Trips & Tips – Viagem solo

BMW K 1600 GT

Encarar a estrada sozinho pode ser uma opção e tanto de lazer aventureiro

Texto: Equipe Trips & Tips e Nenad Djordjevic
Fotos: Arquivo

Viajar de moto se tornou muito menos complicado atualmente, em função da gama de recursos disponíveis para facilitar este processo. Com GPS, celulares inteligentes e Internet, ficou mais fácil encarar os desafios da estrada, seja sozinho, seja com um grupo de amigos. Mesmo assim, alguns motociclistas ainda têm certas restrições quanto a uma aventura solo. Não se sinta obrigado a viajar em grupo apenas por receio de ir sozinho – nem encare uma viagem solo como um ato de egoísmo. Trata-se de uma experiência distinta em termos de sensações, sendo, também, uma oportunidade de ampliar seu autoconhecimento.

É comum que as viagens de moto mais longas – como uma “volta ao mundo”, ou mesmo “Alaska x Ushuaia” – sejam, em sua maioria, do tipo “solo”. Muito provavelmente, a maior dificuldade seria encontrar um parceiro de viagem com tempo e orçamento disponíveis. Mas ninguém se atiraria a uma aventura de 20 ou 30 mil km sozinho, se não gostasse. Não faça uma viagem solo apenas por falta de opção ou de um parceiro, mas sim, por gostar da situação. Do contrário, a viagem será um martírio. Não valerá a pena.

Nas viagens solo, há duas possibilidades extremas: adorar a situação ou sentir um profundo desprazer em pegar a estrada só. Faça um exame de consciência antes de lançar-se a uma grande aventura. A palavra final deve ser dada por sua consciência, dizendo-lhe, convictamente, que você está preparado para isto. Em caso de dúvida, não vá. Seu ego não pode estar em primeiro lugar em uma aventura assim. Seja prudente e conheça seus limites antes e durante a viagem.

O perfil do motociclista que viaja só, geralmente, é o de alguém mais desbravador e aventureiro. Mas sem que isto seja sinônimo de “irresponsável”, mas sim, consciente de seus limites e ansioso por conhecer pessoas, culturas e lugares diferentes. Uma viagem solo combina muito com quem gosta de “engolir” quilômetros, rodar por longos períodos e passar por lugares variados. A falta de um companheiro de viagem nos deixa mais atentos ao que acontece ao redor. E nos aproxima mais das pessoas e culturas dos locais por onde passamos.

Em uma viagem solo, a pilotagem defensiva deve ser levada ao extremo. Você não pode errar – cair, então, é inconcebível! Seguindo este raciocínio, o planejamento fica em evidência – quanto mais informações você reunir sobre o itinerário, em melhor posição estará para decidir sobre coisas que, eventualmente, poderiam minar sua segurança.

Entre as vantagens de uma viagem solo, a principal é a concentração exclusiva na estrada, sem a necessidade de se preocupar com parceiros de viagem. Em todos os instantes, sua concentração estará sintonizada entre a pilotagem e o cenário ao redor. Você faz seu ritmo naturalmente, sem se preocupar com ultrapassagens coletivas, ir ao encontro de alguém ou esperar seus companheiros. Sem dúvida, a viagem solo tem um “rendimento” diário superior ao de uma jornada em grupo (por motivos óbvios: apenas uma moto para abastecer, só um piloto para se alimentar etc.).

Um dos problemas desse tipo de aventura pode ser a dificuldade na tomada de decisões em caso de imprevistos. O diferencial de uma aventura solo é ter que decidir tudo sozinho – sem contar com a opinião de um parceiro de viagem. Costuma-se dizer que, “quando tudo dá certo, é ótimo viajar sozinho; quando algo dá errado, é melhor estar acompanhado”. Uma vez que você estará sozinho, escolha bem onde estacionar a moto, mantendo-a sempre ao alcance dos olhos. Outro ponto delicado: atente à sua saúde! Necessidades específicas (como alergias, uso de medicações controladas, problemas cardíacos etc.) devem ser consideradas com responsabilidade antes de uma aventura solitária.

Ainda durante o planejamento, analise se, em outras situações, você já esteve tanto tempo longe da família ou de sua rotina. Os primeiros dias são naturalmente agradáveis, mas relatos apontam que, após 15 dias de viagem, fatores psicológicos (saudade e insegurança) começam a se fazer notar de modo mais contundente. A maioria das pessoas à nossa volta – familiares, amigos etc. – quase sempre é contrária a este tipo de aventura; sempre evidenciam os aspectos ruins e possíveis imprevistos. É claro que, como em todas as situações cotidianas, existem prós e contras. Acreditamos que o mais importante é tranquilizar essas pessoas, comunicando-lhes o exaustivo planejamento que você fez para a jornada. Isto lhes permitirá saber que nada foi feito de maneira impulsiva ou irresponsável. Sem dúvida, isto será outro desafio a ser superado por você.

Em uma viagem assim, nosso relacionamento com a moto é levado ao extremo. É preciso confiar na máquina e ter um bom conhecimento da mesma. Ainda que você não entenda muito de mecânica, recomendamos uma revisão detalhada e uma conversa franca com seu mecânico de confiança. Ele o orientará sobre os cuidados e a utilização correta da moto (e até como efetuar pequenos reparos).

Recomendamos que você adote uma postura conservadora para a pilotagem – estando só, a atenção deve ser redobrada quanto a condições adversas da via, do clima, do trânsito etc. Pilotar moderadamente, jamais exigindo muito da moto, também lhe proporcionará um deslocamento seguro, aumentando muito as chances de sucesso na viagem. Não se preocupe em levar peças de reposição se não tem conhecimento para trocá-las. Sugerimos apenas um kit de manutenção de pneus e, ao menos, as ferramentas que vêm junto com o kit básico da moto.

Torne-se visível no meio em que transita – um grupo é mais fácil de ser identificado do que uma única motocicleta. Sempre trafegue com as luzes acesas, independentemente de ser dia ou noite. Posicione-se na via de modo a ficar em evidência e evite transitar escondido por outro veículo. Use recursos extras (como etiquetas reflexivas) para aumentar a capacidade de ser identificado pelos demais usuários da via. Se possível, evite pilotar à noite.

Outros cuidados também são relevantes. Por exemplo: em conversas com estranhos, evite dar informações sobre sua rota ou detalhes sobre a viagem. Uma “mentirinha”, nessas horas, pode deixá-lo menos vulnerável.

Esteja sempre “bem-acompanhado por você mesmo”. Sua autoestima é a melhor parceira de viagem. Nas dificuldades, procure sempre o lado positivo, concentrando sua atenção na solução dos problemas apresentados. Ficar se lamentando por uma eventual falta de sorte não o levará a lugar algum. Ouça sua voz interior e respeite seus receios. Eles podem ser manifestações de seu instinto de sobrevivência.

E não se esqueça de levar um tripé e uma câmera. Ela será a única testemunha de suas aventuras, caso alguém duvide de seus relatos. Boa viagem!

*Matéria publicada na edição #143 da revista Moto Adventure.

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