On The Road – EUA – Cenas de um casamento

EUA

Para comemorar os primeiros 15 anos de uma união feliz, casal de Recife (PE) rodou 5.500 km e cruzou 14 estados dos EUA

Texto: Lúcio Peccolo
Fotos: Lúcio Peccolo/Fabíola Peccolo

Em agosto de 2008, o motociclista Lúcio Peccolo e sua esposa, Fabíola, junto com mais dois casais de amigos, começaram a esboçar um roteiro para uma grande aventura em duas rodas. Em dezembro de 2009, Lúcio e Fabíola comemoraram 15 anos de casados – e nada melhor que uma viagem de Harley-Davidson à terra do Tio Sam para comemorar a data em grande estilo.  Confira, na sequência, o relato de Lúcio sobre a romântica aventura.

EM TERRAS DO “TIO SAM”

“Nosso trajeto concentrava-se na Costa Oeste dos EUA, passando pelo Grand Canyon e Yellowstone, até Sturgis. Mas, na época, devido ao aumento da cotação da moeda norte-americana, decidimos mudar o roteiro, passando para a Costa Leste e reduzindo em alguns dias a viagem. Por problemas pessoais, nossos quatro amigos decidiram cancelar o passeio. Triste com a notícia, olhei para Fabíola e perguntei:  “e agora? “

Fabíola sempre foi uma ótima companhia e, dentro desse mesmo espírito, retrucou: “ora – vamos apenas nós!” Devidamente motivado, providenciei a compra das passagens, reservei uma Harley Electra Glide na Eagle Rider e me preparei para deixar o Recife (PE) rumo aos EUA.

A primeira dificuldade encontrada foi convencer minha esposa a levar poucas peças de roupas e cremes – uma vez que, nas viagens de três dias, os alforjes de minha H-D já ficam lotados. Imagine, então, em 20 dias! Com isto resolvido, elaboramos um trajeto diferente do trivial. Apesar de ter Milwaukee como destino ao norte, passamos a dar preferência, também, a localidades do interior, principalmente na região de Great Smoke Mountains.

PRIMEIRA ETAPA

Deixamos o Recife no dia 21 de junho de 2009, com uma dor no coração: nunca ficamos tanto tempo longe dos nossos filhos, Letícia e Lucas. Chegamos a Atlanta (EUA) na madrugada do dia 22 de junho. Na manhã seguinte, às 09h00, já estávamos na frente da loja da Eagle Rider, prontos para dar a partida na moto.

Procedemos com o aluguel e, contando com a simpatia e a presteza de nosso amigo J.J. Cox, da Eagle Ride, logo estávamos montados em uma H-D Electra Glide Red Ruby. Mas antes de pegarmos a estrada, paramos em um shopping para algumas compras de última hora.

No final da manhã, lá estávamos nós, rumo ao oeste e em direção a Jasper, no Alabama. Como a tarde era linda, com um sol de rachar, acabamos parando apenas em Memphis.

Na manhã seguinte, fizemos um “tour” por Graceland (a casa de Elvis Presley).  Foi emocionante conhecer a moradia do Rei do Rock.  O cara era fantástico e tinha um grande coração. Impressionou-me a comoção  das pessoas diante do tumulo do cantor. Não minto: foi contagiante.

Logo após a parada na loja da HD-Graceland, pegamos novamente a estrada, em direção a St.Louis. Com ótimo tempo e estrada, chegamos bem no final da tarde, parando em um bairro italiano. No dia seguinte, fomos conhecer St.Louis, um lugar lindo e com uma universidade que parecia mais uma cidade independente. Com os corações acelerados, colocamos novamente o pé na estrada em direção a Milwaukee, pela 55 Norte. No caminho entramos em algum ponto na Route 66.

Minha esposa estava eufórica, assim como eu: estávamos passando por uma estrada lendária. Pequenas cidades (que, outrora, foram muito prósperas) agora padecem em uma pacata rotina interiorana. Também avistamos postos de gasolina que, hoje, servem apenas de cartão postal, além de restaurantes e lanchonetes da década de 1950 que dão um clima nostálgico àquela rodovia. Nossa meta para o dia era chegar a Milwaukee. Porém, depois de tantas paradas para fotos, achei melhor dormirmos no caminho, mesmo.

Optamos por Dwight, que deve ter tido dias gloriosos no passado. Já no hotel, conheci um casal de idosos que também viajava com uma H-D. Com um Inglês bem enrolado, informei que, no próximo dia, estaria passando por Chicago, a caminho de Milwaukee. Foi quando o senhor me disse: “não passe por Chicago, é uma cidade de loucos.” Fiquei apreensivo, mas, no dia seguinte, não mudei meus planos.

