Pilotando até a Chapada dos Veadeiros e a Chapada das Mesas – Parte 2

Nos regiões Centro-Oeste e Nordeste do país, surgem a Chapada dos Veadeiros e a Chapada das Mesas, lugares mágicos e encantadores

Texto e fotos: Rodrigo Octávio Tristão de Almeida

Depois de viver experiências surpreendentes no Estado de Tocantins e na Chapada das Mesas, no sul do Maranhão, rumei novamente à região da Chapada dos Veadeiros, uma parte do Brasil circundada por histórias místicas e sítios naturais de renomada beleza.

Saí de Palmas, capital de Tocantins, com o nascer do sol, rumo ao sul, deixando o Estado de Tocantins e reentrando em Goiás. Ao me aproximar da Chapada dos Veadeiros (GO), comecei a sentir de novo aquela energia bacana que permeia o lugar. As montanhas começavam a se elevar nas margens da estrada, recortando o horizonte com lindos desenhos.

Após percorrer mais ou menos 600 quilômetros, cheguei a Cavalcante, onde dormi mais uma noite. Gostei muito dessa cidade e me senti como se estivesse na minha própria casa. Nesse meio tempo conheci Juvenal, um rapaz que trabalhava na hospedagem e também gostava de off-road. Quando ele viu minha moto, começou a conversar, procurando saber de onde eu vinha, para onde ia. Ele me contou da existência de um circuito para fazer de moto, rodeando o Parque Nacional por uma estrada de terra, passando por Colinas do Sul e São Jorge. Ele contou que essa estrada oferecia paisagens lindíssimas que não eram tão conhecidas. Falei que quando retornasse à região gostaria muito de fazer esse percurso, mas naquele momento estava com o tempo contado.

Segui, então, por estrada asfaltada, para Vila de São Jorge, localizada na entrada do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Como a distância de Cavalcante a São Jorge é de mais ou menos 120 quilômetros, fui a 80 km/h, curtindo o visual das montanhas.

ALTO PARAÍSO

Antes de chegar à Vila de São Jorge, passei em Alto Paraíso de Goiás, que fica no caminho. Essa cidade tem mais ou menos 8.000 habitantes e é um lugar muito gostoso para passar um tempo. É no município de Alto Paraíso que fica o ponto mais alto do Planalto Central e de toda a região Centro-Oeste do Brasil, com 1.691 metros de altitude. O paralelo 14, que passa por Machu Picchu, no Peru, também atravessa Alto Paraíso. Dizem que isso tem influência na energia do lugar, tanto que lá existem mais de 40 grupos místicos, filosóficos e afins. Muito se fala sobre a região ser o berço de uma nova era de consciência.

As pousadas e estabelecimentos têm nomes sugestivos e místicos. Há uma estrutura bastante agradável para recebimento dos visitantes. Alto Paraíso é uma boa opção para quem não gosta de ficar em lugar tão pequeno, como a Vila de São Jorge. Aproveitei para abastecer a moto e dar um giro pelas ruas simpáticas da cidade.

Encontrei duas barraquinhas de venda de pedras. Comprei algumas de presente e conversei com os vendedores. Eles eram ex-garimpeiros. Trabalharam em garimpos à margem do Rio Preto há uns 20 anos. Contaram como era difícil a vida naquela época. Os garimpeiros ficavam praticamente isolados, em casinhas extremamente precárias. Eram pessoas de uma simplicidade marcante.

De Alto Paraíso à Vila de São Jorge (que pertence ao município de Alto Paraíso) são pouco mais de 30 quilômetros. Metade do percurso é por asfalto e a outra metade por terra. Mas, pelo que observei do trabalho de máquinas na estrada, em breve todo o trecho estará asfaltado.

VILA DE SÃO JORGE

Assim que cheguei a São Jorge procurei uma pousada e depois fui caminhar. Encontrei várias pessoas com estilo variado, alguns parecendo bem malucos, outros com dreadlocks, alguns gringos, enfim, havia uma miscelânea de culturas naquele pequeno espaço.

Por lá, meu primeiro passeio foi dentro do Parque Nacional, em visita aos dois Saltos da Chapada, respectivamente com 80 e 120 metros de altura.

No acesso ao Parque Nacional, parei a moto na entrada de uma área reservada para estacionamento e iniciei a trilha. Caminhei por menos de uma hora num caminho sem dificuldades. Antes mesmo de ver a cachoeira, comecei a ouvir o barulho firme da água despencando longos metros na crista da montanha.

A vista do Salto 2 é impressionante. A gente fica em cima de um penhasco ao lado da queda e se embriaga num espectro que alcança a cachoeira de 120 metros, de um lado, e o vale do rio Preto, do outro.

O dia estava nublado, mas consegui aproveitar algumas brechas de luz para tirar algumas fotos. Parecia que o tempo não ia ajudar e não adiantaria esperar mais. As luzes mais preciosas para fotografar o salto, pelo que notei, aparecem a partir do meio da tarde. Aos poucos, as nuvens começaram a ficar mais pesadas. Comi um lanche e segui a trilha para o Salto 1. Aproveitei para nadar um pouco e desfrutar o encanto do conjunto das águas, rochas e da vegetação.

Novamente pus o pé na trilha na direção das corredeiras do Rio Preto. Ainda deu tempo para nadar mais uma vez, mas a chuva finalmente me alcançou. Pode parecer ruim, mas tomar um pouco de chuva, na verdade, produz uma interação bem mais intensa com o ambiente. Como era uma trilha pequena e sem dificuldades, não havia qualquer risco.

