On the road – Argentina, Bolívia, Chile e Paraguai

On the road – Quando voa o condor: Em nome de uma grande aventura, dois viajantes encararam trechos difíceis e climas extremos

Texto: Edgard Cotait
Fotos: Andrè Luiz Santos/Edgard Cotait

Mesmo dispondo de poucos dias, os motociclistas Edgard Cotait, com uma Yamaha XT660 R, e André Luiz Santos, a bordo de uma Yamaha XTZ250 Ténéré, planejaram uma viagem através da Argentina, Bolívia, Chile e Paraguai, retornando pelo Mato Grosso do Sul. Saiba como foi a aventura nas palavras de Edgard.

PARTIDA

Pontualmente às 04h00 estávamos no primeiro posto da Rodovia Castello Branco (saída de São Paulo, rumo ao interior), degustando um refrigerante bem gelado, sem pressa alguma. Conforme tínhamos combinado, este seria o “divisor de águas” que marcaria o início de nossas merecidas férias. No entanto, dali para frente, cessariam as amenidades – pois eu, Edgard Cotait, no comando de uma Yamaha XT660 R, e meu amigo, André Luiz Santos, a bordo de sua Yamaha XTZ250 Ténéré, teríamos muita estrada para rodar. E no estilo “maratona”, já que planejamos esta viagem de acordo com nosso pouco tempo disponível. Mesmo já tendo passado antes pela maioria dos pontos de interesse, acreditamos naquele antigo jargão: “cada viagem é uma viagem.” E assim o foi.

Optamos por um roteiro que incluiria uma passagem pela Argentina, Bolívia, Chile e Paraguai, retornando pelo Mato Grosso do Sul. Na bagagem, levávamos nosso cinegrafista, “El Condor”, nome dado a uma “pipa” no estilo Power Sled, feita com o mesmo material utilizado em paraquedas (com alta sustentação e boa estabilidade). Nela, acoplamos um levíssimo equipamento para filmagens e fotos em HD. Buscávamos registrar nossa aventura sob uma ótica diferente.

Terminamos aquele primeiro dia de viagem em Matelândia (PR), na companhia agradável dos velhos amigos (e experientes motociclistas) João Batista de Lima e Marcelo Gubert.

TERRAS ARGENTINAS

No dia seguinte, saímos cedo e passamos rapidamente (sem nenhuma burocracia) pela fronteira Brasil/Argentina. Com o calor aumentando cada vez mais, aproveitamos para almoçar e nos hidratar, degustando uma deliciosa “sandía” (melancia) à sombra de uma barraquinha à beira da estrada. Após um pernoite improvisado (em um motel em Presidencia Roque Sáenz Peña), nos preparamos para sair às 04h30, objetivando percorrer o máximo de estrada possível e fugindo do conhecido calor da região do Chaco argentino.

Depois de sermos castigados pelas altas temperaturas até o meio da tarde, chegamos a um pequeno rio que corta a estrada, onde aproveitamos para nos banhar, de roupa e tudo. Após curtir este ”refresco”, retomamos o ritmo para chegar a Humahuaca, já nas cordilheiras argentinas. Claramente são observadas mudanças, não apenas de ordem topográfica, climática e de altitude, mas também, no aspecto físico das pessoas. Apesar de argentinos, eles fogem do padrão habitual dos habitantes da maior parte do país, assemelhando-lhe mais a seus verdadeiros parentes das demais regiões andinas. Usamos este local como base para visitar a pequena cidade de Iruya. Após 30 km de asfalto no rumo norte, iniciamos uma nova fase, na qual incluiríamos trechos de off-road. Esta começa como uma estradinha típica de região de cordilheiras, passando por um pequeno povoado chamado Iturbe, sendo necessário atravessar um rio desprovido de ponte. E segue serpenteando por entre montanhas, que, aos poucos, vão ganhando altura, até chegar a um “tramo” de 4 mil metros de altitude. Dali em diante, a estrada se torna mais sinuosa, com trechos de “caracoles”, beiradas mais escarpadas, acompanhada por uma cadeia de altas montanhas com paredões verticais, ladeando um rio de fundo pedregoso. Dependendo da época do ano, este rio (que corta a cidade mais à frente) pode estar com o nível mais elevado. Por se situar “fora da rota” do turismo convencional, Iruya se mantém um pouco protegida do resto do mundo.

