Pilotando até a Chapada dos Veadeiros e a Chapada das Mesas – Parte 1

No Centro-Oeste e Nordeste surgem a Chapada dos Veadeiros e a Chapada das Mesas, lugares mágicos e encantadores

Texto e fotos: Rodrigo Octávio Tristão de Almeida

A luz do entardecer atingia a parte alta das montanhas que desfilavam ao lado do Rio Tocantins, perto da cidade de Filadelfia, na divisa dos estados de Tocantins e Maranhão. Quando dei por mim, um tucano voava ao lado da moto, parecendo se divertir com um novo amigo… Naquele ponto eu entrava na região da Chapada das Mesas, no Maranhão, e me embriagava com paisagens alucinantes.

Tudo começou após minhas viagens de moto para vários parques nacionais brasileiros. Passei a pesquisar lugares que unissem belezas naturais, culturais e um roteiro que fugisse às estradas tradicionais. Por mais que eu gostasse de natureza, a Chapada das Mesas, a borda norte da Chapada dos Veadeiros e a travessia pelo estado de Tocantins eram cenários, até então, desconhecidos para mim.

Analisei mapas e dados, até que decidi organizar um roteiro que cruzaria o centro do Brasil. Estava prestes a conhecer algumas cachoeiras que podem ser listadas entre as mais belas do mundo. As montanhas me acompanhariam em grande parte do trajeto. A energia da imensidão, do vento amigo, das águas translúcidas e das experiências ricas, sempre presentes nas viagens de moto, me presentearia com momentos inesquecíveis e imagens maravilhosas.

YAMAHA XT 660Z TÉNÉRÉ

A quilometragem estimada para esta trip era de 5 mil km. A moto seria uma Yamaha XT 660Z Ténéré , perfeita para viagens mais longas, com trechos em estradas de terra. Seu consumo médio é de 19 km/l na velocidade de cruzeiro, em torno de 120 km/h.

Em um dia ensolarado de abril, saí de Descalvado, cidade do interior paulista, e rumei para Cristalina, em Goiás, onde passei a primeira noite, perfazendo aproximadamente 720 km. No dia seguinte percorri mais 420 km para atingir a cidade de Cavalcante, na borda norte da Chapada dos Veadeiros, também em Goiás. Cavalcante é uma cidade pequena, com cerca de 10 mil habitantes, onde há algumas pousadas e um ar interiorano e tranquilo. Cercada por escarpas imponentes, Cavalcante tem uma localização privilegiada. Tanto no amanhecer como no entardecer, as paredes de rocha das montanhas são pinceladas pelo tom alaranjado do sol, formando estampas de grande intensidade visual.

Peguei uma estrada de terra de 30 km para chegar a uma comunidade quilombola chamada Engenho II. Depois de um trecho de serra bem íngreme, cruzei pequenos rios que cortavam a estrada. “Quilombo”, na acepção original, significa acampamento de nômades. No Brasil, a palavra ganhou o sentido de acampamento dos escravos refugiados, que viviam de acordo com os costumes de sua terra natal. A comunidade de Engenho II tem aproximadamente 700 habitantes.

Fui muito bem-recebido pela moça que trabalhava no escritório de atendimento aos viajantes. Cobra-se uma taxa de R$ 10,00 para entrar no local das trilhas. É necessário contratar um guia, normalmente membro da própria comunidade, que cobra R$ 50,00 pelo dia de trabalho. João, meu guia, era um sujeito que cativava por seu jeito humilde e simplicidade. Foi enriquecedor conversar com ele e observar seu modo sereno de agir, explicar e interagir com a natureza. Nosso primeiro objetivo era a cachoeira de Santa Bárbara. Caminhamos mais ou menos 5 km até a trilha começar a descer pela mata. A temperatura diminuía e o barulho da água aumentava. Logo apareceu uma pequena cachoeira com uma lagoa natural de um verde claro e magnetizante.

João riu ao ver minha reação e disse que aquilo era só um “aperitivo”.

Continuamos a trilha, margeando o rio, até que uma imagem impressionante começou a se formar. A água cor de esmeralda parecia irreal. Ao nos aproximarmos, o espanto foi imediato! Era como uma cena de filme! A cachoeira de Santa Bárbara, com cerca de 30 metros, é um arrebate de deslumbramento. Você não imagina como pode existir um conjunto de cores, luzes e texturas tão bonito. Nadei no poço por alguns minutos. Depois ficamos contemplando aquele cenário cinematográfico enquanto comíamos um lanche.

Seguimos em direção à comunidade e fizemos uma nova trilha, desta vez menor, para a cachoeira da Capivara. Voltei para Cavalcante e, no outro dia, visitei o rio e a cachoeira de São Bartolomeu, perto da cidade, por apenas 3 km de estrada de terra em boas condições.

