Pé na estrada! – Rodovia Transiberiana

Cruzar a Rodovia Transiberiana, na Rússia, é um desafio até para experientes motociclistas

Texto e fotos: Ramon Ribeiro, Germano de Almeida, Edgard Cotait

A partir de Moscou (Rússia), iniciamos a viagem pela famosa Rodovia Transiberiana, que começa em São Petersburgo e segue até Vladivostok, já no Mar do Japão. São mais de 10 mil km, cortando 1/3 da circunferência total do planeta e “atravessando” oito diferentes fusos-horários.

Por sua dimensão, é de se imaginar a alternância no que diz respeito à qualidade da estrada, sua conservação, tipos de asfalto etc. Assim, passamos por desvios pequenos, médios e outros de considerável comprimento. Como esperávamos, o perfil do motorista russo reflete bem os traços da personalidade forte que os levou, outrora, ao status de potência mundial. As grandes cidades têm um trânsito caótico e, de alguma maneira, você precisa se impor.

ABASTECIMENTO

Para facilitar a compreensão desta rodovia, entre 800 e 1200 km encontram-se cidades de porte maior, como: Perm, Kazan, Omsk, Novosibirsk, Krasnoyarsk, Irkutsk, Ulan-Ude e Chiita, entre outras.

A rede de postos de abastecimento deixa a desejar, seja pela quantidade, seja pela qualidade. Não é incomum encontrarmos estabelecimentos com falta de gasolina ou que não aceitam cartões como forma de pagamento. Basicamente, são oferecidos três tipos de gasolina, sendo que as mais baratas não oferecem vantagem alguma, por terem um consumo elevado frente à gasolina de média octanagem. Em sua maioria, os postos de serviços são extremamente básicos – sequer acha-se água para lavar as mãos e contam, apenas, com locais que funcionam como escritórios de venda e recebimento. Os funcionários ficam trancados lá dentro, protegidos por vidros à prova de bala. A comunicação com o cliente se dá por microfones e por uma gaveta metálica que desliza com o dinheiro ou cartão. Detalhe: todos os postos são protegidos por seguranças armados e com caras de poucos amigos. Sem a menor cerimônia, eles o acompanham e o observam, onde quer que você vá. Mesmo assim, devemos observar que não nos sentimos inseguros na Rússia. A polícia rodoviária é muito presente. Tão presente que, mesmo nos locais onde não está de fato, se faz representar por viaturas “de mentira” (maquetes em tamanho natural).

SOMBRAS DO PASSADO

Um elemento complicador é que, fora de Moscou, poucos russos falam Inglês, mesmo que apenas o básico. E, nas cidades menores, é grande o número de garrafas vazias nas calçadas. Os russos bebem muito – e a vodka é mesmo uma paixão nacional por lá.

As cidades russas (mesmo as pequenas) são bem divididas, embora não tão bem-cuidadas. Ás vezes, deparamos com lugares que parecem ermos, mesmo em pleno centro das cidades. Os hotéis russos oferecem pouca coisa em termos de serviço. Mesmo Internet, hoje, básica em qualquer hotel do Brasil, é artigo raro e pago à parte. Notei que alguns hotéis eram, provavelmente, antigos prédios residenciais adaptados para hospedagem. Mesmo assim, deu para sentir um pouco do que deveria

ser a rotina de uma casa russa em outras épocas. Lembrando que, ao ingressar no país, você recebe um documento que deverá apresentar em todos os hotéis nos quais se hospedar. Esta é uma norma bastante respeitada. Na Sibéria, sentimos na própria pele os resquícios da Guerra Fria: quando fotografávamos uma estação ferroviária, Ramon foi abordado por um policial e, após responder a varias perguntas, orientado a voltar imediatamente ao hotel.

CONTRATEMPO

Em Nizhneudinsk, paramos para um abastecimento e uma das motos não quis pegar. Desmontamos e testamos como pudemos, mas não conseguimos achar o problema. Como só havia oficinas para automóveis, na manhã seguinte alugamos um caminhão e seguimos para Irkutsk, a 550 km dali. Vale ressaltar que, após a entrada na Sibéria, encontram-se, nas ruas e estradas, muitos veículos de “mão inglesa”, de pequeno ou de médio porte. Isto é fruto de um acordo comercial com o Japão, que “desova” seu excesso de veículos usados no mercado russo. Foi justamente um desses pequenos caminhões japoneses que alugamos. Já em Irkutsk, trocamos a bateria e o problema da moto foi resolvido.