Pois não é que o velhinho tinha razão? Era quinta-feira e, nas proximidades de Chicago, o trânsito literalmente “parou”.  Eram várias as pistas, e todas “travadas” (me lembrei da Marginal do Tietê, em São Paulo!). À frente, olhei uma saída e disse a Fabíola: “ponha o GPS para trabalhar.” Realmente, este aparelho é um show – logo após a saída da auto-estrada, ele nos colocou em uma rota paralela com destino a Milwaukee. Após algumas milhas de estrada em obras (Chicago/Milwaukee), decidi sair novamente da rodovia (94 Norte) e pegar uma via estadual, mais calma e tranquila. Foi assim que chegamos à Casa da Harley-Davidson e concluímos a primeira etapa da jornada.

SEGUNDA ETAPA

Logo na chegada a Milwaukee, vimos que não seria tão fácil achar hotel – ali acontecia o Festival de Verão, com shows programados de bandas como Bon Jovi e Kiss, entre outras.  Ficamos hospedados na região do aeroporto, um pouco distante do Museu da Harley, mas tudo era festa.

Fizemos o check-in no hotel, deixamos as malas no quarto, tomamos um banho e fomos direto ao Museu. Tinha visto fotos do local anteriormente, mas a sensação de estar ali era indescritível. Uma faixa de concreto pintado, lembrando um tapete vermelho, nos dava as boas-vindas logo na entrada do estacionamento (onde aconteceria um encontro de motociclistas).

Entramos no museu e mergulhamos em um turbilhão histórico: trata-se de uma empresa que nasceu pequena, à base de dinheiro emprestado, e que passou por guerras, pela Grande Depressão e ultrapassou os 105 anos de atividade. A Harley é pura paixão, um sinônimo de irmandade mundial. A grife é inspiradora, além de ser um símbolo de status. Depois de muitas fotos, “bateu” uma fome…  Dirigimo-nos ao restaurante do complexo, onde dois rapazes tocavam clássicos do rock.  Pedimos algo para comer e beber. Após a refeição, uma “figura”, percebendo que éramos de fora, veio bater papo. Conversamos por muito tempo e, sempre que possível, ele nos apresentava aos amigos: ”they are brazilians”, dizia, entusiasmado. A noite chegou e ficamos assistindo aos fogos do Festival de Verão, do lado de fora do Museu.

Com a dica de uma nova amiga, Keren, fomos, no dia seguinte, a uma das fábricas da Harley nas proximidades de Milwaukee. Na volta, algo que me preocupava se tornou um alívio. Quando reduzia a marcha, o garfo dianteiro tremia, acusando algum problema. Dirigi-me a um “Dealer” Harley, que tinha um preposto da Eagle Rider, e este verificou e trocou o pneu e os batentes dos amortecedores dianteiros. A moto ficou “nova”, pronta para outras tantas milhas. À tarde chegamos a visitar o pier, onde acontecia um festival de motocicletas.   Conhecemos o Lago Michigan, que dava as costas ao festival. Chegou o sábado de manhã e já era hora de partir novamente…

Pegamos a estrada rumo ao sul, aportando em Chicago – que, em pleno sábado, estava mais tranquila. Na cidade caminhamos até a Jackson Boulevard (chegada da Route 66). Nosso próximo passo foi rumo a Indianápolis, pela Rodovia 85 sul. Nesta bela cidade também acontecia um Festival de Verão. A região central estava parada, principalmente nos acessos ao estádio onde acontecia o evento. Achei melhor aproveitar o resto do dia para descansar.

Na manhã seguinte, fomos conhecer melhor a cidade. Dirigimo-nos ao Indianápolis Speedway (o palco da velocidade). Foi interessante pisar em um local onde meu falecido esteve, quarenta anos atrás. Como sou fanático por velocidade, me senti em casa. Depois seguimos viagem e rumamos para o sudeste, pela Rodovia 74, contornando Cincinnati, e descendo pela Rodovia 75 sul, até London, cidadezinha do Kentucky, onde passamos a noite.

Seguimos, então, para Pigeon. Nesse ponto, o trânsito ficou caótico, com quatro pistas paradas. Acabamos entrando no primeiro hotel e fomos conhecer Pigeon, uma cidade voltada ao turismo, com vários parques, pistas de Kart, shopping, casas de shows e outras atrações.

