Especial – Mama África!

África do Sul

De volta às savanas onde viveram nossos ancestrais, “Moto Adventure” descobriu um mundo rústico e selvagem, mas que não esqueceu o poder do sorriso e das atitudes fraternais

Texto: Vera Miranda
Fotos: By Barros

A conexão do homem com a África remonta há milhares de anos… Mais exatamente, à época em que deixamos de ser uma espécie indefesa e, caminhando sobre duas pernas (o que era novidade, naquele tempo!), abandonamos aquele continente para dominar o mundo. É natural, portanto, que todo ser humano tenha o desejo íntimo de perfazer o caminho de volta, revisitando o berço de suas origens: as planícies, montanhas e rios onde tudo começou…

Foi isto o que fizemos no último mês de novembro. Mas nosso “retorno” à “Mama África”, o grande ventre da humanidade, se deu com pompa e circunstância: percorremos seu vasto e pitoresco território de moto, durante 13 dias e ao longo de 4.129 km de estradas surpreendentes – de fato, são autênticos “tapetes” de asfalto, ornamentados com curvas e “retões” que fazem a alegria dos moto-turistas. Sem mencionar a visão inesquecível do mais lindo pôr-do-sol captado por nossas retinas e câmeras – o crepúsculo africano é particularmente fotogênico em Cape Town, onde o contemplamos a partir de um bar co. Enfim: saboreamos cada recanto, cada curva, cada panorama desta região exótica que sediará a Copa do Mundo em 2010 (e que, por isso mesmo, estará “na boca do povo” nos próximos meses).

“GOSTINHO” DE AVENTURA

O roteiro foi previamente elaborado pela Edelweiss Bike Travel, agência especializada em moto-turismo que oferece destinos variados pela Europa, América, África, Ásia e Pacifico (com estrutura de aluguel de moto, confortáveis hotéis, vans para transportes de malas e guias experientes, que acompanham os viajantes e lhes dão todo o suporte necessário). Não faltou conforto em nossas paradas (houve tempo, até, para dois lautos piqueniques, realizados “em locação”!); mas, ao longo da jornada, o “safári” motociclístico exigiu muita perícia e atenção do grupo, o que deu o providencial “gostinho” de aventura a esta viagem. Nossas peripécias começaram em Johannesburgo, quando fomos pegar as motos, alugadas pela Edelweiss Bike Travel. O grupo era composto por 24 pessoas (treze brasileiros, cinco alemães, dois estadunidenses, dois austríacos e dois guias). Em um comboio de 18 motos, partimos para as estradas tentando registrar, mentalmente, as regras de tráfego da “mão inglesa”, que vigora por ali. Basicamente, é tudo ao contrário! É necessário algum tempo para se adaptar a essas conveniências. Os maiores desafios para o iniciante são trafegar pelas curvas e fazer conversões em ruas de mão-dupla. A ultrapassagem, em pistas simples e estradas com muitas faixas, deve ser feita pela direita.

Algo que nos chamou a atenção foi a educação no trânsito… O limite de velocidade é 120 km/h e as leis de tráfego são parecidas com as nossas. Dirigir alcoolizado é falta grave – e as leis são severamente cumpridas! Deparamos com varias “blitze” policiais ao longo do caminho, mas só fomos parados em duas ocasiões (quando checaram nossas habilitações e o licenciamento das motos, que, curiosamente, fica ao lado esquerdo do chassi, próximo à pedaleira do garupa).

TURISMO: UM BRAÇO FORTE

A África do Sul lembra muito o Brasil em vários aspectos – particularmente o clima, a paisagem e a simpatia do povo. Há uma cordialidade e um calor humano muito presentes, apesar da pobreza e das cicatrizes deixadas pelo regime de segregação racial conhecido como “Apartheid” (que privava os negros de seus direitos civis básicos), felizmente, extinto em 1994, com a eleição do Presidente Nelson Mandela.

