Viagem de moto de São Paulo a Salvador

Nos 2.200 km entre Salvador (BA) e São Paulo (SP), um viajante encontrou belas paisagens, rotas on e off-road e muita diversão

Texto e fotos: Thales Monteiro

À s vezes, programamos uma viagem durante meses. Buscamos os melhores destinos e pousadas, as estradas mais cênicas e as paisagens mais incríveis. Diante das obrigações e compromissos cotidianos, temos que “pensar” as nossas férias com antecedência, para aproveitá-las ao máximo. Entretanto, o relato a seguir descreve uma viagem que surgiu “de repente”, sem grandes pré-levantamentos – e que, felizmente, deu “muito” certo. Foram percorridos 2.200 km entre Salvador (BA) e São Paulo (SP). No caminho, lindas paisagens, rotas off-road, pousadas e excelente comida…

LONGA DISTÂNCIA

Eu estava em São Paulo, pouco antes do Natal, quando recebi a ligação de amigos, me convidando para um fim de ano em Salvador (BA). Pensei: “por que não?” Contudo, combinara passar o Natal com a família e, por isso, teria apenas dois dias para chegar à capital baiana na data combinada. Uma vez que, para quem ama viagens de moto, avião é sempre a última opção – e que a ideia de percorrer grandes quilometragens em pouco tempo, apesar de perigosa, é extremamente atraente –, subi na Triumph Tiger 800 XC às 05h00 e, às 19h00, estava em Itaobim (MG). Exatos 1.200 km marcaram aquele dia de boas estradas e pouca chuva. No dia seguinte, percorri mais 790 km até Salvador.

COSTA DO DESCOBRIMENTO

Após cinco dias curtindo a cidade dos soteropolitanos, era hora de partir. Saí pela Ilha de Itaparica, cruzando a Baía de Todos os Santos por balsa – ou “ferry”, como a chamam os baianos. Logo, estava em uma estrada ruim e esburacada, em direção à BR 101. A ideia era seguir pela estrada de Canavieiras e passar por Valença, Camamu, Itacaré e Ilhéus. Porém, já passeara por ali, alguns anos atrás. E, em uma conversa na balsa, o nome “costa do descobrimento” foi mencionado.

Sendo assim, segui direto para o Parque Nacional e Histórico do Monte Pascoal, que fica próximo das cidades baianas de Itamaraju e Caraíva. Naquele dia, foram percorridos cerca de 700 km.

PARQUE NACIONAL E HISTÓRICO DO MONTE PASCOAL

Para visitar o parque, é necessário contratar um guia pataxó, na portaria. As principais atrações são: as trilhas e a vivências junto aos índios Pataxós. O lugar é cheio de árvores centenárias e histórias muito bacanas. Na trilha mais longa, é possível chegar ao topo do Monte Pascoal.  Também é possível acampar e realizar atividades típicas da tribo local, como: dança, competição de arco e flecha e produção de artesanato. Para agendar visitas e obter mais informações, deve-se ligar para: (73) 9926 4525 (e conversar com os guias Hayo Pataxó e Toho Pataxó). Eles são educados e bem-informados. Também há boas opções de hospedagem em Itamarajú e Caraíva.

NA ESTRADA

É bem verdade que as estradas brasileiras não são as mais seguras e conservadas. Assim, a atenção nas “BRs” deve ser constante. Caminhões, carros, tratores, carroças e motos dividem o mesmo espaço. Todos querendo chegar rápido e desviando-se de buracos, animais na pista e manchas de óleo. Acidentes são frequentes. Porém, nossas estradas são cheias de lugares a serem descobertos. E sempre há uma boa alma para nos ajudar nas horas de aperto!

Entre Itaparica e a BR 101, havia um trecho com muitos buracos. Então, subi nas pedaleiras e deixei a XC cuidar do resto. Mas, após tanto “pula-pula” senti a fita que prendia uma das bolsas bater nas minhas costas. Parei imediatamente. O saco estanque se rasgara e todo o seu conteúdo caíra.  Pensei em fazer o retorno e procurar o que tinha ficado para trás, quando avistei uma caminhonete piscando os faróis. O motorista passava no sentido contrário no momento em que a bolsa estourou. Ele parou, recolheu meus pertences, fez o retorno e veio atrás de mim. Quando me encontrou, devolveu-me tudo, desejou-me boa viagem, entrou no carro e foi embora. Fiquei um tempo parado, pensando no quanto aquele senhor fora cordial e solidário, mesmo sem me conhecer e estando em um local considerado “perigoso”.

ROTAS OFF-ROAD NA PEDRA AZUL

Logo após Vitória (ES), em direção a Vila Velha (ES), peguei uma saída à direita (BR 262) para a Pedra Azul. A estrada era boa. Uma serrinha cheia de curvas e com asfalto bom. Contudo, bateu a vontade de percorrer aquela região por trechos não asfaltados. Parei a moto – próximo de Viana – para tomar uma água de coco à beira da pista. Abri o mapa e perguntei ao vendedor se ele conhecia algum caminho de terra para Venda Nova do Imigrante. Fui informado de que existia um acesso até Marechal Floriano, segui as indicações e 40 km depois, estava em Marechal. Parei e perguntei novamente sobre os caminhos de terra e, de Marechal Floriano, fui para Paraju, onde pernoitei no único hotel local. De lá, segui por Alto Paraju, São Rafael, Cristo Rei e Aracê. Tudo por estrada de chão. Foram aproximadamente 50 km, passando por trechos da Rota Imperial. Durante todo o percurso, a paisagem era composta por sítios agrícolas que abriam suas porteiras para os turistas colherem verduras e frutas na hora, restaurantes rurais, vilas de colonização europeia e pousadas charmosas.

Em Aracê (Pedra Azul), encontramos a Rota do Lagarto. Caminho turístico que passa no sopé da Pedra Azul e é cheio de pousadas e bons restaurante. Entre estes, dois se destacam: Delícias de Portugal (perto da pousada Vale da Mata / 27- 3248 2252), com um bacalhau delicioso, e o Don Due Lorenzoni (27-3248-1352), que mistura comida italiana com temperos da serra Capixaba. Há muitas opções de hotéis e pousadas. A Pousada Aracê foi a opção escolhida. Chalés charmosos, limpos, preço justo e ótimo café da manhã. Reservas podem ser feitas pelo telefone (27) 3248-1386 ou pelo site: pousadaarace.com.br

Após dois dias na região, saí de Pedra Azul e continuei por cidades capixabas, como Santa Maria de Jetibá, Tijuco Preto, Rio Ponte e Melgaço, até Domingos Martins. Neste trecho, foram 70 km, sendo 30 de asfalto. De Domingos Martins, peguei a BR 262 até Vila Velha e fui dormir em Macaé (RJ), 350 km depois. De Macaé, foram 620 km até São Paulo (SP).

TRIUMPH  TIGER 800XC

Durante toda a viagem e em todos os terrenos, me senti seguro pilotando este modelo. A roda aro 21 na dianteira, juntamente com uma suspensão muito eficaz, trazia muita estabilidade. O motor de três cilindros é rápido, liso e transmite conforto. Não era necessário trocar de marcha o tempo todo e o computador de bordo – completíssimo – contribuiu para a navegação. A autonomia ficou na média de 16 km/l. Mesmo abastecendo em postos sem bandeira, a moto se saiu muito bem (eu apenas lubrificava a corrente a cada 500 km, nada mais). Fiz a escolha certa!

*Matéria publicada na edição #159 da revista Moto Adventure.

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