USINAS À VISTA!

Durante quatro dias, a partir de Omsk, tivemos a companhia de Ben, um motociclista americano que dava a volta ao mundo

(cumprindo um desejo dele e do pai, recentemente falecido). Os motociclistas de estrada russos não são muitos e assumem um estilo “made in USA”, usando vestimentas e motos de estilo “Custom”. Além disso, é comum passarmos por usinas nucleares que ficam à beira da estrada. Surpreendeu-me a distância que ficam da via – e, também, não remetem em nada àquelas “áreas secretas” que o cinema cunhou em nosso imaginário. Estar ao lado de uma usina nuclear é uma experiência nada confortável!

Como já comentei, a Rússia tem uma topografia de poucas alterações. Por onde passamos, só houve alteração “real” quando chegamos à região dos Montes Urais. Por conta desta planura, pelo GPS, é possível observar a enorme quantidade de lagos – e cruzamos por muitos rios de grande porte. Notamos, também, que a Rússia é muito dependente de madeira, para aquecer as casas da população e tornar possível a vida em locais inóspitos. Sendo assim, são extensas as áreas destinadas ao reflorestamento – e, no interior, tudo cheira a madeira queimada. De longe, lembram muito às plantações de eucalipto que temos por aqui.

Também há numerosos cruzamentos entre as “Transiberianas” – a rodovia e a ferrovia. Veem-se enormes composições indo ou voltando, a todo momento. Nas estradas, nota-se um grande número de “sidecars”, em grande parte, viajando para um destino bastante procurado no país: o Lago Baikal.

“PUXADA FORTE”

Nossa passagem por aquele país coincidiu com um período muito chuvoso. As estradas estavam perigosas e não rodamos o todo tempo por rodovias bem-mantidas Em alguns trechos, enfrentamos um trânsito pesado, que, somado às pistas molhadas, requeriam atenção redobrada. Chegamos à pequena Kyakhta, fronteira com a Mongólia, um país que Ramon e eu queríamos conhecer. Porém, fomos desaconselhados a entrar lá, uma vez que a região padecia com uma grave crise de distribuição de combustíveis. Resolvemos, assim, iniciar o retorno.

Foram necessários alguns dias de “puxada forte” para deixar o país e entrar novamente na Latvia. Desta vez, optamos por voltar pelo Norte Europeu. Na Polônia, encontramos um grupo de motos com “sidecar”, típicas da Segunda Guerra, inclusive, com seus pilotos vestidos a caráter. Foi uma viagem no tempo! Novamente, nossa passagem coincidiu com feriados locais, culminando até com a necessidade de dormirmos em um posto de gasolina, na França. Pernoitamos em Fátima (Portugal), desta vez, agradecendo por não temos tido grandes problemas. Em Lisboa, preparamos nossas motos para o reenvio ao Brasil e para nosso retorno. Nada melhor que sair da área de desembarque e encontrar nossas famílias. Esta sim, é a melhor parte de qualquer viagem!

RETORNO AO LAR

De volta ao Brasil – com nossas motos aqui fabricadas e emplacadas e com a documentação de saída em perfeitas condições –, eu e Ramon tivemos nossas máquinas retidas na Receita Federal por 11 meses e meio, sob alegação de que a documentação de entrada não estava correta. Por erro de uma grande companhia portuguesa, que também realiza transportes, um documento foi preenchido erroneamente, algo que poderia ser esclarecido com uma simples correção. Mas alguns fiscais se recusavam a aceitar esta correção, determinando que nossas motos fossem reenviadas a Portugal, para que se iniciasse o processo novamente. Até a intervenção de uma pessoa em cargo de chefia, que finalmente nos deu o aval para sanarmos o problema, rapidamente e dentro da Lei.

Nem mesmo este percalço diminuiu o prazer da viagem. Em nossa aventura, passamos por lugares muito diferentes, cultural e geograficamente. E essas experiências continuarão conosco pelo resto de nossas vidas.

Agradecimentos:

  • Yamaha do Brasil – http://www.yamaha-motor.com.br/
  • Itaúna Papel e celulose – http://www.itaunapapel.com.br/
  • Motogrife – http://www.motogrife.com/
  • Classtour – http://www.classtour.com.br/
  • Prático de Garça – http://www.praticodegarca.com.br/
  • CGF Transportes Internacionais – gkraut@cgfglobal.com.br

Apoio:

– Ecooar Biodiversidade – http://www.ecooar.com/

*Matéria publicada na edição #142 da revista Moto Adventure.

 

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