TERCEIRA ETAPA

Ficamos dois dias em Pigeon, onde passeamos no Ober Gatlinburg, bondinho que nos levou ao alto de uma montanha, de onde pegamos outro teleférico.  Lá conhecemos um lugar lindo, preservado, e tivemos a oportunidade de assistir, entre outras atrações, a um show noturno de canto e dança, no qual artistas se revezavam na troca de papéis. Foram vários “covers” de Elvis Presley, Blues Brothers, Willie Nelson e até Hanna Montana. O interessante é que, na plateia, havia muitos casais de idade – alguns estavam juntos há mais de 50 anos.

Depois de aproveitarmos as duas cidades, era hora de pegarmos a estrada em direção a Bristol, nordeste do Tennessee. De Bristol, descemos pela 421 (“The Snake”), rumo a Mountain City, onde tivemos um dos pontos altos da viagem.   A “Snake” é uma estrada estreita e sinuosa, entre três montanhas, um vale e um cruzamento. São 489 curvas! Até então, achava que a famosa “Tail of the Dragon” seria a grande estrada a vencer – porém, a ‘Snake’ nos surpreendeu.

Depois de atravessarmos a primeira montanha, chegamos a Shady Valley, pequeno vilarejo onde há uma Country Store dotada de duas bombas de gasolina, lanchonete e loja com artigos para motociclistas e conveniências em geral. Esta guarda incontáveis histórias de motociclistas que se aventuraram em altas velocidades pelas montanhas.

Escutamos alguns “causos” e seguimos em frente, até chegarmos a uma formação rochosa chamada “Blackbone Rock”.

Voltamos a Shady Valley e pegamos novamente a 421 sul, chegando a Mountain City, onde passamos a noite. No dia seguinte, nosso destino era a montanha “Grandfather”, parque no qual nos foi dado um folheto informando as condições do clima – muito frio e vento fortíssimo – e do acesso ao topo, que se dá através de uma estrada estreita e sinuosa. No lugar, a sensação térmica deixava os ossos congelados. Mas o visual compensava o esforço. Blue Ridge Parkway foi o próximo ponto percorrido. É uma estrada lindíssima, com vários viadutos e túneis, subidas, descidas e pontos de parada com belos panoramas.

Após dormirmos em Asheville, Carolina do Norte, fomos a Chimney Rock pela Rodovia Estadual 9, outra bela pista, estreita, com curvas fechadas e muito arborizada. Chimney Rock é uma formação rochosa explorada pelo Turismo, à qual se tem acesso tanto por elevador como por escadas – muitas escadas!   No parque também há várias trilhas. Uma delas acaba exatamente em uma cachoeira. O lugar é tão lindo que serviu de locação para algumas cenas do filme “O Último dos Moicanos”, de 1992.

Retornando a Asheville, era hora de pegarmos novamente a Blue Ridge Parkway, onde atingimos seu ponto mais alto: 6.053 pés, quase 2.000 metros!   Dali pegamos a Rodovia 441 na direção norte, passando por Gatlinburg e parando para o pernoite em Knoxville. Um dado lamentável é que, por um equivoco, entrei em um parque estadual onde era impossível dar ré ou voltar.   Levamos mais de três horas para sair do local – e descobri que não fomos os únicos motociclistas a entrarem nessa roubada: outros penavam no mesmo destino!

De Knoxville, descemos até a famosa Rota 129, conhecida como “Tail of the Dragon” (Rabo-do-Dragão), com suas 318 curvas em 11 milhas. Foi uma experiência interessante, pois o piso estava molhado e toda a atenção era imprescindível. Rodei bem devagar até Deals Gap, hotel à beira da estrada voltado para motociclistas.  Um pouco mais ao sul, chegamos a uma represa que foi utilizada como locação para o clímax da aventura “O Fugitivo”, em que Harrison Ford e Tommy Lee Jones se enfrentam em uma cena cheia de emoção e adrenalina. Nossa meta seguinte era Helen, já na Geórgia – uma cidadezinha típica alemã, onde, em outubro, acontece a Oktoberfest.

FIM DE JOGO

Saímos de Helen e rumamos para o fim de nossa aventura. Atlanta estava a 80 milhas ao sul. O dia era nublado, prometendo muita chuva, e logo na saída a água caiu, nos acompanhando até a chegada a Atlanta. Apesar da roupa de chuva, bota especial e outros acessórios para a ocasião, nos molhamos bastante –  mas valeu a experiência!

Ao longo desta jornada, que celebrou os primeiros 15 anos de nossa feliz união, rodamos mais de 5.500 km, visitamos 14 estados e fizemos novos amigos.  Voltamos ao Brasil, literalmente, de almas lavadas!

*Matéria publicada na edição #110 da revista Moto Adventure.

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