A grande aventura americana – Montanhas Rochosas dos EUA

Monte Rushmore

A bordo de uma H-D Heritage Softail, Carlos Balthazar percorreu as Montanhas Rochosas dos EUA e visitou cenários incríveis, como o Monte Rushmore

Texto e Fotos: Carlos Balthazar

“P ilotar motos sempre me fascinou – e sempre sigo pelas estradas brasileiras realizando esta ambição. Mas também admiro as estradas do exterior, motivo pelo qual programei um ‘tour’ especial, com a orientação da Melbourne Tour (e algumas adaptações no roteiro original apresentado pela agência): parti para uma viagem ‘solo’ pela região das Montanhas Rochosas, nos EUA.

A aventura começou em Las Vegas, no dia 11 de junho, com uma Harley-Davidson Heritage Softail alugada na Eagle Riders. Vale mencionar a relativa burocracia no atendimento, com muitos itens para ser checados: seguros, menção explícita ao tipo de gasolina e óleo, penalidades para o atraso na entrega, US$ 500,00 de multa se abastecesse com diesel etc., sendo que o locatário precisa até colocar sua impressão digital em uma folha. É um processo rigoroso, mas observei algo interessante naquele dia: atrás de mim estava um cidadão com muletas. Ele as deixou com sua acompanhante e assinou o contrato. Não entendi como ele iria pilotar.

NA ESTRADA

Após duas noites em Las Vegas, onde assisti ao “Cirque du Soleil”, peguei a  Interstate 15 rumo a Glendale, atravessando a ponta norte-ocidental do Arizona. Pernoitei em Glendale, já no estado de Utah, que foi a base para a visita ao Zion Canyon. Há um serviço de ônibus grátis que passa pelos hotéis e leva os turistas até a entrada do parque. Lá, depois de pagar a entrada, pegamos outro ônibus que nos leva aos diversos pontos da região. O visitante fica o tempo que quiser, fotografa,caminha pelas trilhas, se alimenta e volta em um dos diversos ônibus que rodam pelo parque. O local é muito pitoresco, com uma diversidade de cânions. Sem dúvida, vale conhecer!

No dia seguinte, em uma estrada particular, talvez a mais bela que já conheci, segui rumo ao Bryce Canyon. Paguei US$ 12,00, tirei várias fotos e, se voltasse, ficaria lá por mais algumas horas, tantos são os pontos cênicos. Antes de chegar ao Bryce Canyon, parei em outra formação similar, mas de um vermelho vivo: o Red Canyon, simplesmente, espetacular!

Neste lugar há um sistema de “shuttle” (uma espécie de ônibus) similar ao Zion. Achei o Bryce Canyon mais bonito e sugiro uma parada mais demorada no “Sunset Point”, onde há uma trilha chamada “Navajo Loop”, com extensão de 1,3 milhas (cerca de 2 km), onde se desce em zigue-zague cânion abaixo e, depois, sobe-se novamente. As formações do Bryce Canyon chamam-se “Hoodoos” e nos remetem há 50 milhões de anos, quando sedimentos se erodiram das montanhas ao noroeste de Utah, foram depositados em um lago, transformados em rocha, e, mais tarde, levantados, convertendo-se em formações que lembram pilastras ou torres altas. Uma dica a quem fizer este passeio pelos cânions: viaje com um par de botas impermeáveis, adequadas a caminhadas.

LUGARES CHARMOSOS

Continuei a jornada pela Rodovia I.15 e pernoitei em Richfield. No dia seguinte, pela mesma estrada, segui para Ogden (ainda em Utah), cidade charmosa que já foi sede de Jogos Olímpicos de Inverno. O local também teve um papel significativo na história dos EUA, pois foi perto dali que as ferrovias do Pacífico e do Leste se encontraram, permitindo que os estadunidenses pudessem viajar a preços mais em conta. Conta-se que os diretores das ferrovias competiam para ver qual equipe conseguia estabelecer a maior extensão de dormentes por dia. Na aposta final, o diretor da “Pacífico” ganhou US$ 10.000,00  de seu contraparte do leste, deitando 10 milhas de dormentes em uma jornada de trabalho. Ele contava com operários chineses, que trabalhavam com mais intensidade.

Depois de Ogden, entrei no Estado de Idaho e, daí, até Jackson, no Wyoming. Ao passar por um restaurante-teatro, vi um grupo de jovens cantando músicas dos anos 1950. Estavam ensaiando a peça “Grease”, que inspirou um filme famoso com John Travolta, “Nos Tempos da Brilhantina”. Comprei um ingresso. Um dos atores conhecia Curitiba (PR), onde passou algum tempo como missionário, e arranhava algumas palavras em Português.

RUMO A YELLOWSTONE

No dia seguinte, parti para o tão aguardado Parque Nacional de Yellowstone, um dos mais famosos do país. Entrei pelo sul, vindo do Parque Nacional Great Teton, onde não parei, porque o tempo estava fechado e começara a chover e esfriar. Yellowstone me impressionou. Optei por seguir uma bifurcação para o oeste, o que me permitiu parar em vários pontos para observar as características hidrotermais que o parque apresenta: as maiores do planeta. Dentre elas, os gêiseres, espécies de “fontes quentes” que entram em erupção violentamente à medida que a pressão se acumula em grandes volumes d’água, armazenados nas profundezas. O parque contém mais de 300 deles, sendo, o mais famoso, o “Old Faithful”, que jorra a cada 90 minutos.

