On The Road – Aventura sul-americana – Bolívia, Chile e Peru

Tríplice Fronteira - Bolívia, Chile e Peru

Os caminhos fascinantes de uma viagem rumo à Tríplice Fronteira – Bolívia, Chile e Peru

Texto: Rigon Albert Hoch
Fotos: Orlando Venera, André Luiz Pereira, Rigon Albert Hoch

Um marco de concreto no meio do Altiplano, simples e interessante como um poste, mas vigiado por três países. Foi o que motivou o início do projeto de uma bela viagem pela Cordilheira dos Andes. “Tripartito” é o nome do marco em questão, que define a Tríplice Fronteira entre Bolívia, Chile e Peru.  Também demos este nome à nossa expedição!

Antes de irmos para a estrada, não podia faltar um bom plano de viagem. Depois de muita pesquisa, tracei uma rota de ida e outra de volta, utilizando, sempre que possível, caminhos pouco conhecidos pela maioria dos viajantes.

Minha moto para a viagem, mais uma vez, seria a Yamaha Ténéré, ano 1989, com a qual já fiz sete viagens pela América do Sul. Como companheiros de jornada, eu teria Orlando Venera, de Jaraguá do Sul (SC), que também ia de Yamaha Ténéré, ano 1990; e André Luiz Pereira, de São José (SC), que completou a família Ténéré, com seu modelo 2012.

SAÍDA

O dia 23 de setembro de 2012 foi a data escolhida para o início da aventura. Seguimos direto de Santa Catarina para a Bolívia, mas, antes, aproveitamos para conhecer a Estrada Parque Pantanal Sul, próximo a Corumbá (MS). Em plena seca, centenas de jacarés se apertavam nas poucas lagoas que restavam, enquanto os peões guiavam o gado pela estrada, rumo a lugares com melhores pastagens.

BOLÍVIA

Cruzamos a fronteira da Bolívia e a diversão começou logo que chegamos à Ruta-4, a mais antiga estrada entre Santa Cruz de La Sierra e Cochabamba. É um caminho de serra, que marca o início da Cordilheira dos Andes. Ali iniciamos, também, os testes práticos de nossas habilidades off-road ao visitarmos lugares como “Los Volcanes”, montanhas de arenito que lembram vulcões e escondidas em um vale de mata preservada (dentro do Parque Nacional Amboró).  Ao sul de Cochabamba, visitamos o Parque Nacional Toro Toro. Cânions, cavernas, a incrível “Ciudad de Itas”, cachoeiras e muitas pegadas de dinossauros são alguns atrativos da região. Um caminho todo pavimentado com pedras redondas, fixadas como paralelepípedos, com mais de 100 km de extensão, nos levou até a cidade de Toro Toro. Ali, contratamos um guia para visitar a região. Dica: são necessários, no mínimo, dois dias para conhecer todo o parque.

CORDILHEIRA TUNARI

A partir de Cochabamba, que fica a 2.500 m do nível do mar, nosso roteiro seguiu por altitudes ainda maiores. Era a hora de ajustar a carburação das velhas Ténérés. Mudamos os giclês por menores e baixamos totalmente as agulhas – aliás, se você tem uma moto injetada, não terá este trabalho. Enquanto acelerávamos, Cochabamba sumia entre montanhas de pura rocha. Aos poucos, atingíamos maiores altitudes, nas encostas da Cordilheira Tunari. O caminho, pavimentado com pedras redondas, nos levou até os 4.485m de altitude. As motos se comportaram bem na altitude, com motor funcionando normalmente e sem falhas.

CORDILHEIRA QUIMSA CRUZ

A Cordilheira Quimsa Cruz apresenta altitudes ainda maiores, além de vários picos nevados, lagunas e geleiras glaciais. Iniciamos a “escalada” por estrada asfaltada, mas logo desviamos na direção de Mina Viloco. Ali, enfrentamos um caminho sinuoso, de rípio, onde, a cada curva, montanhas cobertas de neve surgiam à nossa frente. Impossível não parar para fotografar, principalmente, quando começaram a surgir lagunas verdes ou azuis, de águas cristalinas. Um cenário perfeito de montanha!

