Ushuaia, na Argentina, é um destino cobiçado por muitos aventureiros. Mas encarar esta viagem no inverno é tarefa para poucos…

Texto e fotos: Waldez Pantoja

O motociclista Waldez Pantoja reside em Castanhal (PA) e frequentemente faz viagens de moto pelo Brasil e pelo exterior. Há pouco tempo, o aventureiro foi ao Ushuaia (no extremo sul da Argentina) durante o inverno, época em que rodar pela região é um desafio. Confira detalhes desta jornada no relato de Waldez, apresentado a seguir.

FOME DE DESAFIOS

Antes mesmo de concluir uma grande aventura de moto, eu já tenho a ideia de uma outra, ainda maior e mais desafiadora. Talvez aconteça o mesmo com muitos motociclistas. Eu ainda estava no Alaska, pilotando minha Suzuki Boulevard 1500cc, quando decidi voltar ao Ushuaia – mas teria que ser em grande estilo: chegar à cidade mais austral do mundo em pleno inverno!

Para alguns, loucura; para outros, imprudência (ou insanidade!); para os que têm espírito aventureiro, um feito e tanto! Para empreender a jornada, eu iria me valer da minha ampla experiência em viagens. Lembrei de 1995, quando saí de Castanhal, no Pará, para cruzar a Cordilheira dos Andes em uma moto de apenas 125cc. Eu iria comemorar o nascimento do primeiro filho. Treze anos depois, este mesmo filho fez o mesmo percurso na garupa de minha moto. Uruguai, Paraguaia, Argentina e Chile. Levei, ainda, minha esposa ao Deserto do Atacama, também na garupa da moto. Eu já percorrera todos os países do continente americano sobre duas rodas. Na América do Sul, foram inúmeras viagens – e até escrevi um livro: “Duas Rodas, Uma Fábrica de Sonhos”. Eu sabia, assim, que já era hora de encarar o grande desafio.

PREPARAÇÃO

Durante quase um ano, pesquisei sobre o inverno no extremo sul. A princípio, foi desanimador: não conseguia encontrar ninguém que tivesse feito o percurso até o Ushuaia na mesma época. Encontrava muitas viagens feitas nos meses de dezembro e janeiro. Mas, no inverno, nenhum relato aproveitável. Porém, enquanto buscava referências, achei o relato de um sujeito que percorrera a Noruega de moto, no inverno. Vi as fotos e me animei. “Se ele conseguiu, eu também posso!”, pensei. “Basta seguir os mesmos passos.” Decidi que o melhor momento seria o inicio do inverno. A neve ainda estaria fresca. Achei que a temperatura também seria menor, mas não foi exatamente isto o que aconteceu…

NA ESTRADA

No fim de maio, coloquei a moto na estrada. Castanhal (PA) rumo ao Ushuaia, na Argentina. Neste tour, minha moto foi a BMW K 1200 LT. Eu a escolhi por ela ter banco e manetes aquecidos, para-brisa elétrico e regulável, freios ABS e alta tecnologia. E, sim: eu sabia que equilibrar quase 400 kg em meio ao vento forte, frio, neve e gelo na pista seria uma barra!

Os primeiros dias foram apenas rotina. Sair de um calor de quase 40 graus e desafiar o gélido extremo sul do Continente Americano não é tarefa simples. Até chegar a Medianeira (PR), foi rápido e fácil. Fiz uma média de 1100 km por dia e logo cheguei à casa de um amigo, Marcelo Gubbert, que também já fora ao Ushuaia. Em Medianeira (PR), o tempo já mudara bastante. O calor de quase 40 graus já não me acompanhava. A temperatura girava em torno de nove e dez graus. Marcelo tinha informações valiosas sobre a estrada e aproveitei cada dica. A melhor foi: “rode no acostamento quando o asfalto apresentar gelo e neve.”

DESAFIOS

Segui viagem com alegria e determinação. Logo eu estava na cidade de Casilda, na Argentina. Ali, o frio já se mostrava desafiador. Após rodar vários quilômetros, ainda escuro, pois o sol aparece tarde no inverno, a uma velocidade de 140 km/h, a moto começou a balançar, violentamente. Fui pego de surpresa e atirado para fora da estrada. A moto saiu arrancando capim – era como se eu estivesse em uma trilha no meio da escuridão. De maneira quase instintiva, fiquei em pé na moto e consegui acionar os freios, dominando a “grandalhona”, que quase me levou ao chão. Uma queda àquela velocidade certamente teria colocado um fim prematuro à aventura. Fiquei ali, abatido, coração disparado e pensativo. Mas, de repente, me dei conta de que tudo não passava de um alerta para o desafio maior, que ainda estava por vir.

SEMPRE EM FRENTE!

Em outro dia de estrada, os termômetros marcavam seis graus negativos, o que embaçava tanto a viseira do capacete quanto meus óculos. Além disso, eu sentia até a gengiva gelar – e ainda havia um longo caminho a percorrer, pois, naquele momento, eu estava próximo de Comodoro Rivadavia. O vento e o frio castigavam, mas eu tinha uma estrada livre de gelo e neve. Devido aos fortes ventos, segurar a moto se tornou um desafio. Por várias vezes, fui arremessado por rajadas de vento na pista contrária. Precisei diminuir a velocidade e rodar na faixa de 60 a 70 km por hora. Uma moto grande padece sob a ação do vento e as ultrapassagens são perigosas. Mas, a cada quilômetro vencido, eu me sentia mais forte. No trecho entre Trelew e Comodoro, notei que o vento era realmente fora do comum. Meu medo era parar e o vento derrubar a moto. A tocada, a partir daquele ponto, foi lenta – mas constante. Os dedos das mãos e dos pés congelavam. Três luvas, manetes aquecidos e eu ainda sentia frio! Consegui chegar a Comodoro no fim da tarde e, no dia seguinte, rumei para a cidade de Pedra Buena. Na verdade, é uma vila militar. O frio estava mais intenso. Procurei por Garcia, mecânico que fez a troca de óleo e das pastilhas de freio, que estavam desgastadas.

