Roteiro: Parque Nacional da Chapada Diamantina (BA) – Parte 1

O Parque Nacional da Chapada Diamantina, na Bahia, tem atrações que extrapolam seus limites e se espalham por cidadezinhas que tiveram seu apogeu no final do século 19, quando a região era famosa pelas jazidas de diamantes

Texto e fotos: Rodrigo Tristão

Enquanto um homem entoava o mantra sagrado, reverenciando a chegada da noite, eu observava o pôr do sol no alto do Morro do Pai Inácio, na Chapada Diamantina (BA). Com o surgimento das estrelas, a lua começou a se posicionar acima das escarpas rochosas. A magia resplandeceu com um risco esverdeado no céu, pouco abaixo da lua. Era a serpente de fogo. Com meus olhos atônitos, naquele cenário deslumbrante, eu acompanhava e fotografava o cintilar de um meteoro numa das paisagens mais fascinantes do Brasil. Foi um daqueles momentos que se eternizam na memória. As palavras não têm poder para descrevê-lo. Fazia alguns meses que eu não viajava de moto. Pensei em dar uma volta, sem compromisso, para me sintonizar de novo com a natureza e sentir o vento batendo no peito e para tal eu tinha uma semana livre. Passei os olhos no mapa e vislumbrei a Bahia. Três dias para ir, três para ver cenários majestosos e três dias para voltar. Assim, decidi ir para a Chapada Diamantina.

NA ESTRADA

Rapidamente tracei o roteiro, arrumei a tralha e segui para estrada. Saí de Descalvado, cidade do interior paulista onde moro, e rodei 700 km até Cristalina, em Goiás, onde pernoitei pela primeira vez. No dia seguinte percorri mais 650 km e cheguei a Luis Eduardo Magalhães, na Bahia. Naquela região, esta é a melhor cidade para ficar. Há bons hotéis e boa estrutura. Finalmente, no terceiro dia, percorri cerca de 600 km até alcançar Lençóis, cidade base para conhecer as principais atrações da Chapada Diamantina.

Eu estive na região havia vinte anos e o passar do tempo me fez ver tudo de forma diferente. Parece que, com o tempo, começamos a apreciar com mais intensidade algumas belezas que antes não eram tão valorizadas.

Cheguei a Lençóis por volta das 15h30. O dono da pousada falou que ainda precisava fazer a limpeza do quarto e recomendou que eu fizesse um passeio enquanto isso. Ele sugeriu que eu aproveitasse aquela tarde bonita, porque em geral os dias estavam chuvosos. E como o Morro do Pai Inácio fica a apenas 25 km da cidade, em estrada asfaltada e o céu limpo, era uma boa opção para aquele fim de tarde. Liguei a moto e segui para a estrada. Fui contemplando os recortes das serras, cuja coloração ficava amarelada à medida que o sol chegava um pouco mais perto do horizonte.

Estacionei a moto no pé da montanha, peguei o equipamento fotográfico e comecei a subir a trilha. Mal sabia que estava prestes a contemplar uma das cenas mais lindas da minha vida.

MOMENTO ÚNICO

A vista do alto do Morro do Pai Inácio é majestosa. Diversos paredões de rocha se levantam poderosos ao seu redor. Quando as últimas luzes do dia os atingem, ficam simplesmente deslumbrantes. Devia ter mais ou menos umas dez pessoas lá no alto, que começaram a ir embora quando o sol começou a cair. Quando dei por mim, havia apenas mais uma pessoa comigo no alto do morro. A cena era mítica: um homem reverenciava esses últimos minutos do pôr do sol cantando um mantra belíssimo. A sensação de paz, ao sentir o vento, ao observar aquelas cores do firmamento e ao ouvir a entonação de um mantra lindíssimo, era única. De alguma forma, depois que o sol se pôs, começamos a conversar. Seu nome era Joás e ele me disse que era guia na Chapada. Ele viu que eu estava encantado com o cenário, especialmente com o deslocamento da lua para cima dos paredões de rocha.

Ele disse: “Cara, fica à vontade para fazer suas fotos. Depois a gente faz a trilha de volta juntos”.

Comecei a fotografar as escarpas, agora iluminadas pelos raios lunares. Como um presente dos céus, neste momento apareceu um meteoro, pouco abaixo da lua. A serpente de fogo, expressão usada como referência a meteoros e cometas, riscava o céu com uma beleza difícil de descrever. Parecia uma pintura. Entrei em êxtase. Depois desse momento, eu e Joás descemos a trilha para a base do morro. Ele foi embora e eu fiquei mais uns instantes, contemplando aquela serenidade noturna. Foi um dia mágico.

Voltei para a pousada com uma sensação de paz absurda.

OBRA PRIMA

No dia seguinte eu partiria para fotografar dois ícones da região: o Poço Encantado e o Poço Azul. O Poço Encantado é uma obra prima da natureza. É uma caverna dentro da qual há uma lagoa de cor azul tão intensa que chega a hipnotizar. Por um buraco lateral, durante algum tempo, um raio de luz invade o ambiente escuro e incide na água, construindo matizes azuis fascinantes. Parece outro planeta.

Meu objetivo era fotografar esta cena singular, mas, para minha apreensão, o dia seguinte amanheceu chovendo. Inverno na Bahia é chuvoso, ao contrário do que acontece no sudeste. Equipei a moto, peguei o equipamento fotográfico e parti, ainda com alguns respingos de chuva, para tentar obter algumas fotos. Eram aproximadamente 150 km de Lençóis até o Poço Encantado. Peguei a estrada de asfalto por pouco mais de 100 km e então começou a estrada de terra, onde minha moto se sente em casa. A Yamaha Ténéré 660 é boa no asfalto, mas na terra ela mostra que está em seu habitat natural. Encara as irregularidades do terreno como se elas não existissem. A chuva parou. O céu alternava momentos de nublado e sol. Já era uma esperança para fotografar o raio de luz na caverna.

Cheguei ao Poço. Tinha pouca gente. Desci pela trilha com um grupo de cinco pessoas, todas equipadas com capacete de lanterna. Depois de nos deslocarmos por túneis e caminhar no interior dos corredores escuros, deparamo-nos com aquela lagoa azul esplendorosa. Mesmo sem o raio, ela é um capricho da natureza. Mas, para minha sorte, as nuvens se movimentaram e o raio de luz entrou pela fenda lateral, pincelando a lagoa com uma tonalidade de azul que cintilava em contraste com a escuridão ao redor. Foi hora de tentar captar aquelas imagens tão impressionantes. O grupo foi embora e fiquei ali sozinho alguns minutos, absorvendo o impacto de tamanha beleza. Fiquei mais uns quarenta minutos, e depois voltei com outro grupo.

*Matéria publicada na edição #188 da revista Moto Adventure.

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