É grande a diversidade étnica na África – e cada grupo tem sua identidade cultural preservada. Isto é patente na alimentação, na música, no idioma (há 11 deles, sendo o Inglês e o Africâner os mais difundidos), na dança e na maneira de sobreviver (as comunidades diversificam-se na prática da agricultura, da caça e da criação de gado). De modo geral, a culinária se baseia na carne. Mas um lado menos conhecido da “boa mesa” local é a desenvoltura que a África do Sul tem na manufatura de vinhos, o que, hoje, coloca o produto nacional no mesmo patamar dos “Chilenos”.

Com suas nove províncias e três capitais – Executiva (Pretória), Legislativa (Cidade do Cabo) e Judiciária (Bloemfontein) –, a África do Sul esbanja recursos minerais (não por acaso, é a maior produtora mundial de ouro). No entanto, o Turismo se consolida cada vez mais como um “braço forte” da economia local. Tudo cortesia de sua privilegiada geografia, banhada por dois oceanos e margeada por lindas praias, e a impressionante reserva de animais selvagens, que atrai viajantes de todo o mundo. O clima tropical tende a predominar – mas, no que foi um atrativo extra desta expedição, em novembro experimentamos uma curiosa mescla de “temperaturas”, oscilando dos 6 aos 36 graus. Apenas outro contraste de uma nação intrigante…

ENERGIA CONTAGIANTE

Nossa atenção nas estradas (que, às vezes, serpenteiam pelo país em meio a vales enormes) precisou ser redobrada: afinal, é comum ver animais pastando às margens da pista. Felizmente, as condições de rodagem são ótimas – e os pedágios são poucos e têm preços honestos.

A energia é contagiante: não há distinção entre brancos e negros e o modo como éramos saudados ao longo do caminho – parecia que éramos grandes celebridades em um desfile oficial! – ficou registrado em nossa memória.

Os postos de gasolina não aceitam cartões de credito. Também é bom trafegar com moedas no bolso, já que os atendentes contam com pequenas gratificações. De fato: na ânsia de atenderem bem, eles, às vezes, exageram na quantidade de combustível e deixam transbordar o tanque. Por isso, é bom ficar de olho no trabalho da rapaziada. Quanto às gorjetas: algo em torno de 10 a 15% do valor total já é suficiente. Não é preciso mais para fazer surgir aqueles sorrisos contagiantes, calorosos, que embalam o turista ao longo de suas aventuras.

Obviamente, como em qualquer país estrangeiro, não se deve descuidar de objetos valiosos, dinheiro e equipamentos eletrônicos. Há gatunos em todo lugar e destinos como Johannesburgo não são exceção à regra. Em nosso caso, contamos com a experiência e os conselhos de nossos guias, que deram a “letra” sobre o modo como proceder em cada situação e lugar. Confira, na sequência, os pontos visitados pela expedição nos 13 dias de viagem.

JOHANESBURGO

Ficamos encantados com a “cidade do ouro” – basicamente, o grande centro financeiro e industrial da África do Sul. Como em São Paulo, aqui não faltam opções em programas culturais e históricos – mas os consumistas inveterados se divertirão indo às compras e tentando a sorte nos cassinos. Johanesburgo satisfaz os dois tipos de turistas. Recomendamos, ainda, uma visita a Soweto, bairro rústico onde viveu o grande líder Mandela, e no qual os negros se rebelavam contra o “Apartheid” muito antes do sonho de um país livre da segregação racial se converter em realidade.

PILGRIMS REST

Esta é uma cidade cuja história acha-se ligada à exploração do ouro. Décadas atrás, houve, aqui, um intenso movimento de garimpeiros, que se dedicavam à busca do valioso metal. Hoje o local é um “museu vivo” que relembra esta era. Pilgrims Rest recebe nada menos que um milhão de visitantes por ano!

GOD’S WINDOW (“A JANELA DE DEUS”)

Situada em Blyde River Canyon – o terceiro maior cânion do mundo –, este é o lugar ideal para estacionar a moto e exercitar as pernas em uma caminhada. O visual ao redor é inspirador. Dependendo das condições climáticas, o vasto horizonte que à frente revela os contornos de Moçambique e do Kruger National Park.

