Viagem de moto ao sertão do Piauí – Parte 2

Sertão do Piauí

Sob calor de 40 graus e grandes distâncias a ser percorridas, registros da presença humana de 50.000 anos, lugares de beleza sem igual e pessoas simples fazem a viagem ao sertão do Piauí valer qualquer sacrifício

Texto: Egon Jenckel/Rodrigo Tristão
Fotos: Rodrigo Tristão/Trinity  Ronzella

SERRA DAS CONFUSÕES

Com tempo parcialmente nublado, a meta nesse novo dia de viagem era percorrer cerca de 100 km, até a cidadezinha de Caracol, onde há um pequeno hotel e quatro pousadas bastante simples. Uma dessas opções é a pousada da Ednéia, um cantinho limpo e confortável para passar a noite. Caracol tem aproximadamente 10.000 habitantes e é a cidade base para conhecer o Parque Nacional da Serra das Confusões.

É o maior parque do nordeste do país. Foi criado em 1998 e seu objetivo é proteger o bioma da caatinga no Piauí. A beleza cênica das diversas formações geológicas e o afastamento do mundo urbanizado permitem a observação silenciosa das paredes da serra e da vegetação da caatinga se dissolvendo na linha do horizonte.

O nome do parque, segundo os moradores, decorre da confusão provocada pelas diferentes luzes do dia nas paredes vermelhas e brancas da serra. Dizem que a vista fica confusa.

Andar de moto contemplando esse cenário, enquanto se pilota num labirinto de rochas e pedras na descida da serra, é um privilégio confortante. A sensação de plenitude lembra bem o que significa viajar de motocicleta. É uma mistura de beleza, aventura, paz e liberdade.

TERRA BATIDA E AREIÃO

Para entrar no Parque das Confusões também é necessário guia, mas os que operam a partir de Caracol são mais bem preparados. Assim como aconteceu no Parque da Capivara, em Caracol os guias também têm suas motos. O caminho de terra que leva ao parque deve ser feito com cuidado. Há alternância de terra batida e areião.

Ao atingir o mirante, dá para contemplar as formações da serra, fazer caminhadas na rocha e vislumbrar as distantes linhas do horizonte. Algumas cenas da novela “Gabriela”, protagonizadas pela atriz Juliana Paes, foram filmadas nesse local.

A descida da serra, logo após o mirante, é asfaltada. Antes, quando o caminho era de terra e pedra, era um trajeto de dificuldade extrema.

Depois de conhecer o parque, deve-se voltar a Caracol e então começar trilhar o caminho de volta.

GENTE DE VERDADE

Ao cruzar por diversas vilas e conversar com gente simples da terra, não dá para deixar de fazer um paralelo com a vida das grandes cidades. A solidariedade das pessoas num lugar em que a natureza desafia a todo momento é muito maior. Muitas pessoas sempre estavam prontas para ajudar e se despediam com um aconchegante “Que Deus te abençoe”. É outro mundo.

Vivendo tudo isso e muita estrada, o primeiro pernoite desta volta aconteceu em Bom Jesus, no Piauí, e na tarde seguinte surgiu Luis Eduardo Magalhães, na Bahia.

PARADA ESTRATÉGICA

Em Luis Eduardo Magalhães surge a Cachoeira do Acaba Vida, um lugar deslumbrante. Sua queda tem aproximadamente 40 metros de altura e o barulho estrondoso do rio despencando dá uma amostra da magia do local. Ela fica a aproximadamente 50 km do centro de Luis Eduardo Magalhães, com um pequeno trecho de terra, que não chega a 10 km.

Tanto na parte de cima da cachoeira como na parte baixa há locais em que se pode nadar com segurança. É claro que a prudência é sempre bem-vinda. Vale a pena curtir o lugar. Já em novo dia de viagem a cidade de Cristalina, em Goiás, será um novo ponto de pernoite. O amanhecer seguinte marcará o trecho que levará de volta a São Paulo.

SURPRESAS

Ao longo desta viagem, em alguns momentos em que se parava para fotografar na estrada, o asfalto estava praticamente derretendo. Ao apoiar a moto sobre o pezinho, ela começava a se inclinar e o pezinho começava a furar o asfalto.

O interior do Piauí surge com longos trechos de planícies, mas também é embelezado por muitas serras e chapadas. Não é possível captar imagens que possam mostrar fielmente as belezas do lugar. Tampouco é possível descrever com exatidão as sensações provocadas por essas experiências. De qualquer modo, enfrentar o calor insano para conhecer esses recantos é um objetivo nobre.

A natureza rude parece lapidar o coração dos sertanejos. Ao mesmo tempo em que os desafios do sertão os transformam em homens fortes, também os transformam em exemplo de generosidade. Vivem num mundo em que a ajuda mútua é condição de sobrevivência. Conviver com eles é uma experiência gratificante.

Percorrer de moto essas estradas do Piauí traz aprendizado humano e uma percepção diferente das forças da natureza.

As lembranças que voltam na bagagem de uma jornada como esta deixam a alma de motociclista mais feliz e trazem lembranças que dão novo empurrão para se pensar num próximo destino. E quem viaja de moto sabe que a aventura nunca acaba!

Confira a Parte 1 dessa aventura.

RAIO X DA VIAGEM

Moto: Yamaha XT660Z Ténéré – performance de 19 km/litro a 120 km/h

Quilometragem total percorrida: 5.300 km

Valores totais de gasolina: R$ 1.060,00

O preço médio das refeições foi de R$ 25,00.

Guia no P.N. da Serra da Capivara: R$ 120,00

Guia no P.N. da Serra das Confusões: R$ 90,00

Hospedagem em média: R$ 120,00 por noite.

Em Caracol foi de R$ 60,00 por noite.

*Matéria publicada na edição #183 da revista Moto Adventure.

DEIXE UMA RESPOSTA