Yellowstone oferece várias opções de excursão aos turistas. Escolhi uma que visitava a parte norte do parque, com direito a um passeio de “stagecoach” (ou carruagem), transporte comum na época da colonização norte-americana. No parque avistei vários animais típicos, como búfalos, alces e corujas. No último dia, quando deixava o lugar, notei um congestionamento na estrada e pensei tratar-se de alguma confusão envolvendo um animal, pois os “rangers” (guardas) haviam montado todo um aparato militar. Ao me avistar, disseram: “não abandone sua moto!” Comecei a olhar para os lados para ver do que se tratava. Estava em uma subida, segurando a moto no acelerador e na embreagem, chovia e fazia frio. De repente, à minha direita – a não mais do que quatro metros de distância – surgiram dois ursos de porte médio. Fiquei chateado, pois não havia como fotografá-los – e “gelado”, prossegui a viagem. Chovia, fazia frio e minhas antigas luvas, apesar de impermeáveis, não deram conta. Não via a hora de parar em uma loja de conveniência, comprar modelos novos e tomar um bom chocolate quente (Nos EUA, as lojas de conveniência são bem completas; em muitas, é possível sair vestido dos pés à cabeça!).

NAS TERRAS DE BUFALLO BILL

Eu rumava para Sheridan, etapa seguinte da viagem, quando passei por Cody, a cidade do famoso “Buffalo Bill”. Parei, abasteci, entrei em uma loja e comprei um par de luvas de camurça para trabalhos domésticos, que foi um “quebra-galho”. No local havia um restaurante e perguntei o que havia de mais quente: uma sopa “minestrone”, que devorei. Renovado, prossegui por outra estrada, passando pela Represa Buffalo Bill.

Após o pernoite em Sheridan, continuei indo para o leste, em direção a Sturgis, já em Dakota do Sul. Estava na Rodovia I.90. Passei por Gillette, ainda em Wyoming, onde visitei uma loja da Harley-Davidson, com incrível variedade de motos e todos os artigos possíveis e imagináveis da marca. Finalmente, comprei um  par de luvas impermeáveis, que não testei – uma vez que não peguei mais chuva e o tempo começou a esquentar. Antes de entrar em Dakota do Sul, fiz um desvio razoável para visitar a “Devil’s Tower” (Torre do Diabo), local onde filmaram algumas cenas de “Contatos Imediatos do Terceiro Grau”, dirigido por Steven Spielberg em 1977. Um hábito que notei entre os motociclistas norte-americanos foi o de fazerem um sinal com os dois dedos da mão esquerda estendidos, sempre que cruzavam com outros pilotos. Era como se dissessem: “legal, boa viagem e vá com calma!” Aderi a essa onda também.

TEMPLO DO MOTOCICLISMO

Finalmente cheguei a Sturgis, templo do Motociclismo que já foi tema de vários artigos em “Moto Adventure”. Fiquei hospedado no Days Inn, no extremo oposto da rua principal, onde acontece o agito. Era sexta-feira e nada mais adequado do que assistir a um show de rock e música country em um dos vários “saloons”. Deixei a moto no hotel, chamei o serviço de táxi, pois estava a fim de tomar algumas cervejas, e fui a um lugar chamado “Oasis” assistir ao show da banda “Manik”. Na saída, o barman do “Oásis” telefonou para o mesmo táxi e lá estava eu, de volta ao hotel. No dia seguinte rumei  para Keystone, que fica a duas milhas do Monte Rushmore, um dos pontos altos da viagem, que fiz questão de visitar.

HOMENAGEM

O Monte Rushmore homenageia quatro presidentes estadunidenses, cada um com características marcantes: George Washington, primeiro presidente e “pai” da nação norte-americana. Thomas Jefferson, que comprou o estado da Louisiana dos franceses, dobrando o tamanho do país, além de ter patrocinado uma expedição que explorou seu interior. Ted Roosevelt, por sua visão de uma América moderna (ele iniciou a construção do Canal do Panamá). E Abraham Lincoln, que aboliu a escravidão naquele país. É interessante a história do monumento, que começou a ser construído em 1927, ficando pronto apenas em 1941. A comunidade indígena não viu com simpatia sua construção e começou, em 1948, a erigir um monumento ao “Crazy Horse”, índio que derrotou o General Custer na batalha de Little Big Horn. Tal monumento não conta com financiamento público e ainda está incompleto: apenas a face do guerreiro foi completada.

Antes de iniciar minha volta, passei pelo “Bear Country” (Terra dos Ursos). Ali os motociclistas têm que deixar suas motos e passear em uma van de cortesia, já que os animais estão à solta.

Perguntei onde era o ponto da van. O guarda me mostrou: ”é ali: você mesmo dirige a van”. Larguei a moto, mão esquerda ao volante, a direita na câmara, e comecei a fotografar lobos do Ártico e muitos ursos. Era minha revanche à frustração experimentada em Yellowstone!

FIM DE PERCURSO

Pernoitei em Chadron, que tem um belo parque; depois em Cheyenne, capital do Wyoming; e finalmente em Denver, capital do Colorado, onde devolvi a moto. Visitei o Capitólio, sede do governo naquele estado e que também abriga a Câmara dos Deputados e o Senado Estadual (nos EUA, há senados estaduais). Cada deputado e senador trabalha somente 120 dias por ano e ganha US$ 30.000,00 por suas atividades nesse período.

Ao todo, percorri 2.263 milhas (3.620 km) através de oito estados, com trânsito muito seguro e por estradas perfeitas, onde as pessoas se respeitam. Espero voltar um dia e fazer um roteiro semelhante, além de incentivar outros motociclistas a percorrerem esses caminhos fantásticos!”

*Matéria publicada na edição #107 da revista Moto Adventure.

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