Roteiro aventura – Em busca do paraíso de Pablo Escobar

Cachoeira da Fumaça

 

Em um dos cenários mais exuberantes do Brasil, dois motociclistas encaram estradas com muita areia cercadas por cachoeiras, piscinas naturais, chapadões e dunas de até 40 metros de altura

Texto: Edgard Cotait
Fotos: André Luiz Santos e Edgard Cotait

Edgard Cotait é um experiente motociclista e conta no currículo com extensa lista de viagens ao longo dos últimos anos. Recentemente, juntamente com André Luiz Santos, outro experiente motociclista, Edgard colocou em ação o plano de uma viagem rumo ao Jalapão, o “Deserto Brasileiro”. Descubra no relato de Edgard como foi essa aventura.

NA ESTRADA

“Já há algum tempo, eu e André Luiz vínhamos ouvindo algumas histórias sobre um paraíso que o megatraficante colombiano Pablo Escobar mantinha no Deserto do Jalapão (TO). Foi esse fato que aguçou nossa curiosidade por conhecer aquela região. Localizado no coração do Brasil, este deserto já era alvo antigo na nossa lista de desejos, pois é uma viagem com promessa certa de aventura. Montamos nosso planejamento para que fosse uma viagem rápida e, de modo geral, de baixo custo. Como temos grande paixão pelas regiões de sertão e por lugares inóspitos, as motos escolhidas foram duas “parrudas” Yamaha XT660 Z Ténéré.

Partimos de São Paulo (SP) num final de tarde e fizemos nossa primeira parada em Uberlândia (MG). No dia seguinte, chegamos à cidade de Luís Eduardo Magalhães (BA), já muito próximos do nosso desejado destino. A excelente autonomia das nossas motos, aliada a um pacote técnico eficiente, permitiu-nos um rendimento de estrada bastante satisfatório nos deslocamentos.

Surpreenderam-nos o desenvolvimento e a boa qualidade de vida das regiões pelas quais passamos. Excetuando-se a área mais crítica do “Polígono da Seca”, definitivamente aquela antiga imagem de pobreza absoluta que tinha o Nordeste deve ser descartada. Essa impressão muda um pouco quando se adentra na área do Jalapão, fato demonstrado não só com a sensível piora na qualidade do asfalto já desde a divisa Bahia-Tocantins, como também com suas cidades e vilarejos que refletem a rudeza do local.

Em contraponto aos fatores econômicos mencionados, é diferenciada a maneira hospitaleira, franca e aberta com a qual as pessoas recebem os visitantes, mesmo que por vezes sejam desprovidas de recursos materiais. Chegamos a Dianópolis (TO) logo pela manhã, onde nos municiamos de provisões básicas, como água potável e alimentos não perecíveis. Partimos então em direção à Ponte Alta do Tocantins (TO), sendo que é na pequenina Rio da Conceição (TO) que o asfalto termina e a diversão começa!

NO JALAPÃO

O “Deserto do Jalapão” tem a dimensão de 34 mil km² e seu nome vem da planta jalapa, um ótimo purgante natural utilizado pelas comunidades quilombolas. É uma das poucas paisagens nacionais que se mantêm praticamente intacta frente à pressão da civilização moderna, sendo que sua densidade demográfica, com cerca de 0,8 hab/km², é considerada baixíssima. Com paisagem árida, essa região conta com uma imensa quantidade de rios e riachos de água transparente e potável. Por baixo da vegetação rasteira, o solo é constituído de areia, a mesma areia que forma as estradas de boa parte do Jalapão.

Ao viajar por ali é notória a predominância de retas longas, com aclives e declives suaves, mas a perder de vista em meio a um visual árido e de árvores baixas e retorcidas, características das áreas de cerrado. O piso varia entre pedras, piçarra, e com bancos de areião já apresentando seu “cartão de visitas”. Deve-se ter atenção com algumas canaletas formadas por erosão que aparecem quando menos se espera, especialmente nos topos das subidas, cuja extensão pode cruzar a pista. É preciso tornar este cuidado permanentemente.

FUMAÇA E PEDRA FURADA

Assim, seguindo por esses caminhos, logo aparece a primeira atração, uma queda d’água maravilhosa: a Cachoeira da Fumaça. Suas águas atraem por transmitir uma grande sensação de frescor e o desejo de um banho gostoso e refrescante torna-se incontrolável. No entanto, a ponte que cruza o rio está em péssimas condições, não só devido ao abandono, mas também por ter sido alvo de vândalos, que atearam fogo nela. Sua travessia oferece riscos reais, exigindo habilidade e paciência, pois em alguns pontos restam apenas as estreitas longarinas centrais, sem as travessas, formando vãos com até 5 metros de comprimento. Cruzamos essa ponte com cuidado e receio, mas, vencido o trecho, passamos três horas por ali e depois seguimos viagem rumo a Pedra Furada. Na entrada da Pedra Furada, a areia estava muito alta e acabei caindo e a moto ficou por cima da minha perna. Tentei levantá-la para me soltar, mas não consegui devido ao peso da moto e das bagagens. Rapidamente o André chegou e resolvemos a situação.

No dia seguinte, saímos de Ponte Alta do Tocantins, com destino a Mateiros, e ainda próximo à cidade, visitamos a Cachoeira da Suçuarana. O calor, impiedoso, batia forte!

PARAÍSO SECRETO

De Ponte Alta do Tocantins até Mateiros são 161 km, e é o trecho com maiores dificuldades em termos de bancos de areia. Some-se a esta distância mais 70 km de ida e volta à Cachoeira da Velha e à praia do Rio Novo.