Neste caminho, atingimos a altitude máxima, 5.145 metros. Continuamos a acelerar, curtindo o visual do Cerro Gigante, enquanto contornávamos uma laguna, para voltar a descer até os 1.750m do Rio La Paz. Depois, voltamos a subir em direção a Cohoni, um povoado montanhês no qual a linguagem corrente é o “Aymara”. Ali não existe hotel, pousada ou restaurante. Porém, chamamos a atenção dos habitantes e logo uma multidão se juntou ao nosso redor. Conversa daqui, pergunta dali, e logo conseguimos um quarto em uma casa particular. Mais tarde, o proprietário nos levou a uma venda, onde jantamos ao som de um violeiro.

PICO ILLIMANI

O povoado de Cohoni fica aos pés do Pico Illimani, uma das montanhas mais altas da Bolívia, com 6.462 metros de altitude. Dali, também parte um caminho até o acampamento base, que é utilizado por alpinistas. Nosso objetivo era chegar lá de moto. No princípio, um nevoeiro encobria o cume, mas logo fomos presenteados com um céu azul, que permitiu toda a visualização possível da montanha. Foi um caminho difícil, com muita erosão, onde a neve e os riachos congelados derretiam sob calor do sol. Depois de conhecermos o local e deixarmos ali nossa placa, retornamos a Cohoni e, dali, partimos para La Paz, capital agitada e de trânsito carregado. Uma vez que nada se compara à tranquilidade das montanhas, voltamos para elas o mais rápido possível! Dos 4.670m de La Cumbre, seguimos para os 1.700m de Coroico, na região dos Yungas.

CORDILHEIRA REAL

Após uma noite de descanso em baixa altitude, voltamos a subir através da famosa “Ruta de la Muerte”, que, hoje, depois da construção de uma rodovia, praticamente só é utilizada por turistas. Mas seu visual continua o mesmo, dando uma sensação de “queda no abismo” – tanto que várias cruzes surgem ao longo do caminho, lembrado-nos da época em este era o único acesso a Coroico. Nosso primeiro objetivo, na Cordilheira Real, foi chegar à antiga estação de esqui, no Cerro Chacaltaya, a 5.200 metros de altitude. Esta era a estação mais alta do mundo, mas, devido ao aquecimento global, deixou de operar por falta de neve – inclusive no inverno. Continuamos entre as montanhas, rodando por antigas estradas mineiras. O caminho atingiu novamente 5.100 metros de altitude, com direito a uma vista espetacular. O terreno onde nos encontrávamos lembrava os das dunas – porém, era sólido, permitindo passeios em várias direções e novas descobertas.

CORDILHEIRA APOLOBAMBA

Na manhã seguinte, partimos em direção da Cordilheira Apolobamba. Como o lugar fica ao norte da Bolívia, é preciso, primeiro, margear o Lago Titicaca, até perto da fronteira com o Peru – mais precisamente, até a cidade de Escoma.  Assim, percorremos mais de 150 km curtindo o visual do lago navegável mais alto do mundo (e o berço da civilização Inca). O caminho seguiu paralelamente à fronteira com o Peru – por este motivo, é muito vigiado pela polícia. A cada entrada de povoado, era preciso mostrar documentos e responder a algumas perguntas. Isto nos atrasou e, conseqüentemente, não chegamos a Pelechuco naquele dia. Ficamos em uma vila às margens da Laguna Cololo, a 4.700m de altitude. Para complicar, o tempo piorava e, no dia seguinte, continuou fechado, parecendo que ia nevar. Seguimos até Pelechuco, última cidade do Departamento de La Paz. Driblando o tempo ruim, ficamos por lá e assistimos a uma tourada, na praça central da cidade. “Tourada” é um modo de falar: o que acontece, mesmo, é algo como: “solte os touros e salve-se quem puder”. Rimos muito. No dia seguinte, voltamos pelo mesmo caminho até o alto da Cordilheira Apolobamba. O nevoeiro foi se dissipando e conseguimos aproveitar a bela paisagem da Cordilheira.

LA RINCONADA

A intenção era conhecer La Rinconada, a cidade mais alta do mundo, a 5.400m de altitude. Como esta fica a poucos quilômetros da fronteira, em menos de uma hora estávamos lá. Depois, voltamos ao Lago Titicaca e chegamos a Puerto Acosta. Porém, na aduana, não havia escritório de imigração e tivemos que voltar a Copacabana, cidade boliviana com melhor infraestrutura para receber turistas. Bares, restaurantes, hotéis, artesanatos… Vimos uma realidade totalmente diferente do que encontráramos até então. Ali permanecemos um dia, descansando.

