Aventura no velho mundo – 14 dias pela Europa

Confira as emoções do tour motociclístico “Reis e Castelos”, que durou 14 dias e perfez 2.500 km através da Áustria, Hungria, Eslováquia, Polônia, República Tcheca e Alemanha

Texto: Vera Miranda Fotos: ByBarros

Imagine pilotar por estradas sinuosas e ricas em visuais fantásticos – e tomar contato com culturas arcaicas e costumes muito diferentes dos nossos. Integrante do charmosíssimo tour “Reis e Castelos”, a motociclista Vera Miranda viveu essas experiências e divide conosco suas impressões do Velho Mundo. A viagem se estendeu por 2500 km e cruzou países como Áustria, Hungria, Alemanha, Eslováquia, Polônia e República Tcheca.

CHEGADA

Nossa chegada à Europa se deu por meio da romântica Viena, capital da Áustria (e ponto de encontro dos 30 integrantes do grupo de motociclistas que encararam esta aventura). Fazia muito calor, com os termômetros chegando aos 34 graus. Mas a alta temperatura não foi o fator mais surpreendente do dia, e sim, o que se passou dentro do táxi que nos levou ao hotel. Sintonizado em uma rádio FM local, o rádio do carro “bombava” o conhecido sucesso de Michel Teló, “Ai, Se Eu Te Pego”. Ora, ora… Quem diria?

Na sequência, nos encontramos com os outros motociclistas brasileiros e fomos pegar as máquinas que pilotaríamos na viagem. O evento foi um autêntico encontro entre velhos companheiros, já que os integrantes do grupo se conhecem há uma década.

Um total de 19 motos, entre modelos BMW e Ducati (todas, com seguro), nos foram entregues pelos guias Franz, Ângela e Nina.

Após a checagem dos veículos, os guias nos passaram um briefing do percurso. Antes de irmos para a estrada, fomos orientados a comprar, em um posto de gasolina, selos de pedágio para circular pelas estradas austro-húngaras (no valor de 11,5 Euros e com validade para dois meses). No país, não há barreiras de pedágio.

A AVENTURA COMEÇA

No dia seguinte, iniciamos o percurso através de uma rota de 2.500 km (a serem percorridos em 14 dias, através de estradas maravilhosas, com panoramas deslumbrantes e curvas inesquecíveis). Saindo da terra de Mozart, seguimos para Budapeste, capital da Hungria. Perfizemos um trajeto sem muitas atrações, sob intenso calor – a temperatura chegou a bater os 41 graus em uns dos dias mais quentes dos últimos anos na Europa. Aproveitamos para nos familiarizar com nossas máquinas e curtir alguns pontos de paradas para café e almoço.

Chegamos a Budapeste no final da tarde, em meio a um trânsito típico de grande metrópole (que exigiu muita atenção, dado o fluxo intenso de carros, pedestres, bondes, ônibus e bicicletas; estas, transitando em ciclovias). O dia seguinte era livre e pudemos conhecer a cidade. Adquirimos, no hotel, passes para um ônibus aberto que nos levou conhecer os principais pontos turísticos locais.

BUDA E PESTE

Fomos conhecendo com tranqüilidade um pouco de Buda e Peste. Ao lado direito do Rio Danúbio fica Peste e do lado esquerdo, Buda. Oficialmente reunidas desde 1873, ambas formam a cidade denominada “Rainha do Danúbio”, cuja história, conturbada, envolve lutas e invasões. Buda é o lado antigo da cidade e concentra as residências da alta sociedade, assim como as embaixadas. Em Peste temos o centro comercial, com hotéis e restaurantes. Confesso que não esperava nem um terço de tanta beleza – sem sombra de dúvidas, recomendo aos leitores que acrescentem este destino às suas agendas.

Ali, há muito a se conhecer. Por exemplo, o Castelo de Buda, situado sobre uma colina e que se sobressai por sua cúpula esverdeada. Destaque, ainda, para a Basílica de São Estevão, a maior igreja da cidade, construída em 1851. Outra região curiosa fica nas proximidades do Palácio Real de Buda, com ruelas, casas antigas, prédios históricos, museus e lojas de suvenires. Também é uma boa pedida caminhar pela Avenida Andrassy UT, considerada “a Champs Élysées de Budapeste”. Ainda em Buda, visite o Halászbástya, conjunto de sete torres no estilo gótico construídas no século XIX (um lugar que rende fotos incríveis). Outra joia pode ser encontrada ao lado do Halászbástya: a Igreja de São Mateus, cujo interior é cheio de referências medievais. Já a Praça dos Heróis, com sua colunata de 36 metros de altura, é muito frequentada por turistas e, também, por moradores da cidade. Ali estão representadas as figuras dos reis húngaros e de outros personagens da guerra da independência. O Forte dos Pescadores é ideal para quem busca uma vista panorâmica do lugar.