TOCANTINS

Comecei minha jornada para o Tocantins um dia depois. Enfrentei um pouco de chuva e o pneu da frente furou perto da cidade de Natividade, mas tive sorte, pois havia uma borracharia nas proximidades. Depois de percorrer pouco mais de 500 km, alcancei Porto Nacional. Parti com o clarear do dia seguinte rumo à cidade de Carolina, no sul do Maranhão, ponto estratégico para conhecer a Chapada das Mesas. Passei ao lado de Palmas, capital do Tocantins (e um centro urbano bonito e organizado).

Depois de Palmas, a estrada fica especialmente bonita, com montanhas de um lado e o Rio Tocantins do outro. Mas, à medida que se avança para o norte, principalmente depois da cidade de Miranorte, a rota começa a ficar complicada, com muitos caminhões e buracos. É um trecho que exige concentração, pois os veículos, para desviarem das irregularidades, mudam de trajetória a toda hora. Não é raro um caminhão vir na contramão.

Em Colina do Tocantins, decidi entrar em uma estrada secundária para me livrar do trânsito e dos caminhões. Foi uma experiência interessante. A estrada era deserta. Não havia placas. Os buracos, que às vezes pareciam crateras, evocavam um cenário de pós-guerra. Era como seguir por uma rota que tivesse sido dinamitada.

CENÁRIOS MAJESTOSOS

Ao me aproximar da Chapada das Mesas, depois de passar pela cidade de Bielândia, o horizonte se ergueu majestosamente. Eu me imaginei em pleno Vale dos Dinossauros, singrando com a moto ao lado de várias escarpas de forma retangular. São essas formações geológicas, em forma de mesa, que dão o nome à chapada. Muitas delas desfilam pela região.

Para chegar a Carolina, no Maranhão, é preciso pegar uma balsa para cruzar o Rio Tocantins. A travessia de balsa da cidade de Filadélfia para Carolina é prazerosa e relaxante. Com o pôr-do-sol, as cores do céu e do rio oferecem um teatro de matizes esplendorosos. Depois de encontrar uma pousada, eu estava pronto para iniciar as explorações na Chapada. Em minha opinião, o melhor é se hospedar no hotel da cidade, mesmo

Um dos ícones da Chapada é o “Encanto Azul”, uma nascente ou trecho de rio cuja transparência extasia e convida a uma experiência de contemplação única. Fica a 130 km de Carolina e a 30 km do município de Riachão, no Maranhão. Assim, peguei a moto ao amanhecer e rodei 100 km até Riachão. Depois, segui por uma estrada de terra de 30 km. Esta via requer prudência. Alguns trechos são muito bons, permitindo andar com tranquilidade a 70 km/h, mas, subitamente, surgem areiões. Em um deles levei o maior susto da viagem: acabei entrando rápido demais e por pouco não fui ao chão. Me recompus e conduzi a moto com mais cautela, entrando nos areiões com consciência e foco redobrado.

ENCANTO AZUL

Finalmente cheguei a um complexo de cachoeiras estruturado, com restaurante, banheiro e trilhas bem sinalizadas. Fora deste complexo começa uma estrada de 6 km de areião pesado rumo ao “Encanto Azul”. Encontrei um rapaz que fazia o trajeto em camionete 4×4 e que cobrava R$ 20,00 pelo serviço, incluindo a condução como guia até a lagoa azulada. Não só pela dificuldade do terreno, mas porque não há sinalização nas bifurcações, decidi ir com o guia nesse caminho.

Depois de vencer a estrada de areião, descemos da camionete e iniciamos uma trilha sossegada que pendia para um vale. No primeiro contato com o rio já deu para ter uma ideia de que a experiência seria boa. A transparência da água e a vegetação exuberante mostravam um caminho preservado e selvagem.

Caminhamos à margem e por dentro do rio. De repente, nossos olhos se deliciaram com a magia de uma lagoa azulada ao lado das rochas. É hipnose completa! O guia me emprestou uma máscara com snorkel e mergulhei na lagoa, cuja profundidade aproximada é de seis metros. Pequenos peixes se deslocavam no fundo azul e na escuridão abaixo das fendas. A seguir, comecei a fotografar para tentar registrar um pouco daquele visual inusitado. Será difícil esquecer aqueles momentos. O guia me contou que o “Encanto Azul” foi descoberto há aproximadamente cinco anos, quando um vaqueiro da fazenda procurava por algumas cabeças de gado perdidas.

Voltamos pela estrada dos areiões até a entrada do complexo de cachoeiras. Almocei e, depois, fui para as trilhas. Não é um lugar selvagem, pois as trilhas são bem sinalizadas e há trechos com passarelas. É muito bonito, vale a pena conhecer.

É importante não confundir o “Encanto Azul” com o “Poço Azul”. O primeiro é fora da estrutura das cachoeiras e não se cobra nada para percorrer o caminho, exceto se você contratar um guia. O segundo fica dentro do complexo e é cobrada uma taxa de R$ 15,00 pela visitação.

