Saiba os procedimentos para pilotagem em grupo

Pilotagem em grupo

Recentemente, tive a oportunidade de acompanhar vários grupos motociclísticos em curtas viagens, o que inspirou este artigo

Texto: Nenad Djordjevic
Fotos: Arquivo

Cada grupo parece seguir um conjunto de regras próprio – alguns sensatos e outros, nem tanto.

Ao longo de minha carreira motociclística, pude experimentar o que é organizar e conduzir grupos de motociclistas. E posso garantir que não é tarefa fácil. No entanto, é perfeitamente possível fazê-lo com segurança quando nos atemos a sólidos conjuntos de regras baseados nas particularidades de cada lugar. Por isso, um modelo de condução utilizado no estrangeiro, por exemplo, pode não ser a melhor solução para a nossa realidade.

GRUPO

Um “grupo de motociclistas” se constitui de duas ou mais motos trafegando juntas – em tal relação de proximidade que se torne evidente, aos demais usuários, que aquelas pessoas conhecem umas às outras. Para todos os efeitos, independentemente de quantas motos estiverem trafegando juntas, os membros devem ser conjugados em pares, de maneira a ocuparem apenas uma faixa de rolagem, estando um na diagonal do outro e os pares, separados por distância pertinente. Na sequência, veja os pormenores e a justificativa de cada procedimento adotado.

O PAR

Cada par deve ser composto por um motociclista experiente e um menos experiente. Aquele com maior experiência toma a posição de liderança à frente e à esquerda da faixa que está sendo utilizada, enquanto o outro deve ficar na sua diagonal, atrás, ocupando o lado direito da mesma faixa. Pelo menos, no momento inicial do percurso. Ao longo do trajeto, eventualmente, este posicionamento deve se inverter, caso seja viável.

Aqui vão as razões para isto: estando um na diagonal do outro, obtém-se o melhor posicionamento, pois isto permite que ambos os pilotos tenham visão um do outro, o tempo todo. Vistos de longe, tanto pela frente quanto pelas costas, formam uma massa maior e mais fácil de ser visualmente identificada por outros usuários. Estando na diagonal, ambos os motociclistas mantém a capacidade de mudar de trajetória sem interferir na trajetória um do outro. Quando seguem em paralelo, esta capacidade é profundamente limitada e, portanto, isto deve ser evitado. Além disso, o fato de estarem na diagonal um do outro permite que ambos tenham plena visão à frente, bem como à ré, garantindo o controle situacional ao redor. Esta premissa também não pode ser satisfeita quando os pilotos ocupam a parte central da via, um atrás do outro. O papel do líder é estabelecer o ritmo da estrada, atentar a quaisquer eventos significativos e sinalizar, quando necessário. O papel do motociclista que faz ala é apenas acompanhar as decisões do líder, observando as atitudes que este último toma (e em que tempo), para que lhe sirvam como exemplo. Ao longo da viagem, o líder pode – e deve – ceder sua posição ao menos experiente, para que este consiga demonstrar suas capacidades, estando, ainda, sob a guarda e o cuidado do mais experiente. Nesta posição, o piloto mais experiente poderá observar o comportamento do outro e, eventualmente, intervir de maneira rápida, caso julgue que algo inapropriado tenha sido feito. A doutrina deve ser sempre espelhada na segurança.

POSICIONAMENTO NA ESTRADA

Quanto mais membros estiverem viajando juntos, mais lento será o deslocamento de todo o grupo. Turmas com mais de 20 motos quase sempre acabam se deslocando em velocidades inferiores às do fluxo ao redor. É importante que os organizadores desses eventos tenham ciência disso e que tomem atitudes visando a segurança de todos, bem como a projeção de uma imagem positiva do Motociclismo.

Em estradas com mais de uma via, deve-se adotar a pista da direita para o deslocamento do grupo, utilizando-se a(s) pista(s) à esquerda para eventuais ultrapassagens. Exceção feita aos casos em que a pista ofereça risco aos motociclistas (por conta de imperfeições, buracos ou excesso de sujeira).

Em estradas de pista simples, é importante haver a separação entre os pares, para que outros veículos possam utilizar o espaço formado entre eles para escalar o grupo através de curtas ultrapassagens.

Justificativa: se a via ocupada for a da esquerda (estradas multi-pistas) em ritmo abaixo ao do fluxo, o grupo obriga a quem quer, e pode andar mais rápido, a executar ultrapassagens pela direita – o que, além de inseguro, é proibido. Assim como é vetada por nossa legislação bloquear a faixa da esquerda sem ceder passagem. Em caso de qualquer eventualidade, também será mais fácil migrar para o acostamento estando na pista da direita do que se você estivesse na pista da esquerda. Principalmente em grupos grandes.

Algumas turmas usam membros para auxiliar no processo de condução. Se você for incumbido deste papel, exija identificação apropriada, para que seja notado como tal pelos outros membros. Jamais trafegue com pisca-alerta ligado para cumprir esta função. Além de poder dar margem a confusão, é proibido trafegar nessas condições, ficando-se sujeito a multas.

