Saindo de Cuiabá, motociclistas brasileiros rodaram durante 16 dias pela terra dos “hermanos”, onde viveram momentos únicos

TEXTO E FOTOS: LUIZ AUGUSTO

Já rodei aproximadamente 70 mil km sobre duas rodas. Esse montante só não é maior por causa dos costumeiros conflitos entre a vida profissional e esse delicioso hobby. Realizei percursos de 2, 3, 4 e 5 mil km, porém, nesta viagem à Argentina, estabeleci meu recorde: 7.282 km. Outra novidade: esta foi a primeira jornada para outro país. A aventura começou com quatro motos (e seus respectivos pilotos) deixando Cuiabá. Eram elas: BMW F 800 GS, BMW F 700 GS, Kawasaki Versys 1000 e minha Suzuki V-Strom 650 ABS. Todos nós éramos condutores experientes e com um bom histórico de viagens.

No dia 20 de setembro de 2018, saímos, já com atraso, do horário combinado, o que se tornou uma regra da viagem. O trecho entre Cuiabá e Rondonópolis é bem desagradável. Apesar de ser 60% duplicado, ainda há trechos de pista simples e com enorme tráfego de caminhões pesados, sem mencionar o calor intenso. Para completar, o pneu traseiro da F800GS (a única moto equipada com pneus com câmara) furou. O intrépido piloto decidiu rodar até achar uma borracharia e, como resultado, a espuma selante não resolveu. Quando chegamos à borracharia, foi detectado que a câmara se transformara em farelos de borracha. Creio que, caso rodasse mais um pouco, o pneu também seria danificado.

Foram quase duas horas até conseguirmos comprar uma câmara nova. Aliado à chuva, isto atrasou a viagem, que se estendeu até a noite. Como “perrengue” pouco é bobagem, fiquei para trás e, anestesiado pelo cansaço e a escuridão, derrubei uma bolsa no asfalto com a moto em movimento. Parei para ver se conseguia evitar que a sacola fosse atropelada e, como resultado, não reparei o acostamento inclinado. Pimba: minha perna curta não alcançou o chão e minha “Ruiva Suzy” se deitou no acostamento. Quis relatar esse ocorrido como um alerta de “não façam isso em casa”. No dia seguinte, foi a vez do pneu da minha moto furar. Porém, como é tubeless (sem câmara), foi só enfiar o “macarrãozinho” e seguir adiante.

QUE COMECEM OS JOGOS!

Uma vez em Foz do Iguaçu, fomos trocar moeda, algo que já fora tentado em minha cidade, sem sucesso. Infelizmente não havia pesos argentinos suficientes e pegamos tudo o que estava disponível. A aduana requer um pouco de paciência e resistência ao calor. Os documentos de todos nós estavam em ordem e pegamos a “permission”. Já adianto que não foi pedido o seguro Carta Verde, porém, isto é uma exigência, e estávamos com ele. O desgaste natural de uma viagem de moto foi acentuado por um cronograma bem apertado.

No quarto dia de viagem, começamos o rodar pelo tão mal falado Chaco argentino. Longas retas, calor e bastante umidade. Em todas as divisas de cidades, há policiamento na rodovia. Felizmente, não fomos parados. Creio que os motociclistas são bem vindos, pois trazem dinheiro ao país. Nosso pernoite foi em Resistencia, logo após Corrientes. Aliás, neste trecho urbano, o termômetro de minha moto registrou 42ºC. Nem em Cuiabá e região peguei essa temperatura. Vale o alerta para essas duas cidades: em alguns trechos, motocicletas são permitidas apenas em avenidas marginais e, próximo à ponte de Corrientes, há um “desvio” para não ser multado (não esqueçam que há um forte policiamento ali).

No dia seguinte, tivemos a sorte de pegar um pouco de chuva. Isso mesmo, pois enfrentamos o trecho que passa por Pampa Del Infiernos com a razoável temperatura de 30ºC. Nesse trecho há muitos motociclistas brasileiros, e não é raro bater um papo durante as paradas. Fomos alertados sobre um trecho horrível, 30 km de muito buraco e sofrimento. Sinceramente, foi bem tranquilo! Só reduzimos bastante a velocidade e, por vezes, precisávamos desviar de buracos ou frear um pouco. Asfalto normalizado, era hora de elevar a velocidade, mas nada de excessos, pois estávamos em outro país e não queríamos arrumar problemas. Fomos dormir na pequena cidade de Joaquín Víctor Gonzáles, em um hotel que, para nossa surpresa, aceitava a nossa moeda. Um alerta: muitos lugares não aceitam cartão de crédito (tarjeta). Em quase todos os estabelecimentos, fomos atendidos com simpatia e educação.

Apenas no sexto dia é que chegamos ao nosso primeiro destino turístico: San Salvador de Jujuy. Uma cidade aconchegante, mas sem grandes atrativos. Minha irmã, acompanhada por outras três mulheres, iria desembarcar de avião para percorrer a parte aprazível e turística da viagem. Porém, só minha irmã estaria de moto conosco – as demais alugaram um veículo de quatro rodas. Infelizmente, houve uma greve geral naquele período e os voos foram cancelados. Só conseguiram checar quase dois dias após o previsto, o que bagunçou todo o nosso cronograma.