Foi com uma excelente impressão que deixamos a cidade (conhecida como a “Paris do Leste Europeu”) no dia seguinte. Tanto por sua beleza como pela simpatia dos “magyares” (como são chamados os húngaros). Não é à toa que se tornou um destino turístico tão procurado depois que o país se democratizou.

ESLOVÁQUIA

Seguimos para a Eslováquia, passando por vilarejos e pontos turísticos húngaros, antes de atravessarmos o Rio Danúbio. O dia foi longo, mas gratificante, pela paisagem e pelo contorno sinuoso das estradas – de fato, nem sempre muito boas. Na rota daquele dia, quem seguia à frente eram as duas guias, Nina (que fala um pouco de Espanhol, Inglês e Alemão) e Ângela (que fala Inglês e Alemão). Já Franz (que fala muito bem o Português, além do Inglês e do Alemão) foi dirigindo o carro de apoio com as malas. Em determinado ponto da estrada, “faltou pé” para nossa guia em uma manobra – a moto caiu e teve o manete e o pisca quebrados. O estrago foi solucionado por nosso grande companheiro de viagem, apropriadamente conhecido como “Bareta Magaiver”, que dedicou sua hora de almoço para recolocar a moto na estrada novamente. Depois do providencial conserto, a viagem prosseguiu.

Encaramos, então, uma forte mudança climática – a média passou a ser de 14 graus – e, também, “monetária”: na Eslováquia, usa-se

o Zloty. Com uma paisagem inteiramente diferente ao redor, seguimos para Cracóvia, na Polônia. Subimos as montanhas Tatra, uma cordilheira situada nos dois lados da fronteira da Eslováquia e Polônia, com altitude de 2.499 metros acima do nível do mar e muito procurada para esportes de inverno. O panorama que contemplamos através de uma estrada estreita e que serpenteia em meio à floresta lembra um pouco nossa Serra Gaúcha. Foi um dia longo e chegamos exaustos à Cracóvia, mas ainda tivemos disposição para dar uma voltinha por sua praça principal.

CRACÓVIA

Tiramos um dia de folga para conhecer a cidade, que defino como “aconchegante”. O lugar tem uma história pitoresca. A Cracóvia foi fundada por volta do ano 700 e foi capital da Polônia. Atacada e devastada por mongóis, fez parte da Áustria e ficou sob ocupação do exército alemão durante a Segunda Guerra Mundial (porque ¼ da população local é judaica). A poucos quilômetros dali, surge a cidade de Wadowice, na qual nasceu o Papa João Paulo II (Karol Wojtyla). Próxima, também, fica Oswiecim, mais conhecida como Auschwitz, onde Hitler condenou milhares de pessoas à morte. Para conhecer melhor a Cracóvia, pegamos um carro elétrico, com guia e um sistema de áudio gravado (parte em Português, parte em Espanhol), e percorremos seus principais pontos turísticos. Neste tour, vimos a grande praça central e a Basílica de Santa Maria – que, a cada hora, emite um toque de trompete, lembrando o ato heróico de um homem encarregado de vigiar a cidade e que subiu à torre da igreja para anunciar uma invasão tártara, morren

do em decorrência de uma flechada. Simplesmente emocionante! Por dentro, a Basílica é linda – seu altar demorou 12 anos para ser feito. Visitamos, também, o complexo de Wawel (trono dos reis da Polônia); e o bairro judeu de Kazimierz e suas sinagogas. Outra dica é conhecer as minas de sal em Wieliczka (através de um passeio guiado de, no mínimo, duas horas).

REPÚBLICA TCHECA

Saímos da Cracóvia sob chuva e a uma temperatura de 11 graus, tendo a sensação térmica de 7 graus. Seguimos no sentido de Jicin, na República Theca. Como a chuva nos acompanhou o dia todo, não pudemos ver muita coisa. Mas visitamos o campo de concentração de Auschwitz. A paisagem é realmente tétrica e tristonha. O dia cinzento combinava com a melancolia do lugar, o mais infame campo de prisioneiros da Segunda Guerra (muitos poloneses e judeus morreram ali). À medida que adentrávamos os prédios, uma guia narrava dramaticamente a história do campo, até chegarmos à câmara de gás. Voltamos à estrada e, ainda sob chuva, aportamos em Jicin. Passamos a noite em um hotel-castelo e tivemos um merecido descanso, após tantas aventuras. Na manhã seguinte, a viagem prosseguiu rumo a Dvur Kralove, ainda na Republica Tcheca. Foi um dia gratificante, já que pilotamos por estradas lindíssimas e cheias de curvas. Cruzamos muitos motociclista e ciclistas e fizemos paradinhas para o café e o almoço. Dentre as muitas cidadezinhas interessantes que conhecemos, destaco Bruntal.

