Viagem de moto para o Jalapão

Conhecida como “Deserto Verde”, onde o ouro nasce caprichosamente em forma de capim, esta região no centro do Brasil é um lugar abençoado por natureza. Seja bem-vindo ao Jalapão

Texto: Celsinho Trail Trip       
Fotos: Celsinho Trail Trip/Divulgação

Para alguns felizardos praticantes de rally, essa região é bem conhecida e também temida, pois, durante anos, a etapa Jalapão do Rally dos Sertões foi um dos maiores desafios aos pilotos e máquinas que participaram desta competição. Não era difícil ter notícias sobre grandes pilotos e suas incríveis máquinas sendo derrotados pelo Jalapão. Mas a região vai muito além de seus caminhos desafiadores e surge com enorme potencial turístico, tanto que é conhecido como “Deserto Verde”.

Localizada no estado de Tocantins, a região é um paraíso natural de beleza única e um lugar de descobertas permanentes. Em plena mata de transição entre o cerrado e a caatinga, onde predomina uma vegetação rasteira similar às savanas, surgem cachoeiras, rios de águas cristalinas, corredeiras, grandes chapadas e formações rochosas de cores e formas variadas.

Neste cenário, destacam-se dunas de areias douradas, com até 30 metros de altura. Isso, junto à sua baixa densidade populacional (0,8 habitante por km²) levou o lugar a ser chamado de Deserto do Jalapão.

Seria um deserto se o Jalapão não fosse também um paraíso das águas e um lugar onde a presença de flores e animais exóticos salta aos olhos. A região é um convite à contemplação e à aventura. A dificuldade de acesso ao Jalapão é uma das grandes responsáveis pela preservação deste santuário.

PRESERVADO

No passado, o Jalapão era desafiado apenas por caravanas de tropeiros que o atravessavam em viagens épicas, enfrentando um sertão bravio em direção ao Vale do Rio Tocantins. Hoje, muitos caminhos ainda mantêm estas características originais e isso é perfeito para quem ama uma verdadeira aventura sobre duas rodas, já que a região possui uma das menores densidades populacionais do país e você pode ficar por dias sem cruzar ninguém nas estradas, e o combustível é encontrado somente nas cidades da região, as quais têm distâncias consideráveis entre si.

Evidentemente dá para se resolver tudo isso com bastante planejamento e cruzar o Jalapão de moto. Mas e se você quiser vivenciar maiores aventuras, acelerar mais forte, percorrer caminhos fora da principal estrada da região, conhecer trilhas e lugares mais remotos? Neste caso, a dica é encarar uma aventura que pode ser contratada junto a uma empresa especializada em moto turismo de aventura, que opera e oferece motos off-road na região. Para tal embarcamos junto com a equipe da Bike Box, tradicional equipe de rally do Brasil e que criou a Expedição Jalapão. Nessa operação de moto turismo da Bike Box, o roteiro é desenvolvido em cinco dias e inclui traslado do aeroporto de Palmas, a capital do Tocantins, para a cidade de Ponte Alta e, na volta, de Ponte Alta para o aeroporto, hospedagens, alimentação e a moto para a aventura: uma Kawasaki KLX 450cc. Some a tudo isso guias experientes, carro de apoio e mecânico.

DIAS DE AVENTURA

O primeiro dia da viagem é reservado para o traslado entre Palmas e Ponte Alta, entrada no hotel, apresentação da equipe e dos demais aventureiros, briefings e uma série de informações. Você também será apresentado à sua fiel companheira para os dias de aventura: a Kawasaki KLX 450cc.

A seguir a jornada terá início, ali mesmo em Ponte Alta, cidade que é considerada o portão de entrada do Jalapão. O nome da cidade está associado ao Rio Ponte Alta, que nasce nas veredas da serra e chega bem volumoso ao ponto em que corta a cidade. Logo você estará cruzando a ponte sobre esse rio, observando as crianças saltarem do alto da ponte. Pouco depois, adeus cidade, pois você estará indo para Mateiros, via rodovia TO-055, que servirá de base para toda aventura. Mas para que apoio, moto off-road toda preparada para encarar uma rodovia? Pois bem, a TO-055 não é uma rodovia conforme as que temos em mente ou conhecemos. Para se ter ideia: somente veículos 4×4 e motos off-road conseguem transitar por ela. Mas essa rodovia é muito importante, pois, além de fazer a ligação das cidades que compõem o Jalapão, os acessos para muitos dos pontos turísticos da região são a partir dela.

Neste primeiro trecho da aventura, se você for diretamente para Mateiros, irá rodar aproximadamente 160 km. No entanto, existem dezenas de atrativos pelo caminho e dificilmente você irá acelerar diretamente para Mateiros.

