Sem fronteiras – Egito e Sudão

Os novos destinos dos expedicionários Marcelo Leite e Beth Rodrigues

Texto e Fotos: Marcelo Leite e Beth Rodrigues

Muitos dizem que o Egito é mais Oriente Médio do que propriamente África – está ali só por uma “fatalidade geográfica”. Na fronteira, é preciso lidar com uma bagunça de Terceiro Mundo. Usamos nosso CPD (Carnet de Passage en Douane) pela primeira vez e tivemos que colocar placas egípcias.

Ficamos alguns dias em Dahab, pequeno vilarejo de pescadores que aproveitou a onda de turistas para se transformar. Mas a crise do turismo também chegou lá – descobrimos que o país é repleto de gigantescos empreendimentos hoteleiros e resorts inacabados.

O trânsito no Cairo é bem pior que o de São Paulo. Não há faixas ou semáforos, os pedestres se jogam no meio da rua para atravessar e os guardas parecem tão perdidos quanto os motoristas e transeuntes. Notamos, também, que ainda existem muitas motos com motor “dois tempos”. Além disso, as memoráveis Jawa circulam relativamente bem-conservadas. Capacete? Ninguém usa!

PIRÂMIDES

Fomos ver as famosas pirâmides. Um enxame de gente tenta lhe vender passeios de camelo e suvenirs e não aceita “não” como resposta. Logo deixamos tudo para trás e descendo para Aswan, chegando ao Vale do Nilo, onde o verde passa a ser a cor predominante. O vale é tomado por pequenas plantações e a estrada corta vilarejos e cidadezinhas.

PRÓXIMA PARADA: SUDÃO

Guerras, Darfur, miséria, isolamento do mundo, embargo norte-americano e extremismo muçulmano… Assim é retratado o Sudão pela mídia do Ocidente. Propositalmente ou não, a imagem divulgada é muito distante da realidade que pude vivenciar.

Ainda no Cairo, fomos à Embaixada do Sudão tirar nossos vistos. O lugar é antigo e feio, mas, apesar da grande quantidade de gente, fomos bem tratados e, no mesmo dia, estávamos com nossos passaportes estampados. Ao final, ainda nos agradeceram por queremos visitar o Sudão.

Para chegar lá, é preciso atravessar o Lago Nasser em um barco que só sai às segundas-feiras de Aswan. No dia combinado, fomos ao escritório da companhia marítima. Encontramos os demais “african overlanders” e fomos todos à Polícia de Trânsito. Devolvemos as placas egípcias, demos baixa nos CPDs e só então seguimos em comboio, escoltados pela policia, até o porto. Estávamos descendo até Cape Town. Além de nós, brasileiros, a trupe passou a ser formada por um holandês em sua Honda África Twin e um casal de sul-africanos voltando para casa em um caminhão de tração integral. Combinamos com o holandês de enfrentarmos a África juntos. Embarcamos, então, para Wadi Halfa, Sudão.

SOL, LUA E ESTRELAS

Em Aswan, embarcamos no lendário Ferry para Wadi Halfa. Os passageiros vão em um barco que leva 18 horas para chegar, enquanto os caminhões, carros e motos seguem em uma balsa que demora de dois a três dias. Essa é a única forma de entrar no Sudão a partir do Egito. Há muita improvisação, falta de infraestrutura e, obviamente, superlotação. O barco tem poucas cabines, normalmente reservadas com antecedência pelos estrangeiros mais abastados. O normal é achar um canto no deck, entre caixas e sacos. Assim fizemos com uma turminha de “overlanders”. Debaixo de um bote salva-vidas, que nos protegia do sol e da brisa gelada da madrugada. A viagem foi até divertida. O pessoal entabula conversas gostosas e o “toc-toc-toc” do motorzão alimenta nossa preguiça.

WADI-HALFA

A balsa com a moto só chegaria a Wadi-Halfa três dias depois. Para irmos do porto ao centrinho, tomamos um “táxi”. São valentes Land Rover Defenders dos anos 1960. Ficamos hospedados na melhor “lokanga” local. Nosso quarto tinha entrada pela rua de areia, duas camas, mas não tinha porta. Não posso reclamar: dormi feito um rei, paguei US$ 3 por dia e, mesmo sem porta durante três dias, não tive qualquer problema de segurança. Estávamos em Wadi-Halfa, Sudão, onde a confiança entre as pessoas é algo sagrado e todos lhe dão as boas-vindas.

CULINÁRIA

Cerveja, não pode; Coca-Cola não existe; e papel higiênico, ninguém usa. Entretanto, acredite: a comida é uma delícia! O frango tem algo especial. É pequeno e abatido horas antes de ser temperado e grelhado. Você deve comer com a mão. Na saída, encontramos um barril com água e sabão de pedra, além de um limãozinho para lavarmos as mãos. À noite, na praça principal, forma-se uma roda de homens com suas cadeiras e narguilés, em torno de uma pequena televisão. As mulheres e crianças ficam em casa. Não passamos despercebidos: fomos cumprimentados e recebemos vários convites para nos juntarmos a eles. O Chefe de Polícia, agora, em traje civil, com sua impecável bata branca, nos apresentou orgulhosamente sua moto chinesa, novinha, como a dizer: “também tenho uma bela máquina!”

CAFÉ

Continuando a viagem, pegamos mais uma belíssima estrada pelo Deserto da Núbia até Dongola. Nas paradas, em barraquinhas bem básicas, tomamos o delicioso café sudanês. Feito sobre a lenha, é de “primeiríssima”! Eles ainda lhe dão opções de vários sabores. Cada vez experimentávamos um diferente!

Depois, esticamos até Merowe, onde vimos várias pirâmides e as ruínas Nuds. Essas atrações não têm o porte das egípcias, mas, em compensação, não têm aquele enxame de turistas, sujeira e o assédio dos vendedores. Aqui, elas estão ao natural, projetando-se da areia como há milênios. Do vilarejo local, surgem crianças e mais crianças. Na despedida, deixamos para nossos anfitriões elásticos coloridos de cabelo, uma prenda que fez muito sucesso.

SIMPLES E MODERNA

Chegando a Cartum, entramos pela avenida que passa pelo imenso mercado local. Vimos uma bagunça imensa e o trânsito parado. Depois de rodar pelo calor do deserto e pegar um trânsito assim, a pobre GS “clamava” por misericórdia. Assim, fui desligando e esfriando a moto até chegarmos a um albergue. Cartum é grande: mescla modernidades com ruas mais simples. As avenidas e ruas principais são asfaltadas, mas, ainda assim, a areia do deserto pode ser encontrada em toda a cidade. Ali, o Nilo Azul e o Nilo Branco se encontram, formando o famoso Nilo que corta o Sudão e o Egito. Cartum não é bonita, mas tem um bom “astral”.

SEGURANÇA

Enquanto os EUA promovem um embargo econômico e “infernizam” o muçulmano Sudão, os chineses “surfam” em todas as frentes da construção do novo país. Não sem interesse, já que, nos últimos anos, grandes reservas de petróleo têm sido descobertas ao sul e ao norte. Fato é: o Sudão me conquistou. Em nenhum lugar do mundo me senti tão seguro e tão à vontade. Há algo de bom no ar, assim como nas pessoas. Mas era preciso seguir viagem e nosso próximo destino nos esperava: a Etiópia.

*Matéria publicada na edição #134 da revista Moto Adventure.

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