KRUGER NATIONAL PARK

Após três dias de pilotagem, esta foi nossa primeira parada com duas noites de hospedagem. Aqui imperou a diversão: tivemos um dia dedicado apenas a um safári ecológico. A atividade começou cedo, quando um guia, a bordo de um Ford Ranger, nos pegou às 05h00. Fomos conduzidos através do parque em uma busca dos chamados “Big Five” – leões, leopardos, elefantes, rinocerontes e búfalos –, além, é claro, das 300 mil outras espécies que vivem ali (girafas, antílopes, veados, chitas, hienas, hipopótamos, crocodilos e uma enorme variedade de macacos, entre outras). Trata-se de um grande “zoológico aberto”, mas há regras a respeitar (por exemplo, nunca alimentar os bichos). E não pense que é fácil localizar os animais: os guias se comunicam constantemente, trocando informações sobre os melhores lugares para se visitar. Aos turistas, a dica é estar sempre a postos, com o dedo no disparador da câmera. Nunca se sabe quando as feras vão aparecer e “posar” para nós. Mas sempre que isto acontece, é um momento mágico!

SUAZILÂNDIA

Trata-se de um pequeno e montanhoso país africano, encravado em todas as direções pela África do Sul e, ao leste, por Moçambique. Chama atenção a diversidade local, que alterna cenários de savana e de mata verde em meio a regiões montanhosas. Apesar de ser a última Monarquia Absolutista africana, é um país bem cuidado, com boas estradas e uma população cujos rostos são os mais amáveis em toda a África.

KWAZULU

Aqui entramos no reino da tribo Zulu – imortalizada em milhares de romances de aventura e em um sem-número de filmes. A fama não é injustificada: esta é a mais guerreira das cinco tribos sul-africanas. Fundada pelo Shaka Zulu, que expandiu a nação Zulu em um feito comparável aos de Alexandre, o Grande, a localidade, hoje, vive do turismo: os nativos têm orgulho de mostrar sua cultura e seus costumes.

A diversão começa na chegada: após rodar 18 km de moto por uma estrada de terra, no topo de uma montanha, o turista tem a opção de escolher entre uma das seguintes variantes de transporte, para chegar à tribo: cavalo, carro de boi ou jipe. Tivemos o privilégio de passar a noite neste habitat, mas em uma zona separada, em quartos que lembram choupanas e que são administrados pela rede de hotéis Protea. Convivemos de perto com esse provo lendário, que nos recebeu de braços aberto e nos ensinou seu modo de vida – o que incluía suas armas, suas danças, artesanatos, batuques e preciosos relatos históricos, transmitidos de geração a geração.

A “dança da caça” é uma atração apaixonante: homens e mulheres entram separadamente, levantando uma perna de cada vez acima das cabeças, batendo no chão e, depois, caindo sobre os traseiros. O tempo todo, o rei e a rainha, já idosos, assistem a tudo, orgulhosos dos guerreiros. O rei também ensina a arte do ataque, fazendo uso de lanças confeccionadas pelos habitantes da tribo. Foi uma das experiências mais divertidas e místicas da viagem. Seguindo para o leste, na parte costeira do Oceano Índico, notamos uma mudança radical na paisagem, nas casas e nas pessoas. Claramente, o nível econômico era outro.

PORT ELEZABETH

Com belas praias e um leque de 47 destinos a se percorrer, esta região “transborda” história.  Os primeiros europeus a passar por aqui foram Bartolomeu Dias, em 1488, e Vasco da Gama, em 1497. Port Elezabeth se destaca na África do Sul como uma das cidades mais procuradas pelos turistas. É conhecida como “Friendly City (“Cidade Hospitaleira”) e “Windy City” (“Cidade do Vento”).

TSITSIKAMA NATIONAL PARK

Uma ótima opção para quem aprecia esportes radicais, o parque Tsitsikama é o paraíso do arborismo, do rafting, do quadriciclo e do bungee jumping. Justamente por isso, nosso companheiro de viagem, Milton Omena (apaixonado por desafios), se sentiu em casa: ele saltou da ponte Bloukrans Bridge, a “base de lançamento” do maior bungee jumping do mundo (216 metros de queda livre!).