PISTA CONGELADA

Quando saí de Pedra Buena, fui parado pela polícia argentina. Eram dois homens e uma mulher. Sorrindo, eles me perguntaram para onde eu ia. Respondi que meu destino era o Ushuaia. Eles balançaram as cabeças e disseram que não seria possível fazê-lo de moto. “Você não vai passar, há muito gelo e neve na pista”, disse a mulher. “Tem experiência em pilotar no gelo?” perguntou um dos homens. Disse que sim e eles permitiram que eu seguisse viagem. Mas, naquele momento, estremeci: não só de frio, mas por medo do que encontraria pela frente. Não fui longe e os primeiros sinais de gelo apareceram. Tudo ficou branco em poucos quilômetros. Eu deveria chegar a Rio Gallegos antes do anoitecer. Eram poucos quilômetros, cerca de 240, apenas – mas, em baixa velocidade, levei um dia inteiro. A partir de Pedra Buena a coisa ficou difícil. A moto deslizava a traseira – era como se eu pilotasse em um trajeto de sabão puro. Eu não pilotava mais sentado no banco, mas em pé, à maneira dos pilotos de trilhas. Foi a maneira mais confortável e segura de prosseguir. Parei e lembrei-me da dica de Marcelo Gubbert. Decidi, então, usar o acostamento. Porém, o acostamento tampouco é muito seguro, já que a sujeira, os buracos, os pedaços de pneus e as grandes pedras podem provocar quedas. E foi exatamente o que aconteceu mais adiante. Levei meu primeiro tombo, mesmo rodando devagar e pelo acostamento. Quanto mais eu avançava, mais temeroso ficava. A luta, agora, era comigo mesmo. O inverno se apresentava com força total. “Desisto ou sigo em frente?”, pensei. À frente, avistei uma camionete com os quatro pneus para cima e alguém se esgueirando para fora do veículo. Parei e constatei ser um policial que acabara de perder o controle e capotar o carro. Ofereci ajuda, mas ele disse que chamaria o resgate. Recebi, ali mesmo, outro conselho. “Amigo, não vá adiante, a estrada está feia.” Mas eu não podia deixar a moto ali: precisava seguir até Rio Gallegos. Em quilometragem, faltava pouco – mas, em horas, era uma eternidade! No entanto, fazendo o possível para manter o moral em alta, cheguei a Rio Gallegos, feliz da vida.

QUASE LÁ…

Entre Rio Gallegos e Rio Grande, os viajantes encontram estrada de rípio. Eu sabia que precisaria cruzar aquele território antes do anoitecer, pois não há nada ali, exceto vento e neve. A parte dianteira da moto estava congelada e, contornando todas as adversidades, cruzei o caminho e fiz a travessia das balsas sob um frio terrível.

Nos últimos quilômetros antes do Ushuaia, tudo mudou. O vento ficou mais forte e o frio atingiu seu ápice. Agora, o termômetro oscilava entre dez e doze graus negativos. A estrada e o acostamento eram uma coisa só. Na pista, avistava-se um fino rastro dos poucos carros e caminhões que por ali trafegavam. Era por este rastro que eu deveria rodar. Sempre que eu saía dele, lá vinha outro tombo. Eu já pilotava com as pernas levantadas – em caso de queda, não teria uma das pernas presas. Foi assim que cheguei a Tolhuin – O Velho Motivador. Parei em um posto de gasolina à beira da estrada e, logo, os curiosos apareceram, sorrindo. Abriguei-me e pedi um chocolate quente. Os outros fregueses fizeram até um tipo de aposta. “Será que ele chega ao destino? Ou não?” As pessoas tentavam me fazer desistir, aconselhando que eu esperasse a nevasca passar para seguir em frente. Então, um senhor de idade se manifestou: “Eles não sabem de nada, já fiz isso várias vezes. Se você chegou até aqui, consegue chegar até lá.” Meus olhos brilharam: era tudo o que eu queria ouvir! Coloquei o capacete, liguei a moto, buzinei alto e saí ouvindo os gritos: “Louco! Vai morrer congelado!”

Mais à frente, levei outro tombo. E desta vez, percebi que era quase impossível levantar a moto, sozinho. Apelei para todas as técnicas conhecidas, mas meus pés deslizavam no gelo, sem apoio. Por sorte, um carro surgiu na estrada e levantamos a moto. Segui meu caminho rumo à grande subida da cordilheira para, aí sim, chegar ao Ushuaia. Atingi o topo da montanha, onde os ventos tinham uma velocidade alucinante. Caí outra vez. E fiquei ali uma eternidade, até que um carro de polícia aparecesse. Com a ajuda dos oficiais, consegui por a moto em pé outra vez – e prossegui. O termômetro da moto registrava -22º. Talvez eu tivesse enlouquecido! Fato é que, escoltado pelos policiais até ao pórtico de entrada da cidade, finalmente cumpri meu objetivo. Ushuaia fora alcançada por um motociclista paraense, que viajava sozinho. E no inverno!

*Matéria publicada na edição #154 da revista Moto Adventure.

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