CORDILHEIRA VILCANOTA

Depois da folga, a viagem continuou e entramos no Peru. Sicuani foi nossa primeira parada. Perto dali, em San Pedro, visitamos as ruínas do Templo Inca de Wiracocha, de onde partia a estrada para nossa quinta cordilheira, Vilcanota. Um caminho tranquilo (passando pelo povoado de Santa Barbara) nos levou até 4.900m de altitude, às margens da Laguna Sibinacocha. Depois, voltamos para Sicuani.

NASCENTE DO AMAZONAS

O próximo destino era o caminho para a nascente do Amazonas, que inclui o Cânion Suykutambo, formado pelo Rio Apurimac, principal formador do Rio Amazonas. A estrada corta o cânion de ponta a ponta – são mais de 20 km margeando o rio, entre paredões de rocha; incluindo-se, aí, as ruínas Incas de Maukallaqta e Maria Fortaleza. O ponto mais belo é o local denominado “Tres Cañones”, onde três cânions se juntam. Continuamos a subir o Rio Apurimac até tomarmos a esquerda, passando por um divisor de águas. De um lado, a água segue para o Atlântico – é o início da bacia hidrográfica do Amazonas; do outro, vai para o Pacífico. Seguimos para Chivay para o pernoite, uma vez que a jornada até a nascente merece um dia completo. Conhecemos o Vale do Colca, considerado o cânion mais profundo do mundo. No mirante “Cruz del Condor”,  presenciamos vários rasantes deste “gigante do ar”, o Condor. Rodamos de moto até as 10h00, passando, inclusive, sobre a primeira ponte do Rio Amazonas.  Depois, para conhecermos a nascente, seguiríamos a pé. Assim iniciamos a caminhada em altitude, 4.700 metros, e entramos na Quebrada Carhuasanta, a vertente principal. Dali, foram mais duas horas para avistarmos o paredão de onde verte a água. Àquela altura, a coisa já não ia tão bem… Cada passo era um esforço tremendo. Quando avistei a fonte, após mais de quatro horas de caminhada, ela estava a menos de 100 metros de distância – mas, para superar as pedras no caminho, foram necessários outros 30 minutos. Foi emocionante chegar ali, na nascente do maior rio do mundo. Merecia uma placa de nossa expedição, devidamente afixada a uma pedra. Para voltar, encaramos mais quatro horas de caminhada até Chivay.

TRIPARTITO

Para atingirmos nosso próximo (e principal) objetivo – chegar ao Hito Tripartito, entre as fronteiras do Chile, Peru e Bolívia, voltamos para este último país por Desaguadero, de onde seguimos para San Andres, Santiago de Machaca, Berenguela e Charaña, cidade próxima à Tríplice Fronteira. Pela manhã, o prefeito da localidade veio conversar conosco e disse que éramos os primeiros brasileiros de moto a passarem por ali. Se isto é verdade, não sabemos. Fato é que a honraria nos encheu de orgulho e prometemos divulgar aquele lugar em nosso país. Como o “Tripartito” ficava a 12 km ao norte dali, chegamos em poucos minutos. Após 23 dias de viagem, estávamos em um marco de concreto no meio do Altiplano, simples e interessante, como um poste, mas vigiado por três países. Imediatamente, colocamos as motos ao lado dele e tiramos fotos de todos os ângulos. Era preciso registrar aquele momento!

PARQUE NACIONAL SAJAMA

Do Tripartito, voltamos a Charaña, de onde seguimos no sentido do Parque Nacional Sajama. Ali se encontra o pico mais alto da Bolívia, o Nevado Sajama, com 6.542m de altitude, além de lagunas, águas termais e outros vulcões, como o Pomerape e o Parinacota, na fronteira com o Chile. Pernoitamos em Tambo Quemado, fronteira com o Chile. Naquela noite, André tomou a decisão de descer para Arica. Vários dias seguidos, sofrendo com o mal da altitude, deixavam-no cada vez mais fraco – e como teríamos estradas com muita areia à frente, ele achou melhor desistir.

