As aventuras de dois motociclistas em um percurso cheio de desafios

TEXTO: LILIAN SARTÓRIO
FOTOS: RICARDO GESSULLI, PAULO TIRA

Uma conversa definitiva fez com que os amigos Ricardo Gessulli e Paulo Tira, motociclistas tarimbados, planejassem uma viagem que marcaria para sempre suas memórias. O ponto de partida: Itu, interior de São Paulo. Destino: Ushuaia, Argentina. Quem pilota conhece as dificuldades deste trajeto. Quando se está na estrada, quem manda é a natureza. E o traiçoeiro vento Puigua (ou Puelche), que derrubara um grupo de motociclistas ituanos em 2009, não seria capaz de intimidar os amigos. A jornada começou em 13 de outubro de 2012, com previsão de volta para 03 de novembro. Ricardo, com sua BMW R1200 GS, e Paulo, com sua Yamaha Super Ténéré 1200.

TRAJETO

Chegar a Ushuaia através da Ruta 3 foi a missão dos motociclistas. “Saímos de Itu às cinco da manhã e chegamos a Eldorado, já na Argentina, às 17h30. Escolhemos dormir nossa segunda noite de viagem em Zarate, na região metropolitana de Buenos Aires”, conta Ricardo. Ficou combinado, entre os parceiros, que sempre partiriam cedo de um local e chegariam ao próximo antes de escurecer, rodando, diariamente, cerca de mil quilômetros. De Zarate, Ricardo e Paulo seguiram para Bahía Blanca. Nesta cidade, com cerca de três mil quilômetros rodados, ocorreu a primeira troca de óleo da Yamaha e dos pneus dianteiros das motos. “Recomendo que o motociclista sempre leve seu óleo. Particularmente, uso Motul, que é de base sintética e não é tão simples de ser encontrado em qualquer posto”, aconselha Ricardo. Com a troca do pneu da BMW, a roda ficou desbalanceada, o que acabou causando formigamento nas mãos do piloto durante a viagem.

DIFICULDADES

A tempestade na saída de Bahía Blanca com destino a Comodoro Rivadavia era prevista. Durante toda a viagem, os motociclistas mantiveram contato com outro amigo, Jonas Ari, que lhes passava orientações sobre o trajeto, o clima e as cidades seguintes. Todo posto de combustível da Argentina e do Chile possui rede Wi-Fi, que permitem fácil comunicação. Em Comodoro, no entanto, por se tratar de uma cidade petrolífera, os custos de estadia aumentaram. “Tivemos um pouco de dificuldade em encontrar um hotel, pois todos eram muito caros e estavam lotados. É uma cidade complicada, mas acabou dando certo”, conta Ricardo. De lá para Rio Gallegos, mais clima ruim. A força do vento patagônico surpreendeu os viajantes. Recomenda-se ao motociclista, quando deparar-se com este tipo de clima, não pilotar a menos de 85 km/h e nem a mais de 140 km/h com uma Big Trail, pois poderá sofrer com o arrasto do vento (ou até ser arremessado para a pista contrária).

No dia seguinte, os amigos saíram cedo de Rio Gallegos para passar pelas aduanas necessárias para chegar a Ushuaia.

USHUAIA

A exuberância do caminho de Paso Garibaldi incitou a inspiração dos motociclistas. Faltava apenas descer uma serra de 100 km. Foram quase seis mil quilômetros em seis dias de viagem até Ushuaia. “Chegando lá, respirei com alívio e satisfação. Para mim, a paisagem foi o mais surpreendente. Imaginava que a cidade era um final de deserto, como grande parte da Argentina. Mas é um lugar magnífico, no qual tivemos o prazer de passar dois dias”, relata Ricardo. Os viajantes também destacam a culinária local, com pratos singulares. “Tivemos o prazer de degustar a famosa culinária de Ushuaia, como a centolla, que é escolhida diretamente do aquário, e a merluza negra. O carneiro assado inteiro na lenha é uma peculiaridade”, recorda. A fauna da cidade também é bela: é possível conhecer ilhas com colônias de lobos-marinhos e pinguins. Ushuaia é um ponto de partida para navegações para a Antártida.

DESTAQUES DA VOLTA

Os parceiros programaram o retorno pela costa do Chile. Neve, chuvisco e uma temperatura próxima de 0°C acompanharam os viajantes na volta por Paso Garibaldi e foi decidido rodar pouco naquelas condições. A parada se deu em Rio Grande. “Naquela cidade, há um presídio. Na data, ocorrera uma fuga – por isso fomos abordados algumas vezes pela polícia, que nos mostrava fotos e perguntava se havíamos visto os fugitivos”, relembra Ricardo. Em Rio Grande, os motociclistas se hospedaram em um hotel-cassino. “Se chama Status Hotel e é um lugar bacana, que recomendo a quem tiver a oportunidade de passar por lá”, diz Ricardo.