O sétimo dia foi o primeiro dedicado ao turismo. Ainda sem as mulheres, fomos para Purmamarca e rumamos para Salinas Grandes. Belas paisagens são uma constante por lá – e o ápice foi cruzar a cordilheira e chegar a 4,2 mil metros acima do nível do mar. A ida foi tranquila (não fui afetado pelo chamado “mal da altitude”), porém, ficamos aproximadamente duas horas em Salinas Grandes, que está a mais de 3 mil metros de altitude. Assim, na parte mais alta, durante o retorno, a coisa se complicou: mal-estar, dor de cabeça e um pouco de fraqueza. Creio que a preocupação de estar pilotando acentuou a sensação ruim. Permanecer durante poucos minutos em grandes altitudes não gera muitos problemas, mas, se a situação se prolonga, raras são as pessoas que saem incólumes. Infelizmente, minha irmã perdeu esse passeio. Ela só conseguiu um voo no período da noite.

A CHEGADA DAS MULHERES

No oitavo dia, sendo o primeiro de minha irmã (as demais mulheres só chegaram em outro voo, mais tarde), sacrificamos o passeio “Trem das Nuvens”, pelo qual já havíamos pago, e decidimos fazer novamente Purmamarca e, depois, seguir para Salta. Purmamarca é de uma beleza singela e a pequena cidade aparenta ter boa infraestrutura para turistas. Após tirarmos muitas fotos, seguimos para Salta. A cidade tem aproximadamente 700 mil habitantes, é organizada e bastante plana. Porém, em seus limites, há um morro bastante alto. O Hotel Portezuelo fica no sopé da montanha e nos brinda com um visual de toda a cidade. Mais um dia de turismo! Agora, nosso grupo estava completo (oito pessoas). Porém, logo nos separamos: as mulheres foram fazer compras e os homens tiveram que trocar moeda e adquirir vouchers para rodar de van. Antes disso, passeamos de teleférico. A visão do topo da montanha é magnífica.

Chegamos ao hotel às 16h e embarcamos na van de city tour. Após avistarmos monumentos, igrejas, museus e praças, para a minha surpresa, a van subiu o morro. Se soubesse disso, teria me poupado de andar pendurado no teleférico! Ainda de van, rumamos para San Lorenzo, uma cidade de veraneio próxima. Sem desmerecer o programa turístico, um dos pontos altos foi sentar na van próximo a um simpático senhor argentino, Alberto, que esteve na guerra das Malvinas e nos brindou com informações sobre o país e seus costumes. Chegamos lá pelas 20h30, muito cansados, e os que ainda tinham alguma energia foram a uma casa de shows local. Os demais jantaram no hotel.

Para o décimo dia, reservamos um hotel de nível superior aos demais. Rumamos para Cafayate, onde nos hospedarmos no Grace Cafayate. Pelas fotos de sites, o hotel é maravilhoso e fica situado em um lugar esplêndido. Mas vale um breve relato sobre a estrada que leva até lá. Já percorri boas estradas, inclusive, quatro das que são consideradas as mais belas para se rodar de moto no Brasil. Porém, a beleza da estrada entre Salta e Cafayate está em um patamar superior. Cada centímetro nos oferece montanhas de diversas cores e formatos e vias serpenteando rios secos de degelos. Recomendo muito a Ruta 68!

DE ENCHER OS OLHOS

Agora, sim, falaremos sobre o hotel Grace Cafayate. O estabelecimento corresponde a tudo o que eu vi nos sites! Pagamos pouco mais de R$ 500,00 por um grande quarto duplo. Não é barato para os padrões dos viajantes, mas nada que não possa feito ao menos uma vez. Aliás, pelo que o hotel oferece, o preço é uma pechincha. Entretanto, o chef de cozinha não estava no mesmo nível. Creio que seja só para atestar que nem tudo é perfeito! Depois do check-in, rumamos para uma degustação de vinhos na Piattelli. Esta vinícola também fica em um vale de beleza ímpar. As instalações são bonitas e organizadas. De volta ao hotel, aproveitamos cada segundo da estadia, até porque a data de retorno já estava próxima.

No décimo primeiro dia, encaramos novamente a mais bela estrada que já percorri, só que no sentido inverso. De volta à Jujuy, no confortável Howard Johnson Plaza Hotel, demos um mergulho na piscina aquecida para relaxar o esqueleto, já que, na manhã seguinte, daríamos início ao retorno. Começamos o dia levando as meninas ao aeroporto, que fica a 30 km de Jujuy. Neste trecho, rodamos 80-90 km/h de estrada plana e com pouco movimento. Com gasolina de boa qualidade, minha Suzuki V-Strom 650 registrou uma média absurda de 31,5 km/l. Imagino que o trecho deva ser de ligeira descida, o que provavelmente favoreceu essa marca. Até o décimo sexto dia, houve muita estrada, pouco descanso e algumas paisagens monótonas. Até cogitamos voltar pelo Paraguai, mas, por receio, perfizemos o mesmo trecho. Durante a volta, ainda fizemos um passeio nas Cataratas do Iguaçu, só que pelo lado argentino.

Foram 7.282 km de muito prazer e satisfação, que renovaram o meu espírito aventureiro. Não vejo a hora de planejar a minha próxima viagem de moto!

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