SALARES DE COIPASA E UYUNI

Depois de uma noite gelada, seguimos em direções opostas: André para o Chile e eu e Venera, pelo Altiplano Boliviano, no sentido Salar de Coipasa. Utilizamos a Ruta Intersalar, que forma o Circuito Ecoturístico do Rio Lauca. Ali se encontram várias “chullpas”, onde eram deixados os corpos dos caciques Aymáras. Em Sabaya, conseguimos gasolina para seguir em frente até a vila de Coipasa. O único problema é que não havia nada por lá. Contamos apenas com a ajuda de Dona Petrolina, que nos arrumou um quarto para dormir e que também fez a janta e o café da manhã. No dia seguinte, entramos no Salar de Coipasa e enfrentamos 40 km de puro sal. Seguimos na direção sul e, depois, um caminho com muita areia nos levou até Llica, passando pelo povoado de Challacollo. Llica é a porta de entrada, pelo lado oeste, do maior salar do mundo, o Uyuni. Uma verdadeira auto-estrada partia dali. Tomamos esta direção e aceleramos. Com o sal totalmente seco e abrasivo, uma linha preta, deixada por pneus de picapes, nos mostrava a direção. Era só acompanhar. Seguimos rumo à Ilha de Incahuasi. Antes de sairmos do salar, ainda visitamos o Hotel de Sal, todo construído com pedras de sal (inclusive os móveis).

VULCÃO UTURUNCU

De volta ao deserto, seguimos por Vila Alota para chegarmos às lagunas Turquiri, Cañapa, Hedionda, Chiar Kota e Honda, todas repletas de flamingos. Passamos pela famosa Arbol de Piedra e chegamos à Laguna Colorada.  Um caminho difícil, com muitas pedras no começo e areia na sequência, recompensado pelo belo visual.

No frio da manhã, visitamos a Laguna Colorada e o Geiser Sol de La Mañana, que se diferencia dos demais por ter lama, ao invés de água borbulhando nas fontes. Quetena Chico foi a nossa base de apoio para subirmos o Vulcão Uturuncu. Deixamos toda a bagagem no alojamento e partimos rumo ao topo (ou até onde fosse possível chegar de moto). Um caminho difícil, com muita pedra lascada e solta, marcava o início da trilha. Acima dos 5 mil metros de altitude, além do cascalho solto, típico dos vulcões, era preciso vencer a forte inclinação do caminho. Só conseguimos devido à redução da transmissão, de 15 para 13 dentes no pinhão, e à boa regulagem no carburador. Gases de enxofre vertiam do chão, enquanto o caminho se tornava cada vez mais estreito, até sumir na encosta. No fim da linha, conferimos a altitude no GPS: 5.777 m. Vale citar que, até o cume, é preciso caminhar mais um pouco (até 6.010 m).

VOLTA

Com os principais objetivos de nossa “Expedição Tripartito” alcançados, iniciamos a volta para casa. Antes, passamos pelas ruínas de San Antonio de Lipez, antiga cidade mineira, e pelas formações rochosas de El Sillar, perto de Tupiza. Descemos para Tarija, através da Cordilheira de Sama, onde definitivamente saímos da Cordilheira dos Andes. Depois, entramos na Argentina por Bermejo, de onde traçamos uma linha reta até o Brasil, através do Chaco. Marisa, minha esposa, já me esperava em Rio Negrinho, juntamente com alguns amigos motociclistas. Seguimos em comboio até Jaraguá do Sul, onde um churrasco nos esperava, no sítio de Venera.

Nesta viagem, colocamos placas de metal nos lugares que consideramos mais bonitos ou desafiadores. Se um dia você seguir nossos passos, eis as coordenadas para localizá-las:

Tunari: S  17° 14,622’ – W  66° 23,917’ , altitude 4.485m

Quimsa Cruz: S  16° 58,836’ – W  67° 24,196’ , altitude 5.152m

Illimani: S  16° 39,293’ – W  67° 49,181’ , altitude 4.362m

Real: S  16° 18,042’ – W  68° 11,789’ , altitude 4.972m

Apolobamba: S 14° 48,211’ – W 69° 10,867’, altitude  4.856m

La Rinconada: S 14° 42,387’ – W 69° 26,183’, altitude  4.794m

Vilcanota: S 13° 54,147’ – W 71° 00,413’, altitude  4.900m

Amazonas: S 15° 30,211’ – W 71° 41,564’, altitude  5.173m

Tripartito: S 17° 29,916’ – W 69° 28,091’,  altitude 4.116m

Sajama (VMAS): S 18° 01’ 27,4” – W 68° 57’ 39,5”, altitude 4.476m

Coipasa: S 19° 31’ 14,8” – W 68° 22’ 41,0”, altitude 3.677m

Uturuncu: S 22° 15’ 35,1” – W 67° 10’ 50,1”, altitude 5.793m

*Matéria publicada na edição #151 da revista Moto Adventure.

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