No caso das estradas de pista simples, um bloco sem separação entre os membros não oferece condição de ultrapassagem. Mais adiante, você entenderá, por meio de exemplos, como isto afeta o tráfego e a imagem do Motociclismo.

SEPARAÇÃO

A separação adequada entre pares de motos é de dois segundos de distância. Este é o tempo médio que um motorista/motociclista precisa para reagir a um evento inesperado, segundo estudos norte-americanos feitos na década de 1950 – e válidos até hoje. No entanto, em estradas de múltiplas faixas, onde há pelo menos dez segundos de visão à frente, este espaçamento pode ser inferior, mas, ainda assim, precisa existir. A justificativa do procedimento reside na proposição de um eventual incidente que acarrete em colisões posteriores, por falta de espaço e de tempo para reação. O famoso engavetamento. A distância apropriada é obtida em função da velocidade; daí ser dada em tempo, não em distância física. Para calcular a separação de dois segundos, basta notar um ponto fixo no solo por onde passou o par à sua frente e iniciar uma contagem mental. Caso chegue ao mesmo ponto dentro dos dois segundos, você estará a uma distância adequada do grupo à frente. Caso passe antes de findar a contagem, você estará próximo demais, o que exigirá um maior afastamento. Com a prática, desenvolve-se o senso de distância apropriado para diferentes velocidades.

IMAGEM PREJUDICADA

Agora, imagine-se em um carro, em uma estrada de pista simples e com muitas curvas, chegando a um compacto grupo de motociclistas desenvolvendo uma média inferior à da estrada. Ao olhar o grupo, se não houver separação entre os pares, não haverá oportunidade para uma ultrapassagem, pois o comprimento de todo o grupo inviabilizaria esta ação. Veja que imagem do Motociclismo está sendo projetada! Precisamos ter em mente que a via é de todos – ainda que alguns grupos se comportem como se fossem “donos das estradas”. É preciso exercer a cidadania e oferecer a oportunidade de passagem a quem assim o desejar, pois as pessoas ao redor não devem ser forçadas a andar em nosso ritmo, se não quiserem. Há, ainda, a questão da relação de proximidade com veículos com massa muito superior à nossa. Em caso de qualquer conflito, seremos sempre a parte mais fraca. Então, por que criar esse tipo de situação, desnecessariamente? A separação adequada, no caso, garante a possibilidade de um veículo mais veloz poder executar a ultrapassagem de pares sem conflitar com o grupo. A pouca interferência que a ultrapassagem pode causar é apenas momentânea.

VELOCIDADE

Infelizmente, não são apenas os grupos compactos e lentos que trazem problemas nas estradas e maculam a imagem dos motociclistas. Grupos velozes, geralmente envolvendo motos esportivas, também pecam quando saem em bando e transformam nossas vias em suas “pistas de corridas particulares”. Se utilizassem a metodologia anteriormente descrita, também se beneficiariam de uma pilotagem bem mais prazerosa e segura. Para esses grupos, a velocidade é o ponto crucial – velocidade de ultrapassagem, no caso. É preciso ter em mente que a ultrapassagem de qualquer veículo é sempre de responsabilidade daquele que se propõe a executar a manobra, devendo executá-la de maneira que seja segura para si e para aquele que está sendo ultrapassado. Quando em grupo, a postura ideal é se aproximarem cuidadosamente do veículo que pretendem ultrapassar, como um par, usando de toda a largura da faixa. Assim que seja oportuno, ambos executariam a ultrapassagem como um carro o faria, ao invés de ultrapassar um de cada vez com velocidade maior. O que se garante desta diretriz é que haverá mais tempo para interação entre os motociclistas e motoristas, permitindo que haja ciência do que está para acontecer por todos os envolvidos, facilitando-se o processo. Os problemas começam a acontecer quando o tempo de interação diminui, em função de velocidades incompatíveis na aproximação. O pouco tempo acaba gerando manobras abruptas e de maior risco para todos.

CONCLUSÃO

É perfeitamente viável criar um ambiente seguro para motoristas e motociclistas quando algumas regras básicas de convívio e técnica de segurança são aplicadas. O que não podemos é nos conformar com atitudes de alguns poucos e, depois, padecermos com políticas esdrúxulas estipuladas em função desta minoria.

Se você faz parte de um grupo que está indo viajar de moto, questione os procedimentos que serão executados. Não se coloque em situação de risco porque alguém estabeleceu uma forma de conduta que não consegue justificar, ou que não lhe pareça segura. Opine, exponha suas dúvidas e critique procedimentos que não podem ser sustentados à luz da lógica. Viajar em grupo de moto é muito prazeroso – não permita que procedimentos equivocados (ou a falta de procedimentos) comprometam seu prazer e, principalmente, sua segurança. Se ainda assim você não conseguir modificar a forma como o grupo é conduzido, escolha um ou mais amigos que compartilhem de sua opinião e combinem uma viagem própria. Mais cedo ou mais tarde, esses organizadores perceberão que o grupo não é mais um “grupo” – e terão que rever a forma como este é conduzido.

*Matéria publicada na edição #143 da revista Moto Adventure.

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