Mundo afora – Longas viagens – Parte 2

O que você realmente precisa saber se estiver disposto a fazer longas viagens e passar muito tempo na estrada

Texto e Fotos: Marcelo Leite

Na seção “Mundo Afora” da edição anterior, abordamos a importância do planejamento e do “plano de rota” para grandes viagens ou expedições. Agora, trataremos de dois temas “polêmicos”: orçamento e escolha da moto.

Orçamento

Falar de orçamento é tratar de despesas, receitas e investimento (moto e equipamentos). Portanto, vamos ao que interessa.

Despesas

Em minha última expedição, gastei aproximadamente US$ 70,00 (dia), considerando as despesas com a moto, comigo e minha esposa. Há quem considere este valor muito baixo e outros, nem tanto. É claro que dependerá muito do seu estilo de viagem e da rota que você pretende fazer. Vamos entender isso melhor?

As despesas mais relevantes são: alojamento, gasolina, comida, manutenção da moto e transporte inter-oceânico (quando a rota o exigir). Você pode se alojar em hotéis ou pequenas pousadas, acampar ou procurar ficar nas casas de pessoas ao longo do trajeto. Sempre fui adepto destas duas últimas modalidades: além de serem muito mais baratas, elas nos permitem conhecer as comunidades locais de forma privilegiada. Mas nem sempre isto é possível. Alojamento é o item mais impactante no orçamento!

Nos EUA, todos os parques nacionais têm ótimas infraestruturas de camping (paga-se menos de US$ 5,00/dia). Na Austrália, tudo é absurdamente caro – mas, em compensação, a comunidade de motociclistas se desdobra para lhe dar abrigo. Obviamente há lugares nos quais acampar é a única opção disponível!

Gasolina custa, em média, de US$ 0,50 a US$ 1,00 pelo mundo afora. Exceção feita à Europa e ao Brasil. Ou seja: é provável que você gaste menos com gasolina se sair para viajar!

Comprar comida em mercados também é uma forma de economizar e, por tabela, conhecer os costumes locais e interagir com a população.

O ideal é que você seja capaz de fazer ao menos a manutenção básica da moto, tendo autonomia e não gastando com serviços. O maior gasto costuma ser com pneus: um bom par de pneus, de primeira linha, custa aproximadamente US$ 350,00, pelo mundo afora. Os gastos adicionais se limitam a óleo, filtros e pastilhas de freio. Mas é bom fazer uma reserva, pois sempre haverá despesas com pequenas peças (ou mesmo com quebras).

Atravessar oceanos com a moto por frete aéreo custa em torno de US$ 800,00 a US$3.000,00 (por trecho). Depende muito do tamanho (nem tanto do peso) da moto, do trecho em questão e, principalmente, da modalidade e da escolha do agente de transporte. Frete marítimo, diferentemente do que muitos imaginam, não costuma valer a pena. Trataremos detalhadamente do assunto nas próximas edições. Não se pode esquecer que é preciso computar, também, sua passagem aérea nessas travessias. Algumas vezes é possível economizar muito utilizando a mesma empresa de transporte que levará a moto (por exemplo: uma passagem do Canadá para a Europa pode sair por apenas US$ 300,00 pela AirTransat).

Se quiser conter despesas, risque Europa e Austrália do roteiro! Concentre-se na África, no Oriente Médio e na Ásia.

Receitas

Muita gente se ilude achando que conseguirá um apoio financeiro em forma de patrocínio para sua expedição. Na realidade, esta é uma missão difícil e na qual poucos são bem-sucedidos. Eis algumas dicas que poderão aumentar suas chances de êxito:

Coloque-se na posição de uma empresa que potencialmente possa patrociná-lo – e também, na posição de seu interlocutor. Pensando friamente: o que esta organização ganharia patrocinando-o? Por que seu interlocutor se daria ao trabalho de defender seu “projeto” dentro da empresa para a qual trabalha? Busque essas respostas!

Ter acesso às “pessoas certas” é fundamental, mas não basta se você não tem um projeto consistente a oferecer – uma proposta ousada e um excelente plano de comunicação!

Investimento

A moto é, de longe, o maior investimento requerido. Equipamentos e peças também contam, mas abordaremos esses temas com mais profundidade nas próximas edições. Vamos, então, escolher sua moto?

Escolha da moto

Sabemos de gente que já atravessou o mundo de Honda Goldwind. No Sudão, encontrei quatro portugueses que cruzavam a África de Honda Biz! Ou seja: é possível ir muito longe com qualquer modelo. A escolha é algo muito pessoal: não existe um único “modelo certo”. Mas devemos considerar alguns fatores importantes:

1) Você estará levando muito peso, e por muito tempo. Quadro e suspensão são pontos de atenção!

2) Você estará sujeito (por longos períodos) a lugares sem nenhuma infraestrutura de apoio.

3) É provável que você tenha que atravessar longos trechos de pistas, terra, areia e cruzar alguns rios.

4) É chato dizer isso, mas… é quase certo que você cairá algumas vezes!

Considere, então, modelos que tenham capacidade de carregar peso e com a robustez e a confiabilidade necessárias. Simplicidade é muito mais importante do que desempenho!

É comum os expedicionários preferirem modelos de projetos antigos, robustos e já testados. Muitos evitam o excesso de eletrônica.

Hoje, os modelos mais comuns que vemos cruzando a África, a Mongólia e a Ásia são as BMW GS100/1150/1200, a Honda África Twin e as KTM 950/990. Outros modelos também têm seus seguidores, como Kawasaki KLR650; Suzuki DR650; Yamaha XT600/660; Honda XR650L; e BMW FGS650/800.

Não saia por aí com uma moto que você acabou de comprar. É preciso conhecê-la muito bem. Prefira um modelo com o qual já tenha intimidade (e cujos pontos frágeis você já conheça).

Daremos continuidade à fase de planejamento na próxima edição, quando discutiremos tópicos como: equipamentos, acessórios e ferramentas para a viagem. Até lá!

Marcelo Leite é engenheiro e palestrante organizacional. Dirige a Dream World Quest e faz viagens de moto pelo mundo há 30 anos. Nos últimos dois anos, fez a “Expedição 5 Continentes”. Para saber mais: www.expedicao5continentes.com ou www.dwq.com.br

*Matéria publicada na edição #150 da revista Moto Adventure

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