Integrantes do moto clube Eu, Gata e Cão Fiel (da cidade de Macaé, no Rio de Janeiro) encararam uma incrível jornada pelas terras do Marrocos

TEXTO: PAULO GOMIDE

FOTOS: PAULO GOMIDE E JOÃO GUILHERME CUNHA

“A felicidade não está no fim da jornada, mas em cada curva do caminho que percorremos para encontrá-la”. A frase é de Marta Suplicy, mas se encaixa perfeitamente nesta saga. O Marrocos é um país árabe situado na África Setentrional, com área territorial de 446.500 km² e uma população de quase 33 milhões de pessoas. O sistema político é monárquico, liderado pelo atual Rei Mohamed VI. Assim como outras nações árabes ao norte da África, o Marrocos também foi atingido pela Primavera Árabe (uma onda de protestos e revoluções que marcou a maior parte dos países da região a partir de 2011).

O roteiro, bastante complexo, fez com que a adaptação de nosso grupo fosse maior do que o esperado. Além de nossos componentes, amigos do MC Tubarões do Asfalto, de Cabo Frio, e Moto Grupo V2 e Moto Clube Bodes do Asfalto, de Macaé, também aderiram ao passeio. Desse modo, foram locadas 14 motos, sendo 13 BMW GS1200 ADV e uma BMW GS800, além de seis automóveis BMW e um Jeep. A aventura começou em Lisboa (Portugal), onde as motos – alugadas na BOMCAR (https://www.bomcar.pt/) – já nos aguardavam no pátio do Marriott Hotel.

1º DIA – LISBOA: após a recepção, almoçamos perto do hotel e, à noite, fomos recepcionados na Casa do Bacalhau, restaurante famoso da região. No cardápio, as famosas pataniscas de bacalhau, além de uma variedade de pratos de bacalhau e tradicionais vinhos portugueses. Ali começou nossa aventura motociclística, etílica e gastronômica.

2º dia – LISBOA / ÉVORA / SEVILHA: o primeiro dia com as motos já foi conturbado! A partida estava marcada para as 8h, mas nosso guia, Miguel Bernardo, foi atropelado quando se dirigia ao hotel. Deixamos Lisboa somente após as 11h30, seguindo pela Ponte Vasco da Gama em direção à Évora para o almoço e um city tour. Évora fica no Alentejo e é uma cidade medieval muito bem conservada, cujo destaque é o templo Romano de Diana. Para nosso azar, este achava-se em reforma. Porém, ainda assim, o passeio foi proveitoso. Em consequência de nosso atraso, chegamos a Sevilha tarde. Tínhamos  reservas no El Pátio Sevillano, onde se realiza um espetáculo com uma visão fascinante do folclore andaluz e de sua cultura, com música flamenca e sapateado.  

3º DIA – SEVILHA / TARIFA / TANGER: pela manhã, fizemos um tour pela belíssima Sevilha. Centro financeiro e capital da Andaluzia, ao