Saindo de Rio Grande, os viajantes atravessaram o Estreito de Magalhães com destino a Puerto Natales. Nessa cidade/porto, com paisagem pitoresca, fica o Parque Nacional Torres Del Paine. Ele foi fundado na década de 1950 e declarado Reserva da Biosfera pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em 1978. Na área de aproximadamente 242 mil hectares, pode-se observar a cadeia montanhosa Del Paine, com as mundialmente famosas Torres Del Paine e Cuernos Del Paine. “O parque é de uma beleza impressionante, por isso, passamos dois dias na cidade”, acrescenta Ricardo.

PERIGO A BORDO!

O hotel onde Ricardo e Paulo estavam hospedados sugeria uma viagem de barco (Ferry) de Puerto Natales até Puerto Montt, o que economizaria dois mil quilômetros de viagem de moto e não os tiraria do Chile. A previsão do tempo, naquele dia, era de ventos fortes, acima de 60 nós. Como já haviam pensado na possibilidade de navegar pelos fiordes do sul do Chile em busca de boas fotos, decidiram se aventurar. “O navio ia passar pelos fiordes, que são águas abrigadas na cordilheira, e entrar em alto mar no Golfo de Penas, onde navegaria por cerca de 14 horas”, lembra Ricardo. A viagem duraria quatro noites e, até aquele momento, não havia um mau tempo a cinco meses. A travessia dos fiordes se deu tranquilamente.

No segundo dia, o Ferry fez uma pequena parada no Porto Éden, um porto indígena onde não circulam carros. Ao entrar em mar aberto, no Golfo de Penas, uma tempestade incomum assolou o barco, aterrorizando os tripulantes. “Éramos 35 pessoas de várias nacionalidades – holandeses, argentinos, franceses e finlandeses. Eu e Paulo éramos os únicos brasileiros. Em meio à tempestade, começaram a servir o jantar e só duas pessoas conseguiram comer. Todos passaram mal. Tudo começou a cair, pensei que iria morrer, foram horas de terror. Por sorte, as motos não tombaram, pois estavam bem acorrentadas”, descreve Ricardo. Em meio ao caos, os viajantes conheceram um grupo de motociclistas argentinos do Latidud 54 (moto clube), de Ushuaia, os quais os orientaram com dicas sobre as estradas e destinos. “Me recordo com carinho do argentino Jorge, que é engenheiro florestal. Conversamos bastante durante os quatro dias no barco – é impossível não guardar afeto especial por estes novos amigos”, define Ricardo, salientando que esta também é uma das grandes experiências de ser motociclista. Um forte vínculo de amizade foi estabelecido entre os passageiros da viagem, que passaram por momentos de medo, mas, também, de muita alegria.

TERRA FIRME

Passado o susto, o Ferry finalmente aportou em Puerto Montt. Ricardo e Paulo desembarcaram cedo, calibraram os pneus das motos e seguiram com destino ao Lago Llanquihue e Puerto Varas. “Subimos o Vulcão Osorno com um pouco de chuva neste dia. É uma região linda. Visitamos as vinícolas de Concha Y Toro, demos a volta completa no lago passando por algumas cidades como Temuco, Los Angeles e Chillán, antes de chegarmos a outra região de Santiago”, conta. A dupla chegou à capital chilena no sábado e, como programaram fazer a revisão das motos na cidade, tiveram que aguardar até a segunda-feira. Por recomendação do grupo do Latitud 54, viajaram a São Luis, na Argentina, ao invés de se hospedarem na já conhecida Mendonça. Lá, além de realizaram a segunda troca de óleo da viagem (após mais quatro mil quilômetros rodados), surpreenderam-se com a estrutura da cidade.

VOLTA AO BRASIL

Saindo de São Luis, os motociclistas viajaram até Paso de los Libres, uma cidade que costeia o Brasil. De lá, decidiram rodar pela Argentina, ao invés de atravessarem pela Uruguaiana e subir por Erechim (já no Rio Grande do Sul). De Paso de los Libres, atravessaram o rio de volta ao Brasil, onde pegaram violenta chuva de Puerto Iguaçu até Foz do Iguaçu. “Os raios caíam muito perto de nós, foi um percurso que exigiu bastante cautela”, descreve Ricardo. Decidiram tocar mais 150 km e dormiram em Cascavel (RS), na primeira parada no Brasil depois de 19 dias de viagem.  De lá, viajaram direto para casa. Chegaram com dois dias de antecedência ao previsto, a 01 de novembro, e com um sentimento de missão cumprida.

CURIOSIDADES

Saída de Itu: 13 de outubro

Chegada a Ushuaia: 19 de outubro

Chegada em Itu: 01 de novembro (20 dias de viagem)

Total de quilômetros rodados: 13.800 (sendo 11.800 km de moto e 2 km de Ferry)

Total de combustível utilizado: 944 litros

Paradas para abastecer: 59 vezes

Na bagagem (pessoal): 2 calças jeans e 8 camisetas

Na bagagem (para a moto): pneu dianteiro, óleo para três trocas, ferramentas em geral, silver tape, lacres, equipamento para consertar pneu furado e muita vontade de andar de moto!

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