Pilotando no exterior – Parte 4

Dicas de pilotagem e comportamento em outros países

Texto: Equipe Trips & Tips e Nenad Djordjevic
Fotos: Arquivo

Encerrando esta série de artigos, aproveitamos a recente experiência de um de nossos consultores para falar um pouco sobre certos países europeus e asiáticos.

Viajar de moto para outro continente impõe a necessidade de um minucioso planejamento no transporte da moto – seja por via aérea ou naval. As pesquisas referentes à documentação e procedimentos devem ser as mais completas, pois qualquer detalhe esquecido ou omitido pode gerar problemas futuros. Recomenda-se pesquisar, também, o histórico de empresas de transportes de cargas e despachantes, pois há considerável quantidade de documentação necessária para se realizar uma exportação temporária – termo utilizado para descrever a saída do país de um determinado bem, que retornará ao mesmo.

Sendo assim, deve-se considerar com cuidado e ponderação a opção de alugar uma moto em outros países – ao invés de despachar a sua.

Viajar pela Europa não implica em dificuldades significativas no trâmite do veículo para cada país. No entanto, recomenda-se obter toda a documentação exigida com bastante antecedência, para evitar contratempos.

PORTUGAL

Em Portugal, o trânsito reflete bem o espírito do povo europeu, sendo as leis de trânsito acatadas e respeitadas (via de regra). A polícia é bastante severa, podendo-se dizer até temida pelos condutores. Os policiais costumam ser rígidos e aplicam multas sem pestanejar. Apesar de o continente estar vivendo um período de crise, frequentemente nos deparamos com obras de manutenção, além de novos trechos de estradas que estão sendo construídas por todo o país. Estas contam com uma rede de abastecimento ampla, sendo previamente anunciadas, em painéis eletrônicos à beira da estrada, informações sobre a quilometragem, bandeira e preços praticados pelos três próximos postos à frente. Não só em Portugal, mas em toda a Europa, as frequentes praças de pedágio encarecem significativamente os custos de viagem. Convém levantar esses custos com antecedência, para não ter surpresas caso você viaje com orçamento limitado.

ESPANHA

Na Espanha, resolvemos fazer um teste viajando por boa parte do país usando estradas secundárias e não pedagiadas. Na prática, isso mostrou que, ao optarmos por elas, obtivemos alguma economia e maior liberdade. Porém, isto foi infrutífero, ocasionando uma perda de tempo, aumentando a duração da viagem e, por consequência, os custos. Ou seja: é pouco ou nada vantajoso. As estradas espanholas são bem-construídas e mantidas, mesmo as auto-estradas que não são pedagiadas. Os policiais “camineros” andam em duplas, em motos de grande cilindrada, sendo estas uma presença ostensiva. Como em quase toda a Europa, há uma rede de postos muito bem distribuída. Em quase todas as pequenas cidades à beira da rodovia, nota-se um charme especial.

ANDORRA

Andorra é um país de dimensões minúsculas encravado entre duas potências europeias (em termos econômicos e de personalidade): Espanha e França. Nem por isso, se intimida, ostentando um excelente padrão de vida com suas cidades disputando espaço com altas montanhas. As estradas passam boa parte do percurso cortando área urbana, onde a velocidade é sempre bem reduzida e respeitada. Ali, só percorremos estradas de mão simples bem conservadas e não encontramos praças de pedágio.

FRANÇA

A França foi o país onde encontramos as tarifas de pedágio mais caras. Nem por isso, todas as estradas são bem mantidas. Em algumas, há até mato alto à beira da rodovia e asfalto bem desgastado.

Outra surpresa negativa foi o preço da gasolina – seguramente, entre os mais altos da Europa. Nos finais de semana e feriados, as estradas costumam ter excesso de veículos, provocando um certo “mal-humor” nos motoristas. Fica a dica de evitar viajar em períodos que coincidam com feriados prolongados e não se esquecer de fazer reservas antecipadas em hotéis. De modo geral, os europeus saem mesmo para a estrada, tornando muito difícil (às vezes, impossível) a tarefa de se achar vagas em hotéis. Nas estradas, encontram-se colegas motociclistas em grupos ou sozinhos. Cumprimentos são trocados por alguns pilotos usando-se os pés. Uma grande extensão da malha viária tem relevo bastante acidentado – um show à parte em termos de chame e beleza, resultando em cenários marcantes e inesquecíveis. Tanto nas autoestradas quanto nas vias de menor porte, fique atento: há uma boa quantidade de radares fixos e móveis. Observamos que, nas autoestradas, também se ganha tempo, apoio e segurança, mas que suas paisagens são por demais repetitivas, perdendo-se a magia das pequenas cidades francesas cortadas por estradas secundárias.

