Longas viagens – Mundo Afora – Parte 12

O que você realmente precisa saber se estiver disposto a fazer longas viagens e passar muito tempo na estrada

Texto e Fotos: Marcelo Leite

Nesta edição, abordaremos um assunto praticamente inevitável para uma grande viagem de moto pelo mundo: como atravessar oceanos. Despachar uma moto de um lado a outro de um oceano não é tarefa fácil e, muitas vezes, dá uma tremenda dor de cabeça! Mas, com um pouco de planejamento e cuidado, é possível minimizar esses problemas…

NAVIO OU AVIÃO?

Há duas alternativas para despachar a moto para cruzar um oceano: navio ou avião de carga. Transportar a moto por navio cargueiro parece sempre uma boa alternativa quando se recebem as primeiras cotações. As diferenças de preços parecem muito relevantes. Porém, cuidado: é pura ilusão – e muita gente (inclusive, eu mesmo) se arrependeu seriamente disso. A questão é que essas cotações de agentes marítimos omitem todas as taxas portuárias do destino e elas costumam ser “salgadas”. E, como se não bastasse o tempo previsto (muito mais longo), dificilmente os prazos são cumpridos. Também são comuns casos de contêineres que se “perdem” durante semanas. E para completar a dor de cabeça, os processos alfandegários dos portos costumam ser muito mais complicados e demorados que os dos aeroportos. Então, minha recomendação é: fuja dessa alternativa!

CARGA AÉREA

Nem todas as companhias aéreas aceitam transportar uma moto como carga ou aceitam fazê-lo sem a intermediação de um agente de carga. E muitas entendem que isso é um péssimo negócio (logo, a má vontade costuma ser a regra). Depois de “apanhar” um pouco nesses processos, adotei por regra me dirigir ao terminal de carga do aeroporto e bater à porta de cada empresa, em busca da melhor alternativa.

ESTIMATIVA DE PREÇOS

Os valores praticados dependem mais do volume ocupado que do peso da moto. Variam muito mais pela demanda no trecho do que pela distância. Voos diretos costumam ser mais baratos. E, por fim, dependem muito da vocação da empresa para esse tipo de serviço. Vejamos alguns exemplos de valores aproximados aplicados para uma moto de grande porte, pesando (com caixa, baús etc..) aproximadamente 400 kg:

Canadá-Europa: US$ 800,00

África do Sul-Austrália: US$ 1.800,00

Austrália-Japão: US$ 2.500,00

Europa-Chile: 1.500,00

Cuba-Colômbia: US$ 600,00

*Valores referentes a edição #160 da revista Moto Adventure.

PREPARAÇÃO DA MOTO

A IATA (associação internacional das empresas aéreas) regulamenta este tipo de transporte. Motos são consideradas “Bens Perigosos” (categoria 9). Para esta classificação, é preciso desconectar e isolar a bateria. E o tanque de combustível não pode conter mais de 0,5 litros de gasolina. Isto é o que diz a regra internacional, mas alguns países (e empresas aéreas) adotam restrições adicionais, tais como: esvaziar totalmente o cárter de óleo (às vezes, vale uma boa briga!). Em alguns lugares, basta uma inspeção visual; em outros, é preciso chamar (e remunerar) um agente credenciado para emitir um atestado específico.

Não é regra, mas, ocasionalmente, é exigido deixar os pneus com metade da pressão para evitar que eventuais oscilações de pressão no compartimento de carga possam estourar um pneu. Um exagero – mas, como não custa nada, por que não?

TRÂMITES

As companhias mais experientes permitem que a moto vá amarrada em uma base metálica fornecida pela própria empresa. Geralmente, essa alternativa só é válida em trechos nos quais não haverá mudança de aeronave e nem escalas. Vale a pena pesquisar (e até pagar um pouco mais pelo frete), já que fazer uma caixa é algo trabalhoso e caro. Eis algumas empresas que oferecem a alternativa de voar sem encaixotar a moto: AirTransat (Canadá); Qantas (Austrália), LanChile, KLM e Korean.

A maioria das empresas exige que a moto seja embalada em uma caixa de madeira. Antes de sair encaixotando o veículo, é preciso pesquisar alguns assuntos críticos. As dimensões máximas da caixa podem depender do modelo de aeronave. E a política de preço de cada companhia com relação ao volume. Normalmente, o volume impacta muito mais no preço que o peso da moto.

Em função dessas informações, é preciso desenhar uma caixa com o menor volume possível. É preciso tirar espelhos, bolha, baixar guidão e, em muitos casos, a roda dianteira. Já que o peso não interfere muito no preço, é sensato aproveitar e colocar o máximo de coisas na caixa, tais como: baús, capacetes, botas, jaquetas etc.

A caixa é, basicamente, um pallet reforçado, no qual a moto deverá ser fixada com tirantes, com laterais e tampo sem nenhuma função estrutural. Lembre-se de que o impacto do pouso do avião forçará todo o conjunto. Por isso, é bom deixar a suspensão comprimida só até a metade. A base deve ser robusta e os tirantes bem distribuídos.

Ao chegar ao destino, você se verá sozinho para retirar a moto. Por isso, procure deixar um pé de cabra com fácil acesso na base da caixa. Deixe algumas ferramentas em lugar fácil e não se esqueça do compressor (para encher os pneus).

CONTRATEMPOS

A documentação para despacho não é tão complicada. Mas voos de cargueiro não têm datas e horários tão rígidos como voos de passageiros. É comum haver mudanças de última hora (e até realocação da carga). Procure não sair do país antes de ter certeza que a moto embarcou sem problemas. Resolver eventuais pendências à distância é bem mais complicado.

PAÍSES A EVITAR

De um lado, existem países nos quais os processos de desembaraço são simples e objetivos, como o Canadá e o Chile. Por outro, deve-se evitar alguns locais e buscar alternativas de conexão por terra ou ferries. Eis alguns exemplos:

EUA (prefira o Canadá);

Brasil e Argentina (prefira o Chile ou o Uruguai);

Leste Russo (prefira a Coreia ou o Japão; e vá de ferry).

Com alguns cuidados, é possível rodar pelo mundo e ir além do já batido continente americano. Não é tão complicado e nem tão caro (como pode parecer). Desbravar novos lugares, culturas e experiências que só uma moto nos oferece é algo impagável. Pense seriamente nessas alternativas. O mundo pode estar muito mais em suas mãos do que você imagina. Até a próxima!

Confira a Parte 12345678910 e 11 da sessão Longas Viagens.

*Matéria publicada na edição #160 da revista Moto Adventure.

DEIXE UMA RESPOSTA