Estudo realizado pelo IQG, FIESP e SBOT foi apresentado nesta quinta-feira, na 1ª Cúpula Nacional do Movimento Brasil sobre Duas Rodas na FIESP, com o objetivo de propor soluções humanizadas no ambiente do trânsito no país no enfrentamento ao fenômeno dos veículos de duas rodas
Uma pesquisa inédita realizada pelo IQG – Instituto Qualisa de Gestão, pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (SBOT) mostra que o desafio da mobilidade das motocicletas no Brasil vai muito além da conscientização individual. Os resultados do estudo Movimento Brasil 2 Rodas foram apresentados nesta quinta-feira, em evento na FIESP durante a1ª Cúpula Nacional do Movimento Brasil sobre Duas Rodas.

O levantamento ouviu 23.240 usuários do trânsito, nos 27 estados brasileiros, e avaliou a cultura de segurança a partir de três dimensões que influenciam no ambiente das ruas Indivíduo (o que o motociclista sabe e consegue fazer), Grupo (o que o ambiente social influencia) e Sistema (o que as condições ao redor incentivam ou dificultam). O objetivo foi identificar forças que interferem nos riscos e impactos de sinistros com motocicletas. O resultado nacional produziu um Índice Geral de Cultura de Viárias nos três pilares (Indivíduo, Grupo e Sistema) da pesquisa de 65,1 pontos, em uma escala de zero a 100, classificado como moderado. O dado mais relevante, porém, está na diferença entre as três dimensões analisadas.
No pilar que estudou o Indivíduo, o índice chegou a 91,2 pontos, considerado alto. A consciência sobre os riscos alcançou 95,9 pontos e a percepção de capacidade para adotar comportamentos seguros, 86,4. “Os resultados indicam que os profissionais de motocicletas, de maneira geral, reconhecem os riscos a que estão expostos e acreditam ser capazes de agir com segurança”, explica o presidente da SBOT, Miguel Akkari.
Quando se analisa o pilar Grupo, o índice cai para 72,0 pontos. Embora as normas sociais relacionadas à segurança apresentem resultado elevado, com 85,1 pontos, a influência social alcançou apenas 41,2 pontos e aparece como fator restritivo. “Se comprova a influência do Grupo no comportamento dos Indivíduos”, analisa o coordenador da Comissão de Campanhas Públicas e Responsabilidade Social da SBOT, Marcos Musafir.
Com apenas 32,2 pontos no pilar Sistema de Trânsito estão refletidas as pressões do fenômeno multifatorial do uso de motocicletas. As pressões econômicas obtiveram 46,5 pontos e aparecem como fator restritivo. Já o componente relacionado a ecossistema e reconhecimento, apesar do escore elevado de 89,1, também foi classificado como restritivo.
O conjunto dos resultados sugere que condições econômicas, sociais e organizacionais podem competir com a intenção individual de agir respeitando a legislação em vigor. Os achados da pesquisa mudam o foco das próximas ações na construção de um ambiente menos hostil e mais saudável para que seja socialmente apoiado e venha a engajar os usuários de veículos de duas rodas apontando para uma nova agenda de corresponsabilidade entre todos os atores deste Sistema. O perfil dos participantes também revela a dimensão da exposição ao risco. 59,5% afirmaram já ter sofrido um acidente de moto, seja no trabalho ou como meio de transporte e mais da metade dos entrevistados declarou pilotar seis horas ou mais por dia.
“Quando falamos sobre trabalho em duas rodas, não podemos olhar apenas para os acidentes e suas consequências. É preciso entender quem está sobre essas duas rodas, como trabalha, quais pressões enfrenta e quanto controle tem sobre sua atividade. A tecnologia transformou não apenas as ferramentas, mas a própria organização do trabalho — e precisamos considerar isso também na prevenção”, diz Mara Machado, presidente do Conselho Diretivo da Vértea – Academia de Estudos Avançados em Saúde Sustentável, núcleo do Instituto Qualisa de Gestão (IQG)

Epidemia de acidentes
“O cenário também preocupa pelo impacto hospitalar: foram 166.026 internações de motociclistas em um total de 251.699 hospitalizações relacionadas ao trânsito, o equivalente a cerca de dois terços dos casos”, afirma o presidente da SBOT, Miguel Akkari.
Os debates durante a1ª Cúpula Nacional do Movimento Brasil sobre Duas Rodas na FIESP induzidos pelo problema que está acarretando toda a saúde pública também produzirão o documento “Carta Aberta aos Usuários de Veículos de Duas Rodas” com embasadas informações para transformar o cenário em um espaço de vida saudável e segura no trânsito do país.
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