Sem fronteiras – “Rota da Seda”

Rota da Seda

Deixando a Mongólia para trás, os expedicionários Marcelo Leite e Beth Rodrigues seguiram para a “Rota da Seda”

Texto e fotos: Marcelo Leite e Berth Rodrigues

Vindo da Mongólia, peguei novamente um trecho da Sibéria, fiz outra troca de pneus em Barnaul e rumei para o Cazaquistão, dando início à etapa “Rota da Seda” desta expedição. “Rota da Seda” era o nome do caminho por onde mercadorias vindas do Oriente eram levadas para a Europa. A “Rota da Seda” passava pelo Cazaquistão, Uzbequistão e Turquemenistão.

CAZAQUISTÃO

Desde a fronteira, o norte do Cazaquistão é um grande deserto de estepes, até Ayaguz. A estrada está em péssimas condições e os dias são longos. Margeamos uma enorme área devastada. Era o campo de testes de armas nucleares da antiga União Soviética. Nas raras cidades pelo caminho, o estilo e a simplicidade lembravam muito a Sibéria.

De repente, a estrada ficou boa e entramos no mundo desenvolvido de Almaty. A cidade (antiga capital) é a maior do país: um lugar bem-cuidado, limpo e cosmopolita, que em nada remete ao Cazaquistão do filme “Borat”.

Almaty chama a atenção por seus contrastes. No verão, faz um calor seco e abafado, de quase 40 graus, mas as montanhas ao fundo permanecem brancas de neve. Nos faróis, modernas Lexus e BMW X5 disputam espaço com antigos Lada Niva. Nas áreas de pedestres, garotas louras de shortinhos ousados passeiam com amigas muçulmanas de “shador”. As avenidas amplas, ao estilo soviético, abrigam lojas das melhores grifes europeias. Há restaurantes para todos os gostos e bolsos. Assim é Almaty, um lugar perfeito para se recompor após a difícil Mongólia.

O Cazaquistão herdou muito de sua infraestrutura da era soviética. Contando com uma população educada e muitos recursos da exploração do petróleo, cresceu espantosamente nos últimos 20 anos, a ponto do presidente Nursultan Äbişulı Nazarbayev declarar: “um país que cresce constantemente, cerca de 10% ao ano, não precisa tanto de Democracia.”

UZBEQUISTÃO

Em Almaty, resolvermos todas as pendências de vistos para os países seguintes e reencontramos um amigo francês, a bordo de uma BMW GS R100 com mais de 20 anos.

Passamos por Shymkent para cruzar a fronteira com o Uzbequistão. Depois de horas lidando com os trâmites alfandegários para motos, um oficial uzbeque nos pediu dinheiro (na “cara dura”!) para finalizar o processo. Após um difícil diálogo, nos livramos do primeiro dos muitos corruptos daquele país.

Não perfiz sequer 50 km e fui parado pela primeira vez. Segundo o policial, a velocidade máxima, na estrada, é de 50 km/h. Meus documentos ficariam retidos até que fossem traduzidos (e a multa fosse devidamente paga). Mas, evidentemente, todo este transtorno poderia ser evitado com uma “ajuda amiga”. Outros motoristas locais eram parados, desciam dos carros, não mostravam documento algum e nem discutiam. Simplesmente abriam a carteira e iam embora passivamente, como se a “ajuda amiga” fosse um processo natural e aceitável.

GRATA SURPRESA

Tashkent foi uma surpresa inesperada e, apesar de não ser moderna, é organizada, limpa e repleta de jardins e praças impecáveis. A população é muito homogênea: asiáticos (fisicamente grandes) e muçulmanos. A comida é deliciosa e lembra muito aquilo que, no Brasil, chamamos de “comida árabe” (e que, na verdade, é sírio-libanesa).

O Uzbequistão é o maior exportador de algodão do mundo e sua produção têxtil é uma tradição secular. Beth queria comprar tudo o que via pela frente, mas uma das vantagens de se viajar de moto é que não é possível levar nada!

As estradas no Uzbequistão são boas e deveríamos chegar rapidamente a Samarkand. Porém, fomos parados mais três vezes. Sempre a mesma história. Finalmente, chegamos a Samarkand, que já foi um dos maiores centros de trocas comerciais da Rota da Seda e ocupou um importante papel cultural e religioso na região (e na história do Islã). A herança desta época de glória se torna concreta no imenso Registan, imponente conjunto de mesquitas e medressas. Nenhuma foto pode retratar a beleza e as dimensões do lugar. É simplesmente uma das atrações mais belas que vi nesta expedição. Isto, considerando que passamos por cinco continentes e 42 países!

MAIS SURPRESAS

Chegando a Bukhara, mais uma vez ficamos impressionados com a incrível beleza das mesquitas azuis. Há, também, uma cidadela protegida por uma enorme muralha. Curtimos a cidade por dois dias e pegamos a estrada para o Turquemenistão.

Este é um país difícil de visitar. Não há nenhum interesse em promover o turismo por ali. Tentamos tirar um visto turístico, mas seria obrigatório contratar uma agência oficial, que se responsabilizaria por hospedagem, deslocamentos e colocaria um “guia” 24 horas por dia para nos acompanhar (em uma rota pré-aprovada pelo governo! ). Porém, conseguimos um visto de “trânsito”, válido por cinco dias e com roteiro pré-aprovado. Não é permitido acampar, hospedar-se nas casas de pessoas, filmar ou tirar fotos de qualquer edificação pública.

O Turquemenistão é pobre, mas a recente exploração de importantes reservas de gás começa a gerar divisas expressivas. O país é pequeno e não demorou muito para sairmos de Turquemenabat e chegarmos a Mery. Esse trecho é um grande deserto. Em meio a dunas de areia, um calor infernal e camelos, surgem alguns pontos de parada no meio do nada.

NOVOS ARES

A cidade de Mery é grande, feia e tem construções ao estilo soviético. Porém, tudo é muito organizado. Os homens vestem calças pretas e camisas brancas. As mulheres se trajam de verde ou vermelho, dependendo da atividade exercida. Demorei a entender que isto é parte do “Código Oficial de Vestuário” (obrigatório em todo o país). E em todos os edifícios, salas ou balcões, vemos a foto oficial do presidente.

Por alguma razão, ninguém falava conosco, além do estritamente necessário. Mesmo sabendo que o país é uma das mais fechadas ditaduras do planeta, com policiais e agentes por todos os cantos, é uma sensação estranha – ainda mais, por sermos os únicos estrangeiros em todos os lugares que visitamos. Entretanto, o mais incrível ainda estava por vir: Ashgabat!

É preciso conhecer Ashgabat, a capital do país, para saber até onde vai a insanidade de um ditador. “Ashgabat será toda branca – em mármore branco!”, decretou o presidente; e assim foi feito! Os palácios, assim como os edifícios oficiais e comerciais e os centros esportivos, são brancos. Há policiais impecavelmente vestidos em cada esquina. Mas a cidade é quase deserta, o que lhe confere um caráter meio “irreal”. Também não é permitido fotografar Ashgabat – portanto, as imagens que ilustram este artigo são tecnicamente “ilegais”.  No hotel onde nos hospedamos, fomos alertados de que não deveríamos rodar com a moto suja. É proibido entrar em Ashgabat com veículos que não estejam perfeitamente limpos. Conhecer esses países, portanto, foi uma experiência surreal.

Que venham as próximas etapas da expedição, o Irã e a Turquia!

*Matéria publicada na edição #143 da Moto Adventure.

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