Viagem de moto ao sertão do Piauí – Parte 1

Sertão do Piauí

Sob calor de 40 graus e grandes distâncias a ser percorridas, registros da presença humana de 50.000 anos, lugares de beleza sem igual e pessoas simples fazem a viagem ao sertão do Piauí valer qualquer sacrifício

Texto: Egon Jenckel/Rodrigo Tristão
Fotos: Rodrigo Tristão/Trinity  Ronzella

A caatinga sobrevive a temperaturas constantes acima dos 40 graus Celsius. Sua vegetação espinhosa, tal como lanças em armadilhas, preenche o horizonte recortado por chapadas arrebatadoras. Quem desafia seus caminhos e anda por lá se vê encharcado de suor, tem a pele queimada pelo sol e sente o raciocínio embaçado pelo calor. Sob esse cenário, vendo carcaças de animais mortos pelo caminho, fica fácil imaginar que não é possível existir vida humana num lugar como aquele. Mas, como demonstrará esse relato, a região é fantástica para uma verdadeira aventura.

NO SERTÃO DO PIAUÍ

Num refúgio tórrido do sertão do Piauí, duas serras cinematográficas exibem a força de uma beleza imensurável. A Serra da Capivara, além de sua formosura, é abrigo de sítios arqueológicos que indicam existência humana de 50 mil anos atrás. Já a Serra das Confusões tem uma estética peculiar, com formações montanhosas gigantescas em formatos ovalados. Uma beleza rara. Mas vale dizer: o maior desafio para conhecer esses lugares é o calor.

O Parque Nacional Serra da Capivara envolve quatro municípios. São Raimundo Nonato é um deles e pode ser usado como referência de distância. Assim, São Raimundo Nonato está a 522 km de Teresina, a capital do Estado, 820 km de Fortaleza (CE), 811 km de Salvador (BA), 1.179 km de Brasília (DF), 1.612 km de Belo Horizonte (MG), 1.970 km do Rio de Janeiro (RJ) e 2.154 km de São Paulo (SP).

NA ESTRADA

A moto utilizada nessa viagem foi a Yamaha XT660Z Ténéré, excelente para viagens longas que mesclam asfalto e alguns trechos de terra. A partir de São Paulo (SP), o primeiro trecho da viagem teve como destino Cristalina, em Goiás, onde vale a pena reservar um dia para visitar algumas cachoeiras, como a do Arrojado e a das Lajes. A viagem continuou para o norte, por aproximadamente 660 km, até alcançar a cidade baiana de Luis Eduardo Magalhães, onde há uma cachoeira lindíssima. Depois foram mais 550 km para pernoitar em Bom Jesus, já no Piauí. Finalmente, depois de percorrer 400 km, surgirá São Raimundo Nonato, cidade base para conhecer o Parque Nacional da Serra da Capivara.

ATENÇÃO

Em uma viagem como esta, além das distâncias, surgem outros desafios e é necessário estar com bom preparo físico, pois o calor extremo vai pouco a pouco desgastando o corpo, que não raramente tem de suportar temperaturas de aproximadamente 45 graus. Literalmente, seu corpo começa a secar e, para prosseguir viagem, é de extrema importância fazer pausas constantes para hidratação e alimentação, de preferência a cada 75 minutos, mais ou menos. A cidade de São Raimundo não é muito bonita, nem tem uma infraestrutura ideal para visitantes. Mas oferece um hotel principal e duas pousadas. Dá para ficar bem acomodado, mas sem muito charme. Faça um pequeno tour pela cidade e vá descansar, pois uma grande aventura acontecerá nos dias seguintes.

PARQUE DA SERRA DA CAPIVARA

O Parque Nacional da Serra da Capivara foi criado em 1979. A Unesco o declarou patrimônio cultural da humanidade. Em seu território está a maior concentração de sítios arqueológicos das Américas e onde há a maior quantidade de pinturas rupestres do mundo.

A sensação de percorrer suas trilhas, sabendo que no período pré-histórico havia seres humanos circulando pelo mesmo lugar é estimulante. Ficar em silêncio, parado ao lado dos grandes paredões rochosos, desenhados pelo homem antigo, é uma experiência rica, que provoca boas reflexões.

Ainda que não houvesse o atrativo arqueológico, a Serra da Capivara é de um encanto sublime. Suas escarpas possuem lindos formatos e enchem os olhos de alegria, principalmente quando o sol bate nas últimas horas do dia. Existem trilhas com visuais espetaculares! Mas vale citar: não é permitido rodar sozinho pelo parque e você é obrigado a fazer o passeio com um guia credenciado. Na pequena vila que antecede o parque você pode contratar um. Alguns deles têm suas próprias motos, mas é necessário estar atento, pois podem surgir alguns guias menos preparados. Independente de qualquer coisa, você terá a sensação de estar em uma sauna. O suor escorre com abundância durante as caminhadas. Mas tudo isso compensa. Avistar os paredões da serra é marcante! Ali dá para ter uma boa impressão do que é a caatinga, a vastidão impiedosa que não perdoa erros quando a vida está em jogo.

Cactos margeiam as trilhas e as escarpas das montanhas se lançam ao céu dando uma amostra maravilhosa da força da natureza.

Depois de fazer algumas trilhas na parte da manhã, é possível almoçar numa fazenda próxima e deixar o tempo passar um pouco, para o calor esmorecer. A parte da tarde marca a volta às trilhas, já num horário melhor, quando as luzes começam a ficar mais bonitas.

Chegamos então a um dos símbolos do parque: a famosa Pedra Furada. Nesse dia de viagem demos sorte, pois lá chegamos no exato momento em que a luz do sol começava a deslizar pela rocha até desaparecer, num show arrebatador que dura aproximadamente meia hora.

Assim, a energia para voltar a São Raimundo Nonato foi renovada. Tinha valido a pena percorrer tanta distância de moto.

Confira a Parte 2 dessa aventura.

RAIO X DA VIAGEM

Moto: Yamaha XT660Z Ténéré – performance de 19 km/litro a 120 km/h

Quilometragem total percorrida: 5.300 km

Valores totais de gasolina: R$ 1.060,00

O preço médio das refeições foi de R$ 25,00.

Guia no P.N. da Serra da Capivara: R$ 120,00

Guia no P.N. da Serra das Confusões: R$ 90,00

Hospedagem em média: R$ 120,00 por noite.

Em Caracol foi de R$ 60,00 por noite.

*Matéria publicada na edição #183 da revista Moto Adventure.

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