Sem fronteiras – Ucrânia – Ecos do passado

Em viagem pela Ucrânia, o motociclista Eduardo Wermellinger encontrou relíquias do antigo Bloco Soviético

Texto e fotos: Eduardo Wermellinger

Em meados de 2013, fiz um tour pela Europa – e um dos meus objetivos era cruzar os Cárpatos para chegar à Polônia, via Uzhorod, na Ucrânia, seguindo por uma estrada secundária que me levaria a um pequeno povoado nas proximidades de Dolyna. É difícil colocar em palavras a beleza do lugar – mas as aventuras que ali vivi podem ser contadas. Logo, vamos a elas!

LUGAREJO

Já eram quase 18h00 e eu rumava para Ternopil, na Ucrânia. Pilotava por uma estrada estreita, com asfalto mal-conservado, mas ainda em boas condições para motocicletas. Rodei aproximadamente 200 km sem cruzar com qualquer outro veículo. Sempre atento ao cenário, para fazer uma boa foto, percebi que havia um lugarejo a 700 metros da estrada em que me encontrava. Parei a moto e comecei a procurar algum acesso que me levasse até lá. Não conseguia encontrar nenhuma saída e não me restou outra solução a não ser usar a KTM em um bom trecho off-road e, assim, cruzar uma pequena estrada cortada por uma linha de trem. Como a topografia era bem plana, não me preocupei em passar por cima daquela vegetação rasteira, apesar de ter chovido naquele dia e o trecho estar bem escorregadio (também devido ao derretimento da neve). Aos poucos, o vilarejo se aproximava e a atmosfera do lugar surgia com algo diferente no ar. Cheguei a uma pequena vila, com casas antigas em meio a ruínas. É habitual, quando se chega de motocicleta em algum lugar assim, que sua presença seja notada. Mas, ali, me olhavam de forma indiferente. As pessoas não demonstravam hostilidade ou receptividade, apenas observavam. Parei a moto, desliguei o motor e me dirigi a um café. O atendente não falava Inglês, mas entendeu o que eu queria.

FOTOS

Sentei-me em um banco em frente ao café. Observava a calma do lugar quando três homens pararam em frente à motocicleta e começaram a contorná-la, olhando todos os equipamentos. Aproximei-me e um dos homens disse algo em ucraniano (evidentemente, não entendi nada). Mostrei-lhe a bandeira do Brasil, que sempre levo colada à moto. O homem não se manifestou. Tranquilamente, então, comecei a fotografar o local. Primeiramente, fiz uma foto da moto, mostrando-a aos três homens. Ao olharem pelo LCD da câmera, eles abriram um sorriso.

Senti-me mais a vontade e comecei a fotografar tudo ao redor. Saí caminhando e um dos homens me acompanhou. Cada foto tirada era mostrada a ele. Já me sentia mais à vontade para clicar, também, as pessoas que por ali passavam.

Uma senhora passou por nós, de braço dado com outra mulher, e o sujeito que me acompanhava disse algo às duas. Elas sorriram, o que me encorajou a perguntar se poderia fotografá-las. Não houve resposta, mas, pelo sorriso de uma delas, soube que não haveria problema. Desse modo, fui ganhando confiança para fotografar a paisagem. Em certo momento, o homem ao meu lado pegou em meu braço, como se quisesse me conduzir a algum lugar. Não andamos mais que um quarteirão e ali estava eu, diante de um tanque de guerra abandonado. Ele, então, parou à frente de uma casa e apontou para ela. Era clara a mensagem que o local passava: a casa destruída era um destroço de guerra. As imagens que registrei revelavam o passado recente daquele vilarejo.

*Matéria publicada na edição #160 da revista Moto Adventure.

 

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