Relato: A importância dos parceiros de estrada em viagens de moto

Situações extremas podem reforçar ainda mais os laços de amizade com nossos companheiros de viagem

Texto e fotos: Eduardo Wermelinger/Marcelo Resende

SEM FRONTEIRAS

Depois que saímos do Lodge no Okawango Delta, em Botswana em direção a Katima Mulillo, na Namíbia, não tínhamos outra escolha a não ser seguir para leste rumo à fronteira com a Zâmbia. Ali combinamos de atravessar um trecho off-road pelo território de Angola para explorar um pouco a região. Para isso, pilotamos através da rodovia Trans-Caprivi, onde esperávamos encontrar algum posto de combustível para reabastecer as motocicletas. Já tínhamos superado a margem de segurança de autonomia das BMW GSA, não por descuido, e sim, por mais uma vez não haver dados no mapa assinalando algum posto. A pane seca ficava mais evidente a cada metro.

Sabíamos que ainda tínhamos muitos quilômetros pela frente e, além da autonomia estar comprometida, poderíamos pegar o anoitecer na estrada, o que não seria nada aconselhável. Começamos a acelerar com cuidado e, depois de termos rodado duas horas, sempre a uns 70 km/hora, surgiu um posto de combustível. Ficamos aliviados: a partir dali restavam 130 km até Katima Mullilo. Veio uma sensação de tranquilidade e esperança de conseguirmos chegar ao nosso destino antes do anoitecer, pois, com mais combustível, o ritmo da viagem poderia aumentar.

SURPRESA

Já que ainda não tínhamos feito câmbio de moedas para o dólar namibiano, ao tentar abastecer, tivemos uma surpresa: no posto, os frentistas não aceitavam cartão de crédito ou outra moeda que não fosse da Namíbia. Próximo à bomba de abastecimento, havia três homens em um carro estacionado. Ao perceberem nossa dificuldade, em um tom sarcástico, disseram que poderiam nos ajudar cambiando dólares americanos por dólares namibianos. Mas não foi bem assim. O deságio de conversão era discrepante, em uma proporção que o nosso dólar americano passaria a valer 80% a menos. Vimo-nos em um momento difícil, não por causa do valor que aqueles homens queriam nos pagar pelos dólares americanos, mas pela atitude deles, que considerei extorsiva. Era uma questão de moral!

OPÇÕES

Comecei, então, a fazer cálculos: ainda restavam 120 km para nosso destino e o que tínhamos em dólar namibiano era o troco de um hotel que pagamos antes. O valor dava para pagar cinco litros de gasolina. Sugeri ao Marcelo proceder da seguinte forma: abasteceríamos minha motocicleta e, quando a moto dele parasse, eu o rebocaria. Pode parecer simples, mas, em plena selva africana, decisões assim têm que ser muito bem pensadas. Minha moto, com o maior consumo gerado pelo reboque, também poderia sofrer uma pane seca.

AMIZADE VERDADEIRA

Aí se manifestou a importância da verdadeira camaradagem em uma viagem de moto: mesmo discordando da minha decisão, Marcelo me apoiou. E vale lembrar: ele tinha plena certeza de que ficaria sem combustível em um dos lugares mais selvagens da África. Apesar de tudo, me apoiou e confiou em minhas atitudes. Coloquei, então, cinco litros de gasolina em minha moto e seguimos viagem. Rodamos 30 km e a moto de Marcelo parou. Conforme o combinado, eu a reboquei e andamos 100 km naquelas condições, sempre com cuidado, observando, sobretudo, o consumo. Não foi confortável rodar daquele jeito, pois, se minha moto parasse, estaríamos em uma grande enrascada e expostos a grandes perigos. Mas, pouco antes do anoitecer, alcançamos nosso destino. Estávamos cansados, mas satisfeitos por não termos feito o jogo de pessoas oportunistas e reforçado nossos laços de confiança e amizade.

*Matéria publicada na edição *162 da revista Moto Adventure.

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