Longas viagens – Mundo afora – Parte 10

O que você realmente precisa saber se estiver disposto a fazer longas viagens e passar muito tempo na estrada

Texto e Fotos: Marcelo Leite

Imagine que você está há meses longe de casa, cruzando, de moto, um país distante e sem muita infraestrutura. Pense nas seguintes situações: você matou uma cabra que atravessou seu caminho; foi atacado por bandidos ao parar em um posto de gasolina, à noite; roubaram todos os seus documentos; um policial flagrou você em alta velocidade; seu pneu traseiro começou a mostrar a cinta metálica, de tão desgastado; suas pastilhas de freio estão “fritando” o disco; seu radiador está perdendo água; de tão cansado, você escorregou em uma curva e quebrou o tornozelo; ou pior: atropelou uma criança quando cruzava um povoado… Das pequenas dificuldades às mais complicadas, quando se está em um país distante, tudo pode tomar proporções enormes (e prejudicá-lo de forma imprevisível).

Todas as pessoas com experiência em grandes expedições de moto que conheço têm, em comum, uma incrível capacidade de gerenciar riscos. Muitas dessas pessoas são pilotos medíocres, péssimos mecânicos, não falam Inglês e quase não sabem usar um GPS… Mas são excelentes gestoras de riscos e conservadoras ao extremo. Vão longe, por meses ou anos, e ainda voltam inteiras e plenamente realizadas. Veja, a seguir, como essas pessoas costumam tocar o “dia-a-dia”.

TENHA UM PLANO DE VIAGEM

Tenha clareza de onde você quer chegar nos próximos dias. Estude onde é melhor parar e passar cada noite. Evite rodar longos períodos ou grandes distâncias em um mesmo dia. Nunca rode à noite. Tudo é mais complicado: sua atenção, a visibilidade da pista, os péssimos motoristas, os bandidos e até a polícia. Em alguns locais, o risco de um acidente com animais soltos é imenso. Na Austrália, por exemplo, os cangurus tomam conta das estradas quando o sol se vai. É tão perigoso que nem caminhões rodam à noite. Na África, ou mesmo em algumas regiões brasileiras, rodar à noite é pedir para ter problemas.

Saindo bem cedo, o dia rende muito mais. Costumo ligar o motor por volta das 06h00. Saio descansado e com pouco movimento nas estradas. Procuro parar aproximadamente 10 minutos a cada duas horas e, assim, chegar ao destino diário por volta das 14h00. Desse modo, há tempo para achar algum lugar para ficar, aproveitar o local à tarde e à noite e ainda estar inteiro para o dia seguinte. E o mais importante: se houver qualquer imprevisto, dá para resolver tudo e chegar ao destino antes do anoitecer. Nessas circunstâncias, o período da tarde é sempre uma “contingência”.

AJA COMO UM “CHATO”

Antes de ligar o motor, faça uma rápida inspeção visual da moto. Pneus, raios, corrente, cabos, freios, vazamentos e nível de óleo. Não saia para a estrada se houver qualquer pendência a resolver.

Siga absolutamente todas as leis e regras locais. Equipamentos, luzes, documentos… E nada de velocidade acima do permitido ou atalhos proibidos. Não se esqueça: longe do seu país, qualquer “probleminha” pode virar uma grande dor de cabeça e acabar com sua expedição. É claro que, em alguns países, as regras chegam a ser cômicas: em Cuba, não se pode rodar com luzes acesas durante o dia; no Turquemenistão, a moto precisa estar sempre limpa; e na Austrália, se você seguir à risca as placas, entrará em algumas curvas a 30 km/h esperando pelo pior, mas não encontrará nada de anormal. Paciência! É melhor se adaptar.

Pergunte tudo várias vezes, e para muitas pessoas. Mapas e guias, às vezes, estão desatualizados. É sempre bom saber das pessoas locais os pontos de atenção, os últimos acontecimentos ou mesmo, dicas de lugares bacanas. Mas nem sempre seus interlocutores entendem direito o que você quer saber. E nem sempre têm a informação que você busca. Em certos casos, a pessoa quer ser simpática e diz qualquer coisa, mesmo sem saber. No Vietnã, por exemplo, quando não entendem ou não sabem o que você pergunta, costumam concordar com qualquer afirmação que você faça. Por isso, pergunte sempre a mesma coisa a pessoas diferentes. Eu costumo levar um bloquinho de papel e uma caneta, para me comunicar por meio de desenhos (quando se apresenta a barreira do idioma).

“ESQUEÇA” OS FREIOS

Queremos minimizar riscos – sejam estes de acidente, falta de combustível ou desgaste prematuro da moto e dos pneus.

A receita é bem conhecida e perfeita para quem roda por longas distâncias. Pilote como se a moto não tivesse freios. Assim, você nunca irá acelerar demais e não rodará em alta velocidade. Terá sempre que manter uma distância grande dos próximos obstáculos. Não se esqueça: em alguns lugares, você terá que fazer verdadeiras mágicas para esticar a vida dos pneus ou achar combustível. Não há segredo: toda vez que usamos os freios, estamos jogando fora a energia que foi gerada na aceleração anterior. Pilotar evitando frear, economiza combustível, pneus, pastilhas e motor. Com isso, a autonomia aumenta uma “barbaridade”! E a condução conservadora reduz drasticamente o risco de acidentes. Obviamente, essa história de “esquecer os freios” é só força de expressão!

Estas são diferentes formas de minimizar riscos inerentes a uma expedição longa de moto. As experiências, as vivências fantásticas, o convívio com diferentes comunidades e os lugares quase mágicos que uma expedição de moto nos proporciona são tão incríveis que justificam qualquer esforço. Inclusive, o de ser conservador em todos os momentos… Na próxima edição, falaremos sobre navegação e pneus. Até lá!

Confira a Parte 12345678 e 9 da sessão Longas Viagens.

*Matéria publicada na edição #158 da revista Moto Adventure.

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