Roteiro Aventura – A magia do Bom Jardim

Estrada para Chapada dos Guimarães

Em viagem à região central do Brasil, o motociclista Rodrigo Octávio descobriu lugares ermos e uma grande paz interior

Texto e fotos: Rodrigo Octávio Tristão de Almeida

“Num dia nebuloso, depois de me aventurar pelas trilhas do Parque Nacional das Emas, em Goiás, eu pilotava pela estradinha de terra, sem reparar que naquela parte do parque havia caído uma chuva torrencial. Passei por um trecho d’água e a roda da frente da moto afundou na lama. Quando dei por mim, estava deitado no chão, com o pé esquerdo preso embaixo da moto. Sozinho, eu tinha que dar um jeito de sair dali. Naquele recanto, habitado por animais selvagens, como lobos e onças, a noite chegaria em menos de uma hora”. Assim o motocislista Rodrigo Tristão de Almeida, de Descalvado (SP) relatou um momento tenso da sua viagem pelo estado do Mato Grosso. Saindo de Descalvado, interior paulista, seu destino foi a região central do Brasil. Veja nas palavras de Rodrigo o que aconteceu nessa aventura.

ENERGIA

O centro do Brasil tem uma energia diferente. É a região onde se situam algumas chapadas, com superfícies de magnetismo poderoso, e onde se inicia a região do Pantanal, com a vida colorida e exuberante que embeleza nosso país. Como minha última viagem de moto tinha sido para o Sul, desta vez queria algum lugar na região central brasileira, mas um destino pouco conhecido. Assim pensei no Parque Nacional das Emas. De quebra, daria um pulo na Chapada dos Guimarães e aproveitaria para conhecer uma Vila de menos de 1.000 habitantes, chamada Bom Jardim, cerca de 200 km ao norte de Cuiabá, cujos atrativos são arrebatadores. Acreditava que conseguiria captar belas imagens, tanto em fotografia como em vídeo.

A viagem estava estimada em 15 dias. Utilizei a moto Yamaha XTZ Ténéré 660, excelente para empreitadas mais longas, nas quais é preciso enfrentar caminhos acidentados. A quilometragem desse tour ficou em torno de 3.800 km nos quais, em dias de locomoção de uma cidade a outra, eu percorria em média cerca de 500 km, distância bem confortável, que permite viajar com calma.

Saí de Descalvado (SP) e dormi a primeira noite em Ibirá, também no interior paulista. No dia seguinte, parti para a cidade de Chapadão do Céu, em Goiás, um dos acessos ao Parque Nacional das Emas. É uma cidadezinha com menos de 10.000 habitantes, bastante simpática, como é natural nos lugares pequenos.

Percorri 30 km numa estrada de terra e estava pertinho da entrada do Parque Nacional das Emas. Minha velocidade era de 70 km/hora, pois o caminho estava em boas condições. De repente, a uns 200 metros da entrada do parque, uma ema cruzou minha frente. Só pude ver a cara de desespero da ave quando viu a moto. Provavelmente ela também viu minha cara de desespero ao perceber que íamos protagonizar uma colisão épica. Não sei como, mas acabei freando com a roda traseira, fazendo a moto sair de lado, para logo em seguida, no susto, reassumir o controle. Foi por pouco!

Ao chegar à entrada do parque, conversei com o vigia, que mora ali mesmo, e ele me falou que era preciso um guia para entrar nas estradinhas de terra. Mas também falou que havia um grupo de estudantes com um guia que estava perto do rio. Eu poderia me juntar a eles. Então ingressei no parque e fui devagar, sentindo o vento, numa estradinha de terra bordeada pelo cerrado, ocasionalmente vendo emas e seriemas.

Encontrei o grupo de estudantes à beira do rio e conversei com o guia. Acabei fazendo uma trilha com eles e fizemos boia cross no rio. Depois o grupo de estudantes foi embora pelo portão que leva à cidade de Mineiros e eu comecei o trajeto pela mesma estradinha de terra que conduzia ao portão do parque que levava a Chapadão do Céu. Tinha caído uma chuva muito forte naquela região. Passei por um trecho de água e a roda da frente afundou na lama. Quando dei por mim, estava deitado no chão, com o pé esquerdo preso embaixo da moto. Sozinho, eu tinha que dar um jeito de sair dali. Naquele recanto, habitado por animais selvagens, como lobos e onças, a noite chegaria em menos de uma hora. No momento da adrenalina, nosso corpo reage de maneira inusitada. Nossa força, nossas percepções e sensibilidade à dor são alteradas. Com a perna direita, consegui empurrar a moto para cima, aliviando a pressão na perna esquerda. Foi o suficiente para conseguir tirá-la debaixo da moto. Em seguida verifiquei se meu pé estava normal, levantando-me e me apoiando nele suavemente. Senti um pouco de dor, mas era suportável. Mesmo sem conseguir apoiar adequadamente o pé esquerdo, consegui erguer a moto, o que me deixou mais aliviado. Não havia qualquer estrago.