ALEMANHA

No dia seguinte, nosso destino foi Dresden (Alemanha). Continuamos por estradas sinuosas e vilarejos charmosos, sempre fazendo paradas para animados bate-papos e para nos alimentar – tudo o que um aficionado por motos mais gosta! Tivemos outro dia livre em Dresden, que é a capital barroca do Estado Alemão Saxônico. Dividida em duas pelo Rio Elba, Dresden se desdobra em “cidade nova” e “cidade velha”. Nem preciso dizer que a velha é mais bonita. O lugar foi praticamente destruído em bombardeios durante a Segunda Guerra. No entanto, graças ao auxílio de instituições e de doadores, conseguiu se reerguer. A igreja “Frauenkirche” – no passado, quase aniquilada – hoje se acha restaurada.

Outros lugares interessantes são o “Zwinger”, complexo de museus cuja arquitetura (no estilo barroco) é impressionante, e o “Furstenzug”, mural de azulejos em uma rua com 102 metros de extensão. Enfim: Dresden nos surpreendeu em todas as instâncias: por sua história, arquitetura e beleza.

DE VOLTA

No dia seguinte, retornamos à República Checa, agora, em direção a Praga.  Foi um dos trechos mais bonitos da viagem. Passamos por “Bastei”, formação rochosa espetacular a 194 metros acima do Rio Elba, nas montanhas Elbe Sandstone (Alemanha). Neste ponto, tivemos o dia livre para desfrutar de Praga, a capital da República Tcheca. A cidade é encantadora, não só por seus antigos centros urbanos ou por estar situada às margens do Rio Vltava, mas por sua história cultural. Em Praga, pegamos o metrô até o centro, onde estão as atrações turísticas. Visitamos suas antigas pontes, que contrastam com a presença do grande Castelo de Praga. A ponte de Carlos, construída em 1357, é a perola de Praga e une a Cidade Velha ao bairro Cidade Pequena. Os locais mais visitados são a Praça Wenceslau, as igrejas de São Nicolau e a Nossa Senhora da Vitória, com seu famoso Menino Jesus de Praga e o Relógio Astronômico, um monumento do século XVI que mostra a rotação do sol, da lua e das estrelas. Praga é tudo de bom! Não deixe de ir conhecê-la, é um tour que lhe renderá lindas fotos.

VALEU A PENA!

Em seguida, retornamos a Viena, aonde chegamos no fim da tarde. Devolvemos as motos e só nos restou parte do domingo para visitar o centro. Depois, fomos para o aeroporto e regressamos ao Brasil. Antes de encerrar este relato, vale lembrar que toda viagem tem contratempos – e esta não foi diferente. No fim, isso é bom para “apimentar” as histórias. Desta vez, nos vimos à volta com situações como: motos perdidas durante o percurso, veículos quebrados, pneu furado, multa de trânsito, percurso errado, a bolsa de um casal furtada dentro de uma loja em Praga (com cartão de crédito e passaporte dentro!)… O importante é que cada percalço foi solucionado prontamente por nossos guias. Todas as manhãs, antes de colocarmos as máquinas na estrada, eles nos passavam todas as informações do dia: percurso, local para o almoço e atrações interessantes.

Neste trecho da Europa, em postos de gasolina, o autosserviço funciona na base do “abasteça primeiro e pague depois”. Quanto à velocidade, o limite máximo é de 130 km/h (mas, quando cruzamos vilarejos e cidades, o limite cai para 50/30 km/h). A maioria das pessoas tem o Inglês como segunda língua, exceto em alguns vilarejos menores. E não deixe de levar capa de chuva, botas, luvas, calça de cordura e jaquetas. Os guias ficam incomodados quando o viajante não está apropriadamente vestido para a as estradas.

AGRADECIMENTOS

Melbourne Tour representante

da Edelweiss Bike Travel no Brasil.

www.mbtour.com.br

BMW Motorrad e BMW Serviços Financeiros

*Matéria publicada na edição #142 da revista Moto Adventure.

 

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