VIDA SIMPLES

À noitinha, depois de descansar um pouco, fui à vila jantar. O movimento de pessoas parecia maior à noite. Era aniversário da Vila e havia uma comemoração na igrejinha, com cantoria e fogos de artifício.

Já no dia seguinte fiz meu próximo passeio rumo ao Vale da Lua, na Serra da Boa Vista, onde se chega após 10 quilômetros de estrada de terra em boas condições. O lugar é um conjunto de pedras em formato caleidoscópico, cortado pelas águas verdes e translúcidas do rio São Miguel.

As pedras são escavadas pelo atrito da areia com as rochas, criando formatos inusitados e, às vezes, perigosos. Em alguns trechos, a água transita por labirintos de pedras. Se alguém, por descuido, cair no rio num desses lugares, tem grande chance de perder a vida. Uns dez dias antes de eu chegar, tinha ocorrido um acidente com um rapaz. Ele havia caído no rio bem nessa parte mais perigosa, e acabou morrendo. Mas tudo é uma questão de bom senso. Com prudência, o que significa não se aproximar demais das beiras, pode-se curtir o lugar com total tranquilidade. Existem piscinas naturais ótimas para banho.  O Vale é situado em propriedade particular e é cobrada uma taxa de R$ 10 pela visita.

Retornei a São Jorge, onde almocei num restaurante por quilo e, no meio da tarde, caiu uma chuva bem forte. Pouco antes do anoitecer, as luzes do sol começaram a tocar as montanhas com tonalidades belíssimas. Decidi pegar a moto e seguir pela estrada de terra à beira das montanhas, para tentar tirar algumas fotos das escarpas da chapada naquele momento.

A estrada, que era uma beleza quando seca, havia se transformado num poço de lama. Conduzi com bastante cautela e vi as montanhas molhadas se enfeitarem com a luz laranja que antecedia o por-do-sol. Ao mesmo tempo em que eu via cenas lindíssimas, tinha que me preocupar com a condução da moto num terreno difícil e com o momento certo de parar para fotografar.

Enfim, depois de algum tempo e algumas fotos, comecei a voltar. A estrada estava complicada, com alguns trechos bastante lisos.

JANELA

Havia um lugar, fora da área do Parque Nacional, chamado “janela”, que eu não conhecia. É um local alto do qual se tem uma vista inebriante das duas principais cachoeiras da chapada. Para chegar à tal “janela”, era necessário seguir as placas para a Cachoeira do Abismo, percorrendo uns 3 quilômetros numa estrada de terra meio ruinzinha. Deixei a moto numa espécie de estacionamento. Depois passei por uma porteira, onde começa uma trilha que vai descendo um morro por uns 500 metros, até o lado da casa do Graciliano, guardião daquele portal. Paga-se R$ 10 para seguir o caminho. Se você for apenas à cachoeira do abismo, vai caminhar cerca de uns 50 minutos. Mas se você quiser ir até a janela, a caminhada é mais dura. A trilha é um sobe e desce de morros e exige um pouco de preparo físico. É prudente calcular duas horas para ir e duas horas para voltar.

Valeu a pena o esforço, pois a imagem da Chapada, vista do alto da “janela”, é capaz de arrancar suspiros! As fotos dão apenas uma noção do magnetismo que emana daquele cenário avassalador. Estava feliz por contemplar algo tão belo.

RIQUEZA

Retornei para minha pousada em São Jorge. Era hora de arrumar a tralha para seguir viagem, começando o caminho de volta. No princípio do dia seguinte, voltei à estradinha de terra que liga São Jorge a Alto Paraíso de Goiás. Minha intenção era chegar a Cristalina, mas como tinha saído cedinho, acabei avançando um pouco mais e fui parar numa cidadezinha muito simpática, chamada Monte Alegre de Goiás (GO). Fica a uns 200 quilômetros ao sul de Brasília (DF) e tem uns três hoteizinhos bem simples. A cidade tem uns 5.000 habitantes. É um mundo mais calmo, onde a interação entre as pessoas segue um ritmo bem diferente. Com a alvorada seguinte, regressei em paz para Descalvado (SP), com aquela sensação gostosa de ter vivido dias de gratas emoções. O contato com diversas culturas que permeiam o Brasil, o fascínio provocado pelas paisagens, o encontro do equilíbrio entre a minha velocidade individual, a velocidade da moto e o ritmo da natureza, com amanheceres e entardeceres sucessivos na vastidão, algo que estará sempre na memória. Quando a gente começa a viajar um pouco mais, percebe que estas experiências são de uma riqueza incalculável.

Confira a Parte 1 do roteiro.

DADOS DA VIAGEM

Moto utilizada: Yamaha XTZ Ténéré 660

Duração: 16 dias.

Quilometragem percorrida: 5.000 Km

Velocidade média nas rodovias: 125 Km/h

Consumo: 19 Km/l

Cidades onde houve pernoite: Cristalina (GO), Cavalcante (GO), Porto Nacional (TO), Carolina (MA), Palmas (TO), Vila de São Jorge (GO) e Monte Alegre de Goias (GO).

Despesas

Hospedagem: R$ 1.480.

Combustível: R$ 815.

Alimentação: R$ 400.

Passeios (entradas nas cachoeiras e guia): R$ 155

Total das despesas: R$ 2.850.

*Matéria publicada na edição #164 da revista Moto Adventure. Valores podem ter sofrido alterações.

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