Longas viagens – Mundo afora – Parte 11

O que você realmente precisa saber se estiver disposto a fazer longas viagens e passar muito tempo na estrada

Texto e Fotos: Marcelo Leite

Nesta edição, nosso assunto são os pneus no contexto de uma grande viagem de moto. Imagine que você está rodando em uma Big Trail e seu pneu traseiro chegou ao fim, mas ainda faltam 5 mil km para chegar a algum lugar onde você possa resolver o problema. E se você estiver ao sul da Tanzânia (longe de tudo) e, ao passar por uma peça metálica, seu pneu traseiro se rasgar?

O que fazer para evitar situações assim?

Problemas com pneus podem nos deixar parados na estrada, ou nos levar direto ao chão. Mas não fique estressado: basta adotar atitudes bem simples, como as que veremos a seguir. Invista em planejamento, em preparação e em alguns cuidados especiais. Os riscos serão minimizados.

PLANEJAMENTO DE PNEUS

É fundamental fazer um plano prevendo os pontos nos quais você poderá fazer suas próximas trocas de pneus. O plano deverá contemplar os tipos de terrenos dos próximos trechos e as distâncias entre os pontos nos quais você poderá se reabastecer de pneus. Em função desses dados, você deverá fazer a difícil escolha dos modelos que irá adotar. Não há solução ideal nesse tipo de escolha, mas sim, soluções de compromisso entre durabilidade e adaptação aos terrenos.

Em minha última expedição, utilizei sete pares de pneus e, por isso, a título de exemplo, estou adotando como referência o uso em uma BMW GS1200, bastante carregada. Para evitar a comparação entre marcas, que não é o objetivo deste artigo, vejamos diferentes alternativas de modelos de um mesmo fabricante:

  • Tourance Exp/Next: é excelente no asfalto, mas não foi feito sequer para um off-road leve. Costuma durar aproximadamente de 8 a 10 mil km;
  • Tourance: vai muito bem no asfalto, em terra batida e em pedras soltas, mas não serve para lama ou off-road mais pesado. Sua vida útil é o ponto forte: de 15 a 18 mil km, em minha configuração;
  • Karoo 3: surpreendentemente aceitável no asfalto e muito bom em off-road. Chaga a fazer, aproximadamente, 10 mil km.
  • Karoo 2: excelente para um off-road mais pesado, inclusive, areia fofa; mas não foi feito para asfalto e sua duração é de, no máximo, 5 mil km.

Fica patente que os extremos (ou seja: só asfalto ou só off-road) dificilmente respondem às necessidades de uma expedição ou grande viagem. Ficar entre um modelo do tipo Tourance e Karoo3, conforme cada etapa, parece fazer mais sentido.

Poderão surgir situações que irão acelerar consideravelmente o desgaste dos seus pneus. Por isso, seja conservador em seus cálculos. Dias com temperatura em torno de 50oC, como os que encontrei no México e no Sudão (ou o asfalto das estradas australianas, extremamente abrasivas ), são exemplos dessas situações.

Talvez você esteja se perguntando se não vale a pena levar pneus para troca. É claro que isso é possível, mas as desvantagens são tantas (peso, transporte etc.) que não recomendo essa alternativa.

Em praticamente todo o continente americano e na Europa, é muito fácil achar pneu. Mas isto não é nada trivial em muitas regiões da África e da Ásia. Por isso, a durabilidade é um fator fundamental em sua escolha. Países de dimensões continentais, como a Rússia e a Austrália, têm regiões fantásticas, como Sibéria e o outback, onde a melhor (e talvez, a única) solução é encomendar pneus on-line, que serão entregues onde você estiver (veja: www.motorezina.ru e www.tyres4bikes.com.au).

PREPARAÇÃO

  • O que levar para reparo ou troca de pneus?

Leve uma bomba manual (ou até um mini-compressor), espátulas (uma longa e duas curtas, para economizar espaço), selante em spray (ótimo para pequenos furos), reparo de pneu (com ou sem câmara, conforme o caso), manômetro manual e um pouco de vaselina industrial (ótima para facilitar as trocas).

Leve sempre câmaras novas e de boa qualidade, mesmo que você utilize pneus sem câmara. Em uma eventualidade de furo muito grande, rasgo ou até um amassado na roda, uma câmara pode ser a salvação.

  • Como reparar ou trocar um pneu?

Não saia para uma grande viagem se você não se sente à vontade para trocar um pneu. Procure orientação e treine. Fure propositalmente um pneu com uso de uma pequena chave de fenda. Conserte, faça de novo, desmonte e monte um pneu várias vezes. Não é difícil – realmente, é uma questão de prática. Em apenas algumas horas, você já se sentirá um “especialista”. Não é melhor encontrar dificuldades enquanto estiver na sua garagem do que em uma estrada no Quênia? Portanto, treine!

CUIDADOS NA ESTRADA

No dia a dia da estrada, pequenos cuidados podem diminuir consideravelmente os riscos de um problema de pneus. Verifique diariamente o estado de cada um dos pneus, procure por rachaduras, fendas, pregos ou qualquer coisa fora do normal.

Não deixe de verificar a pressão. Tenha, como referência, os valores recomendados. Muita gente experiente costuma colocar 1 ou 2 libras adicionais para as etapas de asfalto, com o objetivo de diminuir o efeito de flexão da carcaça e, com isso, aumentar a vida útil dos pneus. Outros, em busca de maior tração, diminuem a pressão em trechos mais pesados de off-road, principalmente em areia fofa.

É claro que evitar as partes sujas da estrada, como os acostamentos, é uma boa prática. Quando se passa muito tempo (às vezes, semanas) em trechos difíceis de off-road, é bastante sensato colocar câmaras novas antes de voltar a pegar o asfalto para rodar em velocidades acima de 100 km/h. Uma câmara sujeita aos desgastes de um longo e intenso período de off-road pode simplesmente estourar em velocidades mais altas. Se for um pneu dianteiro, as consequências podem ser muito graves.

Minha média tem sido um problema de pneu a cada 50 mil km, ou seja: quase nada. Sem mágicas ou sorte, mas com atitudes simples. Planejamento e preparação para podermos aproveitar cada dia na estrada e, assim, construir mais histórias e viver plenamente os prazeres impagáveis que só uma grande viagem de moto pode proporcionar.

Confira a Parte 123456789 e 10 da sessão Longas Viagens.

*Matéria publicada na edição #159 da revista Moto Adventure.

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