de norte-americanos me deu carona em uma lancha. Eles escutavam em alto volume a banda Rolling Stones. Sensação de liberdade máxima!

CHICAGO

De Stevensville, parti rumo a Gary, a quase 100 km de distância. A cidade se destaca pelo maior percentual de população afro-americana do país – e também por ser a cidade-natal de Michael Jackson. Desejava visitar a casa do saudoso cantor, mas fui alertado pelo gerente de um posto de gasolina do perigo que corria: a região tem altos índices de furtos, roubos e homicídios. A princípio, imaginei ser um exagero, mas percebi as grades no caixa do estabelecimento e as câmeras de vigilância. O gerente me advertiu: “Já fui assaltado três vezes. Abasteça, não fale com ninguém, monte em sua moto e siga viagem.” Foi o que fiz, rumando para Chicago (que estava a apenas 50 km dali).

Esta cidade possui quase três milhões de habitantes, sendo a terceira mais populosa dos EUA. Ano passado, a área metropolitana de Chicago tinha o quarto maior PIB (Produto Interno Bruto) entre as áreas metropolitanas do mundo. A arquitetura merece destaque: imponentes edifícios, vários deles, únicos em termos de design, se destacam na paisagem. Sete estilos se sobressaem: o neogótico, o desenho italiano, o Românico Richardsoniano, o Anne, o neoclássico, o internacional e o pós-moderno. Também me impressionou a enorme quantidade de teatros naquela região. O principal, o Teatro Chicago, deve ser visitado por qualquer turista.

Destaque, também, para o magnífico Sears Tower: com 442 metros de altura, é um dos maiores edifícios do mundo, além de cartão-postal da cidade. É recomendável subir de elevador até o 103° andar, de onde se avista toda a cidade em um ângulo de 360°.

Outra atração curiosa é a linha férrea. Sua estrutura é suspensa, feita de aço, e atravessa boa parte do centro. Pernoitei na cidade e, no dia seguinte, segui para St. Louis. O trecho a ser percorrido naquele dia era de 480 km. Tratava-se do início da famosa Rota 66, rodovia de 3.775 km que conecta Chicago a Los Angeles.

SPRINGFIELD (ILLINOIS)

Depois do primeiro abastecimento, percebi, já na estrada, que três caminhoneiros buzinavam em minha direção. Algo estava errado (ou estava prestes a acontecer). Não entendi o aviso e, de repente, me vi sozinho na rodovia. Logo a intensidade do vento aumentou. Estava prestes a vivenciar a situação mais difícil de minha vida sobre duas rodas. Fortes ventos (a mais de 200 km/h) sopravam da esquerda para a direita. Era um ciclone! O inferno estava ali, materializado em violentas golfadas de ar. A Gold Wing ficou totalmente instável, leve como uma folha de papel. Era impossível parar no acostamento – seria tombo certo. O acesso a uma saída da rodovia também já não era possível. Reduzi a velocidade para 40 km/h e deixei a moto em primeira marcha. Era uma forma de deixá-la mais pesada. Inclinei a motocicleta contra o ciclone. A força era imensa e, quando sentia estar perdendo a batalha, acelerava mais um pouco e jogava o guidão contra o vento. O sofrimento durou quase duas horas. Tive muita sorte, nada de pior me aconteceu.

Fiz uma parada em Springfield (Illinois), pacata cidade com 117 mil habitantes. É importante ressaltar que há duas localidades com o mesmo nome: a primeira, capital do Illinois e a segunda, uma cidade do Missouri.

Springfield é reconhecida nacionalmente como um centro gastronômico. Convém experimentar algumas iguarias locais e curtir os vários restaurantes do centro. Outro destaque é a quantidade de monumentos em homenagem a Abraham Lincoln.

  1. LOUIS

No final do dia, parti para St. Louis, cidade com 350 mil habitantes localizada no Missouri. O trecho a ser percorrido era de 155 km.  Na entrada, fiquei fascinado com o Gateway Arch, projetado em 1947 pelo arquiteto finlandês Eero Saarinen. É considerado o mais alto monumento dos EUA.

Ali existem nada menos que 105 parques. O Forest Park é um dos maiores parques urbanos do mundo. O clima romântico é marcante, mesmo em se tratando de uma área urbana.

No centro há diversos bares e casas noturnas. Alguns só tocam jazz e blues. Escolhi a BB’s e permaneci no local até às 02h00. A casa recebe os melhores músicos do país. Ali podemos vivenciar a essência da cultura norte-americana.

Determinei o novo trecho em 800 km, no qual meu objetivo era chegar a Oklahoma City. Na saída de St. Louis, peguei a Rota 44. Aquela rodovia conta com infinitas retas e é paralela à Rota 66.

Vale lembrar que, desde 1985, a Rota 66 está desativada (ou seja, não faz mais parte do U.S. Highway System). Hoje, só é possível percorrer pequenos trechos de seu percurso.

SPRINGFIELD (MISSOURI)

Cheguei a Springfield  (Missouri) no começo da tarde. A cidade tem 150 mil habitantes e é o endereço dos personagens da série em desenho animado “Os Simpsons”. Almocei ali e fiz um rápido passeio pelo centro, pois minha intenção era chegar, no início da noite, a Oklahoma City.

Esta cidade, por sua vez, possui 530 mil habitantes (é a terceira maior do país em extensão territorial). Conta com um bom número de museus, com destaque para os lúdicos Museu do Cowboy, Museu de Artes e Museu Histórico Nacional. Passeios imperdíveis são percorrer de barco o Rio Oklahoma e ir conhecer a Floresta Nacional de Ouachita, um lugar único. Curti muito a região e descansei um pouco, repondo energias para as aventuras que estavam por vir.

Confira a Parte 1 dessa aventura.

*Matéria publicada na edição #130 da revista Moto Adventure – Parte 2.

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