Casal realiza viagem de moto pela Europa – Parte 2

Na parte final de sua viagem de moto pela Europa, casal de brasileiros roda por Sérvia, Bulgária, Turquia e Grécia, antes de voltar à Itália

Texto: Thales Monteiro
Fotos: Susana Monteiro e Thales Monteiro

A  pós passarmos por Itália, Eslovênia, Croácia e Bósnia e Herzegovina (Moto Adventure edição 163), aceleramos a moto em direção à Sérvia, pois esse era o caminho mais rápido para a Turquia. Fomos curtindo as paisagens das estradas vicinais e sentíamos que o frio estava cada vez maior. Entramos então em uma Autoban e aceleramos a moto até a fronteira da Sérvia com a Croácia. Ao chegarmos à fronteira tivemos uma grande surpresa, o pedido de visto de entrada. Esse foi o único país na nossa rota que exigia tirar o visto previamente, e não na fronteira, como estávamos fazendo. Contudo, com muita simpatia, o próprio policial da fronteira nos indicou um consulado da Sérvia a 40 quilômetros dali, no município de Vukovar, na Croácia. Viramos a moto e aceleramos até Vukovar onde encontramos o consulado sérvio fechado. Assim, com um dia a mais na Croácia e 50 euros por visto conseguimos entrar na manhã seguinte na Sérvia.

BELGRADO

Assim que entramos na Sérvia a temperatura começou a cair. O tempo estava chuvoso e os termômetros cada vez mais próximos do zero. Fomos direto para a capital, Belgrado, onde chegamos no final da tarde. Resolvemos sair do hotel para dar uma volta e, no momento em que passávamos pela porta, o mensageiro do hotel nos lembrou da declaração de hospedagem – ou seja, para um turista circular pelas ruas ele deve levar consigo uma declaração assinada pelo gerente do hotel dizendo que está adequadamente hospedado. Caso contrário, o viajante poderá ser levado para a delegacia. Pegamos a tal declaração de hospedagem, compramos umas meias de esqui e fomos jantar na rua Skadarlija, via turística com excelentes restaurantes. Provamos comida e vinho sérvio e tivemos uma ótima impressão da culinária local.

SIGAM PARA O SUL

De Belgrado fomos para a Bulgária. Não demorou muito para chegar à capital, Sofia. O tempo estava nublado e frio, mas não com a mesma intensidade do dia anterior. Na estrada – chegando a Sofia – vimos um bar com muitas motocicletas paradas na frente. Encostamos a moto e fomos recebidos por dois simpáticos búlgaros membros de um moto clube local. Ficamos algum tempo tentando conversar, já que nenhum dos dois falava inglês e nós, obviamente, não falávamos búlgaro. Depois de muita mímica e risadas saímos do bar escoltados pelos dois até o nosso hotel. A cidade era muito bonita e planejamos ficar mais dois dias para conhecer a redondeza.

No dia seguinte os termômetros marcavam 4 graus negativos e quando contamos para um amigo búlgaro sobre a temperatura ele nos disse: “Guys, go to south” (caras, sigam para o sul).

Aproveitamos o frio do dia para visitar algumas vinícolas e provar comidas típicas. No dia seguinte seguimos o conselho do nosso amigo e aceleramos para a Turquia.

TRÂNSITO LOUCO E MUITO CHÁ

Nossa chegada a Istambul foi assim: na hora do rush, sem GPS e sem falar nada em turco. Fomos seguindo intuitivamente para o centro quando resolvemos perguntar. Era uma pergunta simples. Queríamos ir para a Mesquita Azul. Sabíamos que nosso hotel ficava ao lado. Mas quando perguntamos para um rapaz na frente de uma loja de sapatos sobre nosso destino ele nos fez descer da moto, tomar chá, e só depois nos indicou o caminho. Chegamos sem problema. Contudo, o trânsito é caótico em Istambul. Muito pior do que em São Paulo e, só um pouco, pior do que o de La Paz.

Ficamos quatro dias em Istambul, passeamos por todos os pontos turísticos, comemos muitos kebabs e doces turcos. Ficamos encantados com o mercado de especiarias e o Gran Bazar.

Marcamos para tomar um chá com um empresário de moto turismo da região, perguntamos sobre as estradas e belezas naturais no restante da Turquia e quando acabou o chá fomos correndo para o hotel arrumar as malas. Tínhamos que seguir viagem.

DEPOIS DO BÓSFORO

Após quatro dias em Istambul não havia mais espaço nas malas para tudo que compramos. Fomos até um correio e enviamos uma caixa de souvenir para o Brasil. Depois disso, pegamos uma balsa e cruzamos o mar Bósforo. Pronto, estávamos oficialmente na Ásia. Nosso objetivo naquele dia era rodar cerca de 750 quilômetros e chegar de uma vez só à Capadócia.