Mais para o fim do dia, voltei de moto pela estradinha de 30 km até Riachão. Na rodovia de asfalto para Carolina, uma família de tamanduás-mirins cruzou o caminho da moto. Como eu ia devagar, reduzi a velocidade e pude observá-los, assustados, voltando para o mato. Cheguei à pousada agradecido pelas experiências daquele dia.

OUTRAS ATRAÇÕES

Havia outro ponto que eu queria conhecer na Chapada: o Santuário.

Para chegar lá, viajei aproximadamente 30 km pela estrada de asfalto que conduz ao município de Imperatriz. A estrada é adornada pelas mesas da Chapada e é um trajeto obrigatório para quem está de moto na região. O Santuário fica no complexo de Pedra Caída. Apesar de estar em um lugar estruturado (o que particularmente não me agrada, pois isto tira a magia da natureza selvagem), é um passeio imperdível.

É cobrada uma taxa de R$ 15,00 para entrar no complexo de Pedra Caída e outra no mesmo valor para fazer a trilha do santuário. Um guia (necessariamente) acompanha o grupo. Esta é a parte ruim… Para ser honesto, quando vi aquela estrutura toda, até pensei em desistir.

A trilha, se é que se pode chamar assim, é um tablado de madeira. Apenas no final, quando se chega à margem do rio, é que o feitiço da natureza começa a se manifestar. Caminhamos ao lado do rio, entrando em um cânion cujas paredes eram tingidas pelo verde dos musgos e pelo marrom das pedras umedecidas pela água (que escorria em pequenas cachoeiras). Não levei a câmera fotográfica, pois não há jeito de chegar ao Santuário sem se molhar.

Entrei no rio, ora mais raso, ora com profundidade acima da cintura, avançando no cânion por um corredor de água de 300 metros. À medida que me aproximava do fim do corredor, a água começava a se agitar e o barulho de uma cachoeira reverberava vivamente. De súbito, o corredor deu uma guinada para a direita e surgiu um salão de pedras com mais de 40 metros de altura. Eu me imaginei em um filme de Indiana Jones, entrando naqueles templos sagrados… Mas não era imaginação. A água se tornou revolta e o vento aumentou. A partir dali, eu tinha que nadar com força contra a corrente do rio para entrar no salão. É uma imagem que nos deixa literalmente de boca aberta. Os fachos de luz resplandeciam por um buraco no alto, por meio do qual se lançava uma cachoeira de mais de 40 metros de altura. Não dá para descrever um ambiente desses! É mágico! Fiquei por vários minutos sentindo a energia do vento, da água, da luz e do som. Voltei extasiado!

Arrumei um canto isolado na estrutura de Pedra Caída e fiz um lanche. Então, retornei de moto para Carolina, admirando as mesas da Chapada, que se perfilavam ao longo da estrada.

VOLTA

Iniciei a viagem de volta no dia seguinte, desta vez pernoitando em Palmas (TO), onde mora Weber, um grande amigo de faculdade. Ele possui uma Harley-Davidson personalizada e me deixou dar uma volta. É um estilo de moto que eu nunca havia experimentado, mas gostei de pilotá-la. É uma sensação diferente. Depois ele me contou que Palmas foi construída de forma organizada, à maneira de Brasília. Deu-me a impressão de ser um oásis no centro do país. Há uma praça dos poderes, onde estão o Tribunal de Justiça, a Assembleia Legislativa e o Governo do Estado. Saí de Palmas com o nascer do sol, no outro dia, e me dirigi para o sul, deixando o Tocantins e adentrando Goiás. Naquelas primeiras horas, notei o tucano voando ao lado da moto… Uma cena que se repetiu outras três vezes ao longo da viagem.

Cheguei a Cavalcante, onde dormi mais uma noite, para, em seguida, viajar para a Vila de São Jorge, na porta do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. A região é carregada de misticismo e possui uma natureza exuberante. Mas isso fica para um próximo artigo…

Confira a Parte 2 do roteiro.

DADOS DA VIAGEM:

Moto utilizada: Yamaha XTZ Teneré 660

Duração total: 16 dias.

Quilometragem percorrida: 5 mil Km

Velocidade média nas rodovias: 120 km/h

Consumo: 19 km/litro

Cidades onde houve pernoite: Cristalina (GO), Cavalcante (GO), Porto Nacional (TO), Carolina (MA), Palmas (TO), Vila de São Jorge (GO) e Monte Alegre de Goiás (GO).

DESPESAS:

Hospedagem: R$ 1.480,00

Combustível: R$ 815,00

Alimentação: R$ 400,00

Passeios (entradas nas cachoeiras e guia): R$ 155,00

Total das despesas: R$ 2.850,00

*Matéria publicada na edição #163 da revista Moto Adventure. Valores podem ter sofrido alterações.

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