ROTA 62 (OUDTSHOORN–MONTAGU)

Longa rota do vinho que serpenteia o Breede River Valley e o Kleen Karoo. A paisagem é estonteante e as ótimas curvas são um verdadeiro “playground” para os motociclistas. Uma parada obrigatória na Rodovia 62 é o “Ronnie’s Sex Shop”. Sim, o nome é dúbio – mas não se trata de uma loja de roupas e artigos pornográficos. É, sim, um “pubzão” repleto de cartões postais nas paredes, além de roupas e algumas peças íntimas penduradas no teto. A simpatia do proprietário é contagiante – não se surpreenda se passar horas nesse local!

HERMANUS

Fizemos uma passagem rápida por esta cidade, muito charmosa e procurada pelos turistas, para vermos, da praia, as baleias da Antártida dar à luz seus “bebês”. Infelizmente, como nosso relógio não estava em “sincronia” com o da natureza, nos foi negado este privilégio. Mesmo assim, valeu a visita a outro recanto encantador da África.

CAPE TOWN

Fundada por holandeses, Cape Town é uma das mais belas cidades do continente. Como Sydney (Austrália), São Francisco (EUA) e Rio de Janeiro (Brasil), tem uma das baías mais lindas do mundo. É uma localidade que “respira” turismo, sendo ideal para quem gosta de aventura e esportes ao ar-livre. É limpa, organizada e dispõe de completa infraestrutura para receber o turista. Adoramos o lugar, em especial, as regiões de Table Mountain e Cabo da Boa Esperança, que elegemos as mais belas da cidade. A cada curva, nas estradas que contornam a serra à beira-mar, sucedem-se paisagens incríveis. A divisão entre os oceanos Índico e Atlântico fica no Cabo das Agulhas (o ponto mais ao sul do continente africano), e não no Cabo da Boa Esperança (mais ao sudeste).

MÃE BENEVOLENTE

Apesar de grande e diversificado, o grupo que encarou esta expedição desenvolveu autênticos laços de amizade durante o passeio, a ponto de sentirmos um “nó na garganta” na hora de dizer “adeus”. Certamente, todos guardarão uma imagem muito nítida e emotiva dos dias passados nas estradas, cidades e selvas africanas.

Você já rodou o mundo todo, mas tem a sensação de que “ainda falta um destino importante a conhecer”? Ora: talvez seja a África!

Nenhum turista deveria prescindir da sensação quase transcendental de pisar em suas terras, que guardam a chave de nossa evolução e mantém intacto o DNA da Natureza. Apreciar tantas belezas foi mais prazeroso por termos convivido com sua gente, que tem muito a nos ensinar.

Aqui não foi esquecido o valor do sorriso, de uma atitude fraternal… Se a África é mesmo nossa mãe – e parece não haver dúvidas de que é –, trata-se de uma mãe gentil e benevolente, que encoraja, sorrindo, o regresso de seus filhos pródigos. Nossa “mãe” o espera. E manda dizer que sente saudades…

O QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE A ÁFRICA

Alfândega: não é exigido visto para a África do Sul. Mas é necessário ter uma página inteira em branco no passaporte, para aplicar o selo sul-africano.

Vacina: é exigido o certificado internacional de vacinação contra febre amarela.

Fuso horário: cinco horas a mais em relação ao Brasil.

Eletricidade: 220v; tomadas de três pinos.

Habilitação: é necessário ter a Carteira Internacional de Habilitação.

Duração do voo: oito horas.

Compras: vários shopping e centros de lazer ficam abertos das 09h00 às 17h00, de segunda e sábado; e das 09h00 às 14h00, aos domingos. Lembrando que, em muitas cidades pequenas, as lojas não abrem aos domingos.

Moeda: 1 Rand  = 0,23 Real e 1 Dólar = 7,5 rand

Agradecimento: Melbourne Tour Operator – Representante oficial da Edelweiss Bike Travel – melbourne@mbtour.com

*Matéria publicada na edição #110 da revista Moto Adventure. Valores citados podem ter sofrido alterações.

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