Notamos isso logo ao chegarmos, pois as pessoas demonstravam certo receio e desconforto em interagir com os visitantes (inclusive os policiais encarregados de dar orientações). As ruas são bem estreitas e íngremes. Há alguma semelhança com as pequenas cidades asiáticas do longínquo Tibet. Durante o retorno, quando passávamos pelo setor mais alto, fomos surpreendidos pela repentina entrada de um temporal, que chegou com ventos fortes, trazendo nuvens pesadas. A temperatura caiu de forma rápida e intensa. O restante da estrada foi feito na lama (e com nossas mãos formigando, devido ao frio).

BOLÍVIA

No dia seguinte, saímos de Humahuaca sem muita pressa, pois, apesar da burocracia da passagem Argentina/Bolívia, nosso destino era relativamente próximo – Tupiza. Aproveitamos a flexibilidade de tempo para fotografar, o que gerou situações hilárias. Os trâmites burocráticos da fronteira não fugiram do esperado e, logo adiante, fizemos o câmbio. Com base em informações do GPS, não tivemos dificuldade para arrumar um hotel em Tupiza. Pela manhã, abastecemos nossas motos pagando uma taxa adicional – cobrada dos veículos com placas estrangeiras, na Bolívia – e ajustamos nossos GPS para Uyuni, via Atocha. Esta é uma estrada em off-road, com poucos pontos de apoio, mas de grande beleza natural. Desta vez, mesmo sendo um caminho de terra, nos deparamos com uma “praça de pedágio”, pois sua conservação estava a cargo de uma empresa privada. Após uma noite e uma manhã chuvosas, enfrentamos barro e lama desde cedo, que, somados às características de solo das cordilheiras (bem argilosos), deixaram a estrada literalmente “um sabão”. Mas achamos isto ruim. Ao contrário: adoramos! Por nossas motos estarem em configuração de viagem (e, portanto, pesadas), nos foi exigida uma pilotagem mais técnica e delicada. Se, nas descidas, as traseiras de nossas máquinas insistiam em ultrapassar a frente a todo momento, nas subidas, exigiam paciência, pois patinavam demais, já que não usávamos pneus de cravo. Em situações assim, caso aconteçam pequenas quedas, estas são aceitáveis (e não costumam causar grandes danos ou complicações, pois andamos em baixa velocidade). Dividindo esta estrada em duas partes, o trecho até a pequena Atocha tinha muitos desníveis e leito carril pedregoso, enquanto a parte seguinte, até Uyuni, se caracterizava por uma predominância de relevos planos, mas com bolsões de areião. Paramos para fazer novos testes e ajustamos alguns detalhes no “El Condor”, o que rendeu imagens sensacionais. Outros imprevistos enfrentados foram dois rios, que, além da ausência de pontes, estavam com os níveis acima da média por conta das chuvas. No primeiro, a moto de André atolou até a altura do motor e foi difícil removê-la dali, até um local seco. O segundo, localizado a 36 km de Uyuni, nos ofereceu uma grande barreira. Fundo e com uma “correnteza nervosa”, já havia atolado vários veículos, entre estes, ônibus, caminhões e camionetes 4×4. Todos aguardavam alguém que se dispusesse a ser o “boi de piranha”, ou seja, que ali se aventurasse primeiro, buscando a melhor maneira de passar. Mas ninguém se voluntariou para a tarefa. Nossa preocupação aumentava, pois o relógio “andava rápido” e não teríamos onde dormir, a não ser em barracas à beira da estrada, o que queríamos evitar. Portanto, mesmo em desvantagem de tamanho em relação aos demais veículos, começamos a pesquisar o entorno da área. Um pouco acima do leito da estrada, André entrou no rio para verificar os níveis de profundidade (estavam acima dos joelhos) e a qualidade do piso, prospectando um local mais adequado para a travessia. Chegamos à conclusão de que, em determinado ponto, deveríamos descer a margem e andar aproximadamente 50 metros rio acima e contra a correnteza, pois esta seria a única forma de alcançarmos a outra margem em um local onde nossas motos pudessem subir. Avançamos e, apesar do risco, tudo correu bem. As 4×4 e outros veículos maiores seguiram o nosso plano.

