Longas viagens – Mundo afora – Parte 14

O que você realmente precisa saber se estiver disposto a fazer longas viagens e passar muito tempo na estrada

Texto e Fotos: Marcelo Leite

Ultimamente tenho feito palestras e participado de vários eventos de motociclistas. Invariavelmente as pessoas me falam sobre sua vontade de fazer grandes viagens de moto ao redor do mundo. O que me chama a atenção é o fato de quase todas essas pessoas dizerem que não têm coragem (ou então, que se sentem intimidadas) de colocar esse sonho em prática. Claro que isto é fruto de uma mescla de questões emocionais com temas concretos e reais. Costumo pedir a eles que explicitem o que realmente os assusta, a ponto de abdicarem dos próprios desejos. Via de regra, as situações mais temidas são:

– A possibilidade de a moto quebrar em um “fim de mundo”;

– Sofrer um acidente em um lugar remoto;

– Ser atacado por bandidos em um país distante.

Nesta edição abordaremos essas três situações.

MOTO QUEBRADA QUANDO SE ESTÁ LONGE DE TUDO

De fato, esse risco sempre existirá. Mas se você adotar medidas de planejamento e preparação adequadas, será possível minimizar muito a chance de algo acontecer com a moto.

Considere, ainda, que em qualquer capital do mundo, por mais subdesenvolvida que seja, você sempre encontrará algum tipo de suporte de mecânicos competentes. E acredite: é comum encontrar ótimos profissionais nos países mais pobres. Mecânicos que sabem consertar peças e usinar componentes (e não só fazer trocas, como é costume nos países ricos).

Muita gente se esquece de que boa parte das peças e componentes das motos atuais são padrões da indústria automobilística, fabricados e distribuídos pelos mesmos fornecedores no mundo todo (Bosch, Denso, Delphi, SKF, Magnetti-Marelli, Valeo, etc.). Ou seja: retentores, rolamentos, filtros, correias e bombas de gasolina são padrões de mercado. Muitas vezes os mesmos modelos que equipam modernas BMW GS ou KTM 990 também são usados por VW Golf, Peugeot 206 etc. É assim no mundo todo! Uma correia de alternador de uma moto de grande porte pode ser uma correia de ar-condicionado de um carro popular, assim como as bombas de gasolina são quase sempre idênticas em quase todos os veículos. Às vezes mudam só as conexões e outras coisinhas bobas, que qualquer mecânico saberá ajustar.

Saiba, ainda, que em todas as cidades é possível receber encomendas de courriers internacionais, como a DHL. Uma peça específica poderá chegar até você em até cinco dias em qualquer lugar do planeta.

Claro: você pode quebrar longe da uma capital. Mas em qualquer lugar haverá caminhões para levá-lo a uma capital em, no máximo, cinco dias.

Sinceramente: à luz dos pontos aqui colocados, não faz sentido ficar apavorado com uma eventual quebra e não aproveitar lugares tão maravilhosos como as savanas africanas!

ACIDENTES EM LUGARES REMOTOS

Todos sabemos que sofrer um acidente faz parte do risco assumido quando decidimos andar de moto. Mas se você for cuidadoso (e relativamente conservador), tal possibilidade será consideravelmente reduzida.

Quando se está em um lugar remoto, como no interior da Sibéria, o interior da África ou o Outback australiano, os maiores riscos dependem essencialmente de suas próprias atitudes. Quando você circula de moto em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro ou Belo Horizonte, o risco de sofrer um acidente depende de fatores e de atitudes de várias pessoas sobre as quais você não tem qualquer controle.

Compreende-se, então, que o risco de sofrer um grave acidente de moto é bem maior circulando pelas grandes cidades brasileiras do que em um lugar remoto na Patagônia ou no Alaska.

ATAQUES DE BANDIDOS

Não existe lugar 100% livre de bandidos no planeta. A ONU publica todo ano um ranking com indicadores de homicídios por países. Dos quase 200 países da Terra, o Brasil ocupa a sétima colocação no ranking. Os primeiros lugares são divididos entre os pequenos países da América Central. Quem mora em São Paulo ou no Rio não precisa de indicador nenhum para saber dos perigos reais de ser assaltado, ter sua moto roubada ou morrer bestamente reagindo à abordagem de um garoto armado. Tive a oportunidade de atravessar de moto cada um dos cinco continentes e posso dizer tranquilamente que esses indicadores da ONU refletem a percepção que tive nos mais remotos lugares. Em nenhuma região do mundo me sinto mais em perigo do que em São Paulo!

Essa é nossa triste realidade. É muito provável que as pessoas fiquem apavoradas com a possibilidade de serem atacadas por bandidos em países diferentes simplesmente porque os desconhecem.

Enfim: basta apelar à razão para ver que não há justificativa para aceitar que sentimentos de medo nos impeçam de realizar nossos sonhos. Ainda mais se este sonho for uma grande e longa viagem de moto pelo mundo afora! O mundo o espera! Até a próxima!

Confira a Parte 123456789101112 e 13 da sessão Longas Viagens.

*Matéria publicada na edição #162 da revista Moto Adventure.

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