Mas a estrada tinha se transformado: muitas poças de lama e o chão extremamente escorregadio me obrigavam a conduzir com atenção redobrada. Ao chegar a Chapadão do Céu, passei no posto de combustível, lavei a moto e fui para a pousada. Meu pé tinha sofrido uma torção e estava um pouco inchado. Não era nada grave. Nesse mesmo dia encontrei Leonardo, amigo de Brasília com quem tinha combinado de percorrer o trecho entre Chapadão do Céu e a cidade de Mineiros. As cidades são separadas por uma estrada de terra em péssimas condições, com muito areião, trechos de lama e cascalho. Um prato cheio para quem gosta de aventura!

MAIS AVENTURA

Partimos por volta das 9h30 do dia seguinte para percorrer os 115 km que separam as duas cidades. Essa estrada cruza o cerrado e margeia o Parque Nacional das Emas. Imaginamos que chegaríamos por volta da hora do almoço e pensávamos em conhecer algumas cachoeiras em Mineiros. Logo que começou o circuito off-road, concluí que o desafio seria bom. Eu jamais faria aquele trecho sozinho. É uma estrada praticamente deserta, com quilômetros de areião. Fomos devagar, sob o sol poderoso da região, que fazia a temperatura ultrapassar 40 graus. Por volta das 14h00 encontramos um rio onde pudemos parar e comer um lanche. Depois de enfrentar mais areião, lama e cascalho, chegamos a Mineiros por volta das 16h30. Isso mesmo. Demoramos sete horas para percorrer 115 km. Por aí dá para ter ideia das condições da estrada.

Chegamos bem cansados. Mineiros é uma cidade maior, sem o charme e a beleza das vilas menores. Não via a hora de sair dali. Com o amanhecer seguinte, Leonardo retornou para Brasília e eu me dirigi para Chapada dos Guimarães. E aqui vai uma nota: se você já pilotou pela BR 116, pode ter uma vã ideia do que seja a BR 364. Depois de passar por Rondonópolis, no Mato Grosso, a estrada simples que conduz a Cuiabá é apinhada de caminhões em filas que chegam a centenas de metros. É uma estrada perigosa e exige muita paciência. Assim que pude, saí dela para passar por Campo Verde e depois chegar à Chapada.

CHAPADA DOS GUIMARÃES

As escarpas imponentes da região, pinceladas por tonalidade avermelhada, compõem uma paisagem extasiante. Em um dos dias percorri as trilhas do interior do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães, me impregnando da energia regeneradora da água transparente que se lança nas rochas em forma de lindas cachoeiras. Na cachoeira das Andorinhas, a luz estava especial, atingindo a água e deixando parte das rochas na sombra.

A entrada do parque, com o perdão da palavra, é ridícula. Estive no mesmo local há dez anos e a rusticidade, simplicidade e bom senso faziam da entrada do parque um lugar bonito. Hoje é uma vergonha. Nem vou perder tempo tentando explicar como conseguiram transformar o cartão de visita de um dos principais Parques Nacionais do Brasil numa espécie de ruína pós-guerra.

Tirando o lado humano, a natureza dá show. Em outro dia, fiz a trilha para a caverna Aroe Jari, que significa morada da alma. É a maior caverna de arenito do Brasil. Pode-se caminhar por um trecho em seu interior e sentir o ambiente.

Mais à frente, na mesma trilha, encontra-se a Gruta da Lagoa Azul. A lagoa, no período da tarde, é atingida diretamente pelos raios solares, formando um conjunto de cores impressionante. A trilha ainda prossegue, passando pelo interior de mais uma caverna. É um dos passeios mais bonitos da Chapada.

Para fazer esse passeio, é melhor contratar um guia com condução própria na cidade de Chapada dos Guimarães. Os mata-burros da estradinha de terra são verdadeiras armadilhas para motos. Em vez das madeiras paralelas em sentido perpendicular ao da estrada, os mata-burros têm as madeiras no mesmo sentido da estrada.

Reservei mais um dia para descansar na Chapada dos Guimarães e finalmente ir para uma pequenina cidade, que pode ser chamada de vila, de nome Bom Jardim.