MÔNACO

Mônaco têm as características do trânsito francês – porém, com estradas e ruas sinuosas. Apesar de bem sinalizadas, são bastante irregulares. Cuidado e respeito extra à polícia monegasca, sempre presente e que age com rapidez e rigidez. Um espetáculo à parte é percorrer as ruas do Circuito de Mônaco, praticamente fiel ao traçado onde se realiza o tradicional GP. Como é de se esperar, as tarifas de pedágios e a gasolina são proporcionais ao padrão de seus frequentadores usuais.

ITÁLIA

A Itália é outro país cheio de pedágios. Porém, com um trânsito que flui muito bem. O tráfego se acentua mais quando nos aproximamos das cidades de maior porte, especialmente nos horários de pico, o que exige pilotagem mais atenta. Apesar de o país também contar com modernas autoestradas, encontram-se vias de menor importância com traçados antiquados e túneis estreitos, de passagem única. Quanto mais ao norte, mais organizadas e vigiadas são as estradas.

ÁUSTRIA

A Áustria é um país com ótima malha viária e conservação. A percepção é a de um trânsito simpático e amigável. De maneira geral, os usuários adotam médias de velocidade mais baixas ao dirigir. O difícil é manter-se concentrado com tantas belezas naturais ao redor. Para quem quer acrescentar um pouco de aventura à viagem, as sinuosas estradas secundárias valem a pena em termos turísticos.

ALEMANHA

Na Alemanha encontramos as melhores e mais rápidas estradas – as autobans. Nelas, é preciso ficar atento aos retrovisores, pois, sem limite de velocidade na faixa da esquerda, verdadeiros “foguetes” passam a mais de 200 km/h. Mais uma vez, os pedágios são frequentes nessas vias, podendo-se alternar o caminho com estradas secundárias que também guardam bom estado de conservação e segurança – além de praticamente não serem tarifadas. Fique atento a limites – a polícia alemã é rigorosa quando leis são violadas. Nos finais de semana, os alemães costumam lotar as estradas, que ainda contam com um número impressionante de trailers e motor homes. Observando-se as placas desses últimos, nota-se que vêm de lugares de toda a Europa. Pelas leis locais, esses veículos são obrigados a viajar em velocidades máximas de até 90 km/h, formando-se extensas filas nas pistas da direita. Não custa lembrar que, frequentemente, utilizam-se da pista central para fazer ultrapassagens.

PAÍSES BÁLTICOS

Nos países bálticos, compostos por Lituânia, Latvia e Estônia, as estradas são, em sua maioria, de pista simples – porém, muito seguras. São bem vigiadas pela polícia e abusos são prontamente repreendidos. Foi ali que encontramos os motoristas com perfil mais conservador – diversas situações de ultrapassagem não foram aproveitadas por motoristas trafegando à frente, por não acharem ser o momento ideal para a manobra. Os cenários são muito chamativos e frequentes são as paradas para fotos. Fique alerta quando for parar ou reingressar na estrada, optando por lugares que permitam boa visibilidade e tempo suficiente para execução com segurança.

RÚSSIA

Os condutores russos, como já era de se esperar, demonstram, nas vias e estradas, os mesmos traços de personalidade forte pelos qual são reconhecidos mundialmente. Em Moscou – e cidades grandes, de forma geral – o trânsito é caótico, especialmente nas horas de “rush”, quando a situação caminha para o “salve-se quem puder”.

Os caminhoneiros russos não são de atrapalhar, porém, não costumam ajudar os veículos menores durante as ultrapassagens. Não há praças de pedágios e, com a vastidão de sua malha viária, vemos a todo o momento obras de recuperação ou manutenção, o que torna as pistas, de uma hora para outra, de uma única mão!

Nessas situações, o que prevalece é a lei do mais forte, cabendo aos motociclistas uma pilotagem defensiva e cautelosa. As estradas são muito diferentes umas das outras (em termos qualitativos), por isso, convém estudar com antecedência os mapas de navegação para encontrar o caminho que melhor se adapte ao seu tipo de aventura. Na Transiberiana, por exemplo, o tráfego costuma ser intenso – e a estrada nem sempre oferece condições adequadas de segurança.

Após a entrada na região da Sibéria, um cuidado extra deve ser tomado: há um significativo aumento no número de veículos com a direção na direita – o inverso ao que estamos habituados. Isso acontece devido à proximidade com o Japão, que comercializa seus veículos de segunda-mão no mercado russo, sendo esta uma excelente opção comercial para os dois países. Entretanto, esses veículos circulam normalmente em um trânsito que segue o nosso padrão de direção, o que complica ainda mais o tráfego.

Esperamos que essas poucas observações o ajudem no planejamento de sua viagem internacional. Quanto melhor se preparar, menores serão os percalços – portanto, use de todos os recursos para levantar informações que cubram cada aspecto da viagem. Lembre-se: a sorte favorece quem é bem-preparado! Pilote totalmente equipado. E divirta-se!

*Matéria publicada na edição #135 da revista Moto Adventure.

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