CACHOEIRA DA VELHA

O primeiro atrativo desse roteiro é a Cachoeira da Velha. Alimentada pelas águas do Rio Novo, é a maior cachoeira do Jalapão e uma das suas principais atrações. Nela, as águas correm em grande quantidade, despencando por duas quedas em formato de ferradura, cada uma com mais de 20 metros de largura. É um espetáculo imponente, no qual a natureza mostra sua exuberância e toda a sua força. Sua infraestrutura de passarelas e escadas impressiona e facilita a visitação. Além disso, bem próximo à Cachoeira da Velha existe uma prainha, de águas doces e mansas, cercada por matas de galeria. Sem dúvida, uma bela opção para o camping. Já a trilha para chegar da cachoeira à prainha é um atrativo à parte. É de fácil caminhada, com paradas para descanso e contemplação.

Depois de bons mergulhos e descanso será hora de voltar para a estrada e acelerar forte, mas sempre com atenção, pois a cada instante surgem surpresas, buracos, enormes depressões, áreas de areião. Mas surgem também pequenos riachos, poços de águas. Assim, vencendo diferentes obstáculos, quase ao fim do dia você irá chegar a um lugar de beleza ímpar: as Dunas do Jalapão. Um cenário tanto inesperado quanto inesquecível. Ali, bem acima do chamado Rio Seco, estão estas dunas formadas por areia de quartzo que, ao receber a luz do sol, ganham tons douradas e chegam a ter 30 metros de altura. Ali, no alto, soprados pelo vento, finos grãos de areia voam pela crista da duna. Seus pés fincam na areia fofa e o Jalapão surge majetoso aos seus pés. Imagine então a sensação de contemplar o pôr do Sol no centro de uma paisagem paradisíaca, com um verdadeiro “oásis” todo serpenteado por riachos e lagos bem próximos de você e tudo em absoluto silêncio.

Ali, como você verá, as dunas do Jalapão estão em constante movimento, guiadas pelos ventos. Ao seu redor surgirá a Serra do Espírito Santo, de formação arenosa, cuja ação dos ventos causa sua erosão, originando assim as Dunas do Jalapão. Depois de viver essa experiência a viagem continua até Mateiros, local de pernoite, que acontece em uma agradável pousada.

A AVENTURA CONTINUA

O segundo dia de aventura é de Mateiros para São Félix do Tocantins, num trecho de 80 km, mas repleto de atrações. O primeiro atrativo é o Fervedouro do Mombuca, que fica em meio à vegetação fechada, entre brejos e riachos. Ali surge um lugar de rara beleza, cercado por bananeiras. No centro está um grande poço de água azul transparente, na verdade, a nascente de um rio subterrâneo. A água que brota das areias claras cria o fenômeno da ressurgência, que torna impossível que o banhista afunde, mesmo que ele seja muito persistente ou pesado, ou seja, você tenta afundar na água e ela te empurra de volta para a superfície. Depois, de volta para a estrada, surgirá Mombuca, um antigo povoado. Foi nesse lugar, formado por uma maioria de descendentes de escravos, que surgiu o tão popular artesanato em capim dourado. Sim, de tão dourado assemelha-se a ouro. Lá, as mãos habilidosas das mulheres do Mumbuca trabalham esse capim, produzindo peças artesanais que serão distribuídas em todo o Brasil e para o exterior. Em Mombuca a população não chega a 200 moradores e homens e mulheres dividem funções bem definidas: os homens plantam para o consumo da família, enquanto as mulheres colhem o capim dourado para a produção artesanal e preparam farinha, além, claro, de atuarem como artesãs.

Fechando o dia surgirá a Cachoeira da Formiga, uma pequena queda d’água cercada por vegetação exuberante, de árvores altas, samambaias e moitas de palmeiras nativas. Mas o espetáculo mesmo fica por conta da piscina formada ao pé da cachoeira, onde águas de encantador verde-esmeralda convidam ao mergulho. O lugar é uma joia onde é possível banhar-se e observar o fundo do poço, com areias calcárias. Depois será hora de ir para São Félix e ali descansar e fazer outro pernoite.

No último dia de Jalapão, você vai sair de São Félix do Tocantins sentido Novo Acordo, mas antes irá conhecer o  Fervedouro e a Praia do Rio do Sono, lugares de grande beleza. Em Novo Acordo termina o Jalapão e a estrada de terra, agora por asfalto você poderá ir para Palmas.

ANO INTEIRO

Não existe uma época melhor para conhecer o Jalapão e é possível fazê-lo o ano inteiro. Por lá, o período das chuvas vai de dezembro a março. Porém, geralmente, ocorrem apenas pancadas de chuvas, nada que atrapalhe a realização do roteiro. Por outro lado, nesse período o clima fica mais ameno e a vegetação mais verde. O Jalapão é uma região quente o ano inteiro. Durante o dia, a temperatura varia de 30ºC a 35ºC, e as noites são frias, principalmente de maio a agosto, variando de 13ºC a 20º C, dependendo da época do ano.

SERVIÇO

Bike Box – Expedição Jalapão (11) 3045-4080.

www.bikebox.com.br

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