Leste Europeu com a Triumph Tiger 1050 – Parte 2

Ilha de Pag

Viajar pelo Leste Europeu é uma grande surpresa. E o melhor: os preços são convidativos

Texto e fotos: Fabrizio Passari

Depois de quatro dias intensos em Praga chegava a hora de partir. Meu roteiro original era subir para Alemanha e Polônia, mas o dono da agência de aluguel das motos sugeriu outro destino: os Alpes Austríacos. Dado que ele era um guia de viagens experiente, apostei na sua dica. E ganhei! Eu estava prestes a descobrir o paraíso na terra para motociclistas: estradas vazias, perfeitamente asfaltadas e sinalizadas, curvas, curvas e mais curvas, com visual de montanha o tempo todo – boa parte com neve nos picos, mesmo no verão. E sem limites de velocidade na maior parte do tempo. É basicamente um parque de diversões para duas rodas.

Adotei como base a cidade de Murau, mas na verdade poderia ter ficado em qualquer uma das cidades da região. No inverno, hordas de turistas hospedam-se por ali para esquiar, mas no verão são as motos – e carros esportivos – que reinam no lugar. Há vários destinos turísticos próximos, como a cidade de Berchtesgaden, de onde Hitler sonhava com sua terra natal (a Áustria); ou o lago Hanstadt, muito procurado por turistas europeus. Porém o grande barato são as estradas de montanha, como a GrossGlockner, a Solkpass, a Nockalmstrasse e outras tantas. Imperdível para quem ama curvas!

RUMO À PRAIA

O tempo passava rápido – e cinco dias se foram vencendo as montanhas dos Alpes. Era hora então de buscar temperaturas mais altas e para isso segui rumo ao sul. O destino eram as praias e ilhas da Croácia, mas antes passei por Ljubljana, capital da Eslovênia.

A cidade é um verdadeiro achado. Dizem que Praga é uma versão menor e melhor de Paris. Neste caso, eu diria que Ljubljana é uma “mini” Praga, e chega a ser até mais charmosa. Tranquila e bela para passear de dia, à noite a cidade tem uma vida cultural riquíssima. E – ao contrário de Praga – quase nenhum turista atrapalhando…

A viagem para Pag – minha primeira parada na Croácia – demorou mais que o previsto por conta de uma obra que interrompeu a passagem por mais de uma hora – e debaixo de chuva! Foi um alívio ver o sol abrindo, o mar, e ainda tive tempo de chegar para ver o sol se pondo no Mar Adriático: uma vista ridiculamente bela. Desde que a Iugoslávia se desmanchou, a Croácia foi o país que talvez tenha mais crescido economicamente. É como a casa de praia de italianos, alemães e austríacos, e reserva ótimos hotéis, restaurantes e vida noturna agitada – no verão, diga-se.

Em todo o litoral da Croácia o mar é sempre verde, a estrada serpenteia as falésias e proporciona um roteiro de tirar o fôlego. Não vale a pena correr – melhor curtir a vista incrível. As praias são muito limpas, e, apesar de não possuírem areia fofa, como no Brasil, é possível relaxar numa cadeira de praia tranquilamente. De praia em praia, conheci praticamente todo o litoral em seis dias de viagem, passando por outra ilha famosa chamada Hvar (pronuncia-se “ruar”). As ligações do continente com as ilhas são feitas por modernos navios de turismo; existem muitas opções de horário e trecho – alguns vão até a Itália. Mas é importante checar os horários disponíveis, pois dependem da época do ano.

O destino final foi Drubovnik (também chamada Ragusa), uma cidade-estado, que rivalizava com Veneza pelo controle do comércio no Mar Adriático. Atravessar os muros da cidade velha é inacreditável: todas as construções de centenas de anos estão perfeitamente preservadas, incluindo 100% dos muros da cidade. É um verdadeiro mergulho na história da Europa medieval, numa cidade que sempre esteve na vanguarda. Para se ter uma ideia, desde 1120 Dubrovnik tem eleições diretas. Mesmo sendo um destino um pouco mais distante, sua visita é imprescindível para quem for à Croácia.

DESPEDIDA

Resolvi voltar pelo interior da Croácia, passando por um parque nacional chamado Plitvicka. A ideia era fazer um passeio no parque – muito bonito por sinal – e ir direto para a capital, Zagreb. Seria um dia puxado, mas acabou sendo ainda mais sofrido porque arrisquei um caminho pouco usual dentro do parque. Porém, uma passagem por baixo de uma grande cachoeira estava interrompida. Com isso anoiteceu e de repente me vi sozinho no escuro no meio do mato. Por sorte meu celular tinha bateria para iluminar o caminho, e consegui localizar a moto. Só o frio me castigou mais do que eu gostaria, até chegar à grande Zagreb, que surge com alguns pontos turísticos muito interessantes, mas sem o charme do litoral ou a magia de Dubrovnik.

De Zagreb, seriam apenas 350 km até Budapeste, para devolver a moto e chorar pelo fim da viagem.

O que pode parecer difícil e arriscado – viajar numa moto alugada por países e estradas desconhecidas, sem entender uma palavra da língua local ou de seus costumes – se mostrou na verdade uma grande diversão. Fui recebido com muito carinho e atenção em todos os lugares por onde passei. A maioria das pessoas falava inglês – mesmo que com alguma dificuldade – e se esforçava genuinamente em ajudar. Ouvi muitas histórias sobre as guerras, as diferenças culturais de cada região, e fiz vários novos amigos motociclistas. Tudo isso gastando menos do que uma viagem para um destino “tradicional” da Europa Ocidental. Vale a pena!

Confira a Parte 1 desta aventura.

*Matéria publicada na edição #177 da revista Moto Adventure.

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