SALAR DE UYUNI

No outro dia, rumamos para um dos momentos mais aguardados da expedição: o Salar de Uyuni. Com aproximadamente 11 mil km² de área, é o maior deserto de sal do planeta – e sua extensão está distribuída por dois departamentos do país: Potosí e Oruro. Em pleno altiplano andino, sua altitude média é de 3.650m de altitude (e tem grande importância econômica regional, não só pelo turismo, mas pela extração de sal). No verão andino inicia-se o período de chuvas e, também, o degelo das montanhas mais altas da região. Isto o deixa coberto por uma lâmina de água com profundidade média de 30 cm. Torna-se mais acessível, assim, apenas entre abril e novembro. Por isso, desde São Paulo, estávamos preocupados com a possibilidade de que nossa expedição não pudesse adentrá-lo. Viemos pesquisando com os jipeiros desde Tupiza. Mas, como sempre acontece na Bolívia, nenhuma informação é plenamente confiável. Na beirada do Salar, paramos um 4×4 e o motorista nos disse que estava inundado até a altura da perna. Aquilo nos desanimou. Da borda do Salar, só enxergávamos água. Discutimos brevemente a situação – se deveríamos prosseguir ou não – e ficamos ali, calados e pensativos por algum tempo. O silêncio só foi quebrado pelo som do motor de partida da moto de André, seguido de um decidido “Bóra!”. Andamos cuidadosamente por mais de 1500 metros em área alagada, até que chegamos ao seco (leia-se por “seco” uma área com piso úmido, porém, sem a presença de água). Nosso destino, inicialmente, foi o Hotel de Sal, onde fizemos uma sessão de fotos. De lá, seguimos para a Isla Incahuasi. Mas, a 27 km dali, o chão começou a ficar úmido – e logo surgiu uma fina lâmina de água. Decidimos, então, cancelar o passeio.

LONGE DE TUDO

Passamos, então, a buscar a realização de outro sonho: acampar no meio da imensidão do Salar de Uyuni! Durante a fase de planejamento, estudamos um ponto ermo para montarmos nossa base, marcando-o entre nossos waypoints. E foi para lá que apontamos nossos GPS, onde, “in loco”, constatamos tratar-se mesmo de um local perfeito e seguro, por estar longe da visão de outros possíveis viajantes do Salar. Durante a montagem, o chão estava tão endurecido que não conseguimos fixar os pinos no chão de sal, sendo preciso manter as barracas amarradas às nossas motos. Antes de escurecer, elas já estavam erguidas. De pronto, reconhecemos que aquele era um dos momentos mais emocionantes de nossas vidas! A sensação de completo isolamento é muito interessante. Como era de se supor, o silêncio é enorme – e com total ausência de animais ou insetos. Em nossas retinas, ficarão gravadas para sempre as nuances do pôr-do-sol sobre o sal. Mas não pense que foi “só alegria”. Por tratar-se de uma área muito descampada, mal o sol se pôs e o vento aumentou demasiadamente. Sobreveio um frio intenso. Além disso, tivemos uma noite “punk”, com o desconforto de dormir praticamente em um chão duro e cheio de imperfeições. Porém, fomos recompensados pela chance de vivenciar uma absurda quantidade de estrelas no céu. As primeiras a aparecer foram as “Três Marias”, nome popular de um asterismo de três estrelas que formam o cinturão da constelação de Orion. Estas estrelas são facilmente identificáveis no céu pelo brilho e por estarem sempre alinhadas e harmoniosamente distantes umas das outras. Hoje, da janela do meu quarto, frequentemente procuro por elas, para observá-las e me lembrar daquela noite maravilhosa. Sem dúvida, a experiência valeu a pena!

Novas aventuras nos esperavam nos próximos dias, quando enfrentamos granizo, neve e um difícil trecho pela região das Lagunas bolivianas, antes de retornarmos para casa.

*Matéria publicada na edição #160 da revista Moto Adventure.

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