UM LINDO LUGAR

Bom Jardim tem aproximadamente 1.000 habitantes. As pessoas são simples e bem-intencionadas. Há pousadas confortáveis e opções de restaurantes modestos. Enquanto eu andava pelas ruas, araras passavam voando e eu via grande quantidade de aves. A Vila de Bom Jardim tem uma energia peculiar. O contato com a natureza é forte e a interação com os bichos é profunda.

Há diversos atrativos. A cachoeira da Serra Azul, com seus 50 metros de altura, é um esplendor. Dá para mergulhar nela para contemplar os peixes. Em alguns lugares ao lado da estrada, a gente consegue ver macacos. Há um ponto específico em que eles se agrupam, em frente ao Balneário, uma propriedade que agrega um trecho do rio com restaurante e bar, localizado a um quilômetro da cidade.

No fim de uma das tardes visitei a Lagoa das Araras. Por volta das 17h00, enquanto jacarés cruzam a lagoa, as revoadas se iniciam sob uma sinfonia retumbante. O barulho das aves impressiona! É gostoso ficar ali, não só apreciando as belíssimas imagens das araras voando com o pôr do sol ao fundo, mas também ouvindo os gritos dos pássaros ecoando no ambiente.

Em outra oportunidade fui ao Aquário, onde se situa uma das nascentes do rio Salobra. O matiz azul da água é enfeitado pelas cores dos peixes que reverberam ao serem tocados pela luz solar. Mergulhar nessa nascente traz uma sensação de profunda entrega às forças da natureza. Foi uma experiência inesquecível. Depois desse primeiro contato com o rio, ainda fiz uma flutuação pelo rio Salobra que durou cerca de uma hora. Raios de luz do sol penetravam na água por entre vãos da folhagem, pincelando bonitos desenhos na órbita submersa do rio.

Terminado o mergulho, voltei para a sede, onde almocei e depois descansei um pouco. No final da tarde, parti de moto para uma propriedade vizinha, chamada Refúgio Água Azul. O dono, seu Milton, é uma pessoa extremamente simples. Falei para ele que queria conhecer a propriedade e tirar algumas fotos. Ele me deixou à vontade e se recusou a cobrar qualquer valor.

Isso me chamou a atenção em Bom Jardim. Percebi que lá ainda residem pessoas capazes de fazer um favor ou de ajudar sem interesse de troca. Coisa rara atualmente.

Depois desses dias em Bom Jardim, eu estava com a alma em paz, inebriado com o perfume da natureza selvagem. A experiência de ficar horas esperando o pôr do sol, observando o comportamento dos bichos, dos jacarés e das aves, podendo me ver no reflexo dos olhos dos macacos, podendo apreciar a sinfonia das araras, me fez esquecer o mundo civilizado, com suas preocupações materiais e egocêntricas. Vi como as referências mudam e os valores também. Vi que viajar de moto e viver esses momentos é uma mágica. Apesar de alguns contratempos naturais que permeiam o passeio, como um pneu furado e minha queda no Parque Nacional de Emas, comecei a voltar para casa com a alma em paz. Foram mais três dias na estrada, com aquele friozinho de começo de inverno começando a chegar, mas com dias de sol e céu de profundo azul. Quando comecei a me aproximar de casa, uma sensação de tristeza apareceu. Parecia que eu queria permanecer naquela atmosfera de magia. Mas pouco depois percebi que em breve eu e minha moto estaríamos partindo de novo, para conhecer novos lugares, novas pessoas, e para aprender um pouco mais sobre este mundo tão vasto, cujas estradas representam o paraíso no coração do motociclista.

A VIAGEM

Motociclista: Rodrigo Octávio Tristão de Almeida

Participação de Leonardo Ramos

Moto: Yamaha XTZ Ténéré 660

Rendimento da moto a 120 km/hora: 20 km/litro

Duração: 16 dias

Quilometragem: 3.700 km percorridos

DESPESAS

Gasolina: R$ 650,00

Pousada: R$ 1.350,00

Alimentação: R$ 450,00

Passeios e guias: R$ 370,00

Total das despesas: R$ 2.820,00

Cidades onde houve pernoite:

Ibirá (SP), Chapadão do Céu (GO), Mineiros (GO), Chapada dos Guimarães (MT), Bom Jardim (MT) e Urânia (SP).

Vídeo da viagem:

*Matéria publicada na edição #175 da revista Moto Adventure. Os valores citados a cima são referentes a data da viagem e podem ter sofrido alterações.

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