Ficamos hospedados em um tradicional hotel-caverna e, graças à indicação daquele empresário de moto, recebemos um upgrade para uma suíte de 80m2. Passeamos de balão, fomos a uma cidade subterrânea que protegia os primeiros cristãos dos soldados romanos. Visitamos fábricas de cerâmicas e de tapetes. Comemos mais, bebemos mais e depois de três dias voltamos em direção à Europa.

Na volta para Istambul passamos do limite de velocidade e, adivinhem? Fomos pegos no radar e parados pela polícia. Desci da moto meio sem graça e fui recebido por um policial risonho e simpático que não falava nenhum outro idioma além do turco. Entre mímicas e gestos ele me apontou o radar que marcava 136km/hora e eu, por gestos, pedia desculpa. Depois de apontar daqui e mostrar de lá, saí com uma multa de 120 euros.

Chegamos a Istambul e tivemos que fazer uma escolha difícil. Como nossas férias estavam acabando, tivemos de escolher entre cruzar a Grécia em dois dias, para passar seis dias na Itália, ou ficar seis dias na Grécia e cruzar a Itália em dois dias. Ganhou o macarrão e o vinho.

SUPER FAST

Saímos de Istambul com 970 quilômetros a serem percorridos pela frente até o porto de Igoumenitsa, na Grécia. Resolvemos fazer essa quilometragem em dois dias e ficamos hospedados perto do Monte Olimpo. Na cidade, fomos jantar em um restaurante simples, onde fomos recebidos com muita comida. Toda hora a garçonete – que parecia ser a filha da cozinheira – trazia um prato novo por conta da casa. Depois continuamos a viagem e pilotamos por estradas vicinais, que margeavam a costa grega. Fizemos algumas paradas para fotos e almoçamos um peixe pescado na hora com vista ao mar. Chegamos a Igoumenitsa às 18h e ainda pudemos passear pela orla e tomar um drink em um bar charmoso antes de embarcar com moto e tudo numa balsa chamada Super Fast. Essa balsa cruza o Mar Adriático durante a noite, tem suítes confortáveis, dutty free e restaurante. Às 9h do dia seguinte estávamos na Itália. Subimos na moto e tocamos direto para a Costa Amalfitana.

COSTA AMALFITANA

Já em estradas italianas foram apenas 264 quilômetros de Bari até a Costa Amalfitana. Chegamos para o almoço com uma macarronada com frutos do mar. Encontramos uma pousada e saímos para conhecer o local. No dia seguinte percorremos cada quilômetro da costa com a nossa moto. Não é à toa que o lugar é Patrimônio Mundial da Humanidade. As cidades acompanham os costões rochosos e a estrada que liga uma cidade a outra é tão sinuosa que possui espelhos em cada curva para mostrar quem vem na outra faixa. Ficamos dois dias lá e partimos para Abruzzo com um conselho dado por um velhinho da nossa pousada, que apontava para a moto e repetia: “piano piano”.

Há algum tempo vi uma foto feita por um casal de alemães onde eles acampavam numa ponte abandonada. Essa ponte ficava no meio de uma floresta na região de Abruzzo, na Itália. Quando vimos que passaríamos por essa província decidimos dedicar dois dias da nossa viagem para achar esse local e acampar por ali. Andamos por quase todas as estrada off-road de lá. Com a foto da ponte na mão, parávamos nos postos e padarias e perguntávamos. Em cada parada tínhamos a esperança de que iríamos achar o tal lugar.  Depois de dois dias procurando, achamos lugares incríveis, mas nenhuma ponte era parecida com a da foto. Mas o esforço valeu a pena pela paisagem e por todas as vilas por onde passamos.

TOSCANA

Quando tivemos de escolher entre Grécia e Itália, foi a Toscana que nos fez decidir. Há muito tempo queríamos andar de moto pelas videiras e castelos da região. Tudo ali é lindo é cheio de história. Decidimos ir a Montepulciano e ficamos encantados com a paisagem medieval de todos os lugares pelos quais passamos. É claro que comemos e bebemos muito. Dos três dias que ficamos, um deles dedicamos a visitar as vinícolas da região. Nesse dia nem subimos na moto, pois o plano era beber vinho. Objetivo esse que cumprimos com louvor. E aqui vai uma dica: ao viajar para lá não deixe de tomar um “Vino Nobile de Montepulciano” ou o famoso “Brunello de Montalcino”. E lembrem: se beber não dirijam.

DE VOLTA PARA CASA

Após três dias na Toscana e 30 dias viajando acordamos com o objetivo de voltar para Milão. A distância não era longa, mas a dificuldade de deixar tudo para trás fez com que chegássemos a Milão no final da tarde. Chegar a Milão significava voltar para o Brasil. Devolvemos a moto, saímos para comer a última massa e fomos dormir pensando em tudo que vivemos nessa viagem. Acordamos com uma certeza: outras românticas viagens virão.

Confira a Parte 1 do roteiro.

*Matéria publicada na edição #164 da revista Moto Adventure.

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