E é ali que ficava nosso objetivo principal: o paraíso que o traficante colombiano Pablo Escobar manteve secretamente por anos em solo brasileiro.

Logo na entrada da fazenda há um enorme galpão onde antigamente funcionava o laboratório de processamento de drogas, sendo que esta foi a principal refinaria de cocaína do conhecido traficante, morto em 1992. Há, inclusive, uma pista com piso de concreto para pousos e decolagens de aviões. Durante a operação de desmonte feita pela Polícia Federal brasileira, foram encontradas mais de sete toneladas da droga pura, pronta para ser comercializada.

Hoje, este local serve a outro fim: é a sede do Parque Estadual do Jalapão. Por ali os passeios são gratuitos, necessitando-se apenas assinar um livro de visitas.

Ao chegar à Cachoeira da Velha, a sensação imediata é a de que valeu a pena todo e qualquer esforço para se chegar até lá. Após algum tempo observando esta beleza natural, e um pouco à frente, chegamos à praia do Rio Novo. Resumindo aquele local em apenas uma palavra: deslumbrante! De cara, lembrou-me aqueles rios isolados que passam nos documentários de TV, com pássaros em grande atividade, céu absolutamente azul, calor, águas mornas, areia branquinha, paz… Ficamos quatro horas naquele local, sem que aparecesse qualquer outra pessoa. Particularmente, foi um dos momentos em que senti mais aflorada a sensação de felicidade. E também um dos lugares mais maravilhosos em que já estive.

Mas, assim como as águas do rio, a vida segue, e também tínhamos mais estradas a percorrer.

Voltamos à sede da fazenda, e pedimos água gelada ao administrador do parque para repor nossos estoques, no que fomos prontamente atendidos. Sempre com um sorriso franco no rosto, Guilherme nos disse que frequentemente auxiliava os turistas, seja com água, alimentação ou mesmo com pernoite, caso fosse necessário.

BRUTO

“O Jalapão é bruto!”. Certamente você já ouviu essa frase em algum momento. E é assim mesmo. Cada quilômetro é uma vitória e sabíamos que teríamos de percorrer uma boa parte do trajeto durante a noite. Ao longe, os visitantes são acompanhados pelas formações rochosas típicas desta região que, esculpidas pelo tempo, ficaram com o formato de mesa. Os bancos de areião foram se apresentando cada vez mais longos e profundos.

O receio de danos ao sistema de embreagem das motos é constante, e você vai se adaptando, de maneira a poupar o equipamento ao máximo e sempre que possível.

O Deserto do Jalapão é um local onde todos precisam ser fortes! Bastante inóspito, coloca o visitante à prova todo o tempo. Algumas quedas devem ser encaradas com naturalidade, sendo que na maioria das vezes ocorrem em local “macio” e, portanto, sem maiores consequências. Em meio a tantos pensamentos logo vimos o sol se pôr lentamente, até que finalmente a noite chegou. Estávamos tranquilos, pois ainda em Ponte Alta já havíamos reservado uma pousada em Mateiros. Além disso, aquela região não assusta em termos de segurança. Passar pelas areias do Jalapão tornou-se uma mescla entre pilotar, “pedalar” e empurrar, num cansativo e repetitivo processo de pilotagem.

Para compensar, o céu, maravilhoso, estava repleto de estrelas e constelações. De repente, bem à nossa frente e numa velocidade absurda, um risco esverdeado iluminou e cortou o céu. Era uma “estrela cadente”. Na verdade, o resultado do atrito entre corpos sólidos vindos do espaço – os chamados meteoritos –, com a atmosfera terrestre. Resolvemos parar em cima de uma ponte e ficamos contemplando o lugar. Chegamos a Mateiros por volta das 22h30.

MUMBUCA, FORMIGA e FERVEDOURO

No dia seguinte, fomos conhecer a comunidade do Mumbuca. Distante 35 quilômetros do centro de Mateiros, foi nesse lugar, formado por uma maioria de descendentes de escravos, que surgiu o popular artesanato em capim dourado, uma arte que conquistou até fama internacional.

Este capim cresce nas veredas de abril a junho e é colhido em agosto e setembro, sendo uma espécie endêmica a esta região. Ali, fomos recebidos por uma velha senhora, que nos fez uma cantoria de boas-vindas. Seguimos para a cachoeira da Formiga, que sem dúvidas é a mais bela de todas. Com águas límpidas, transparentes e refrescantes, permitem lindas fotos e filmagens submersas. Ali, foram mais de três horas sem que nenhum outro visitante chegasse. O Fervedouro é outra atração de imperdível encanto. A proprietária contou-nos que, quando foi descoberto aquele local, e por ainda ser algo desconhecido, as primeiras pessoas que arriscaram entrar na água o faziam com cordas amarradas à cintura.

RETORNO

Iniciamos nosso retorno pela parte norte do Jalapão procurando interagir ao máximo com o povo do local, pois sempre é uma excelente oportunidade para se conhecer as histórias do cotidiano regional. Uma delas era que alguns fazendeiros que tinham seu gado atacado por onças, pagavam algum dinheiro a caçadores que trouxessem a cabeça fresca de um destes animais, como prova da caça. Coisas de um Brasil rural.

Antes de chegarmos às nossas casas, resolvemos passar um dia no balneário de Caldas Novas (GO) para dar um refresco merecido aos nossos sofridos corpos. Mas como sempre, já planejando novas aventuras.

*Matéria publicada na edição #181 da revista Moto Adventure.

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