Longas viagens – Mundo afora – Parte 9

O que você realmente precisa saber se estiver disposto a fazer longas viagens e passar muito tempo na estrada

Texto e Fotos: Marcelo Leite

Na seção “Mundo Afora” da última edição (156), como parte da série dos melhores e piores países para incluir (ou evitar) em sua próxima viagem de moto, falamos da apaixonante África. Nesta edição, abordaremos a imensa Ásia – um lugar com muitos destinos fantásticos. Ali, meus países preferidos são a Mongólia, o Vietnã e o Irã.

MONGÓLIA

Se existe um lugar no mundo onde tudo é “extremo”, este lugar é a Mongólia. No inverno, a temperatura chega a 50oC negativos, portanto, considere apenas os meses de julho e agosto para desbravá-la. A beleza das planícies infinitas de estepes é única. Em que outro lugar você pode puxar forte pelas pistas de areia, cercado por manadas de cavalos selvagens? O convívio com as comunidades nômades em suas tendas é muito gratificante. É o único país que conheço digno de ser considerado 100% off-road. Não há estradas e as pontes sobre os rios são raríssimas. Navegação, só em modo “bússola”. Pistas e trilhas de areia o tempo todo, além de várias travessias de rios e as inevitáveis quedas. São semanas sem chuveiro ou banheiro. Para os que gostam desses tipos de desafios é o paraíso na terra. Para os demais, é o inferno.

VIETNÃ

A intensidade de sua história se faz presente em todos os momentos. As diversas guerras deixaram marcas, mas, também, uma força de reconstrução incrível. É o país com o maior número de motos e scooters do planeta. Com isso, em cada canto, seja nas cidades ou nos vilarejos, há sempre todo tipo de serviços e apoio ao mundo das duas rodas. Há até bombas de gasolina dedicadas exclusivamente a motos. O norte do país é montanhoso, tem estradinhas imperdíveis e os vilarejos perto da fronteira com a China são de várias etnias. Com isso, as roupas, a língua, a comida e alguns costumes mudam a cada novo vilarejo. O que não muda é o costume de comer cachorro. Sem saber, passamos por essa experiência desagradável. Mais ao sul, o litoral é muito especial, bem diferente do que conhecemos. Uma excelente alternativa é alugar uma moto em Hanói no norte e descer devagar até Saigon. O ideal é reservar três semanas para esta viagem. Vale a pena.

IRÃ

Esqueça tudo o que vemos na TV sobre o Irã. Atravessar este país de moto foi uma das melhores experiências que tive. As montanhas do norte são belíssimas, o mercado de Teerã é uma verdadeira “perdição” e a cidade de Esfahan (com suas mesquitas) é uma das mais belas que já vi. A comida é parecida com a que conhecemos genericamente como “árabe”, mas ainda mais saborosa. E é incrível a hospitalidade das pessoas. Elas se desdobram para nos acolher, nos guiando, ajudando, hospedando e puxando longas conversas sobre valores e conceitos de honestidade e confiança (os quais, muitas vezes, esquecemos). A infraestrutura disponível é excelente e a gasolina é quase de graça (R$ 0,20/litro). É um dos países em que eu voltaria, sem nenhuma dúvida, para um período mais longo. Trata-se de uma experiência enriquecedora para a alma.

LESTE RUSSO E SIBÉRIA

É preciso reservar o verão para atravessar o Leste Russo e a Sibéria. As poucas cidades são interessantes e explorar os vilarejos da área rural é bem gostoso. As distâncias são gigantescas, como em nenhum outro lugar do mundo. Os dias de estrada são longos, às vezes, infinitos. Na maior parte do tempo, as atrações se repetem por dias e até semanas. Por isso, não é um bom destino se não houver tempo disponível.

COREIA DO SUL

A Coreia do Sul tem um charme que poucos imaginam. Gente acolhedora, comida excelente e infraestrutura das melhores. Vale a pena passar alguns dias em Seul, a capital, e com apenas mais uma semana, já se conhece o suficiente deste pequeno país. Isoladamente a Coreia pode não valer o investimento, mas é uma ótima opção de conexão com a Sibéria e o Japão. Tem um ferry que leva passageiros e motos fazendo semanalmente a ligação da Coreia, do Japão e da Sibéria.

JAPÃO

Explorar o Japão de moto permite descobrir um lado do país que dificilmente os estrangeiros têm a oportunidade de vivenciar. É o Japão rural, o interior, ainda fortemente marcado pelas tradições. O país é montanhoso, cheio de curvas e de uma beleza impressionante. Além de tudo, é uma excelente opção de aprendizado cultural e gastronômico. A população é receptiva e nos faz esquecer a dificuldade do idioma. A organização e infraestrutura fazem deste destino um forte candidato para quem quer viver experiências diferentes, mas não quer correr grandes riscos e não abre mão do conforto. No país da Honda, Yamaha, Kawasaki e Suzuki, há até Harleys e BMWs para alugar!

UZBEQUISTÃO

Um dos países mais importantes da Ásia Central, o Uzbequistão é marcado pelo papel que teve na história da Rota da Seda. Foi uma referência para os comerciantes que conectavam o oriente com a Europa e um marco na história do Islã. As estradas são relativamente boas e gostosas. As cidades de Bukhara e Samarkand estão entre os lugares mais lindos do mundo. A praça conhecida como Rejistan, em Samarkand, já vale toda a viagem. É um imenso conjunto de mesquitas, minaretes e medressas de cúpulas azuis. É uma grande mistura de beleza e poder da Fé. Quando rodei por esta região, cheguei a achar que estava sendo presenteado por Deus.

TURQUEMENISTÃO

Se existe um país a ser evitado na região, este é o Turquemenistão. É um dos locais mais fechados do mundo. Obter um visto de entrada e autorização para circular com a moto é missão para lá de difícil. Há uma opção de “visto de trânsito” para quem quer apenas atravessar o país em até cinco dias. Foi o que consegui, mas tive que seguir uma rota pré-definida pelas autoridades. É uma ditadura, como se vê nos piores filmes de ficção. A população segue regras até para se vestir. Devem evitar contato com os estrangeiros e não podem circular por onde quiserem. As motos têm que estar sempre impecavelmente limpas, para não sermos multados, e só podemos nos hospedar em locais autorizados. Nem pense em fazer fotos, tudo é controlado! Até para abastecer é preciso provar que estamos na rota pré-definida. É um ambiente sufocante, o tempo todo. E não há nenhum grande atrativo que justifique passar por toda essa pressão. Evite!

FUTURO

Eu não tive, ainda, a oportunidade de rodar pela região conhecida como Subcontinente Indiano, por isso, não a tratei aqui. A Ásia é o maior continente do planeta, aquele com maior diversidade cultural e o que mais se distancia de nossas referências. É, portanto, uma excelente opção para quem quer descobrir coisas novas e diferentes. Depois de termos falado de planejamento, preparação e lugares especiais para as suas viagens de moto, na próxima edição abordaremos o dia-a-dia na estrada em uma grande expedição. Até lá!

Confira a Parte 1234567 e 8 da sessão Longas Viagens.

*Matéria publicada na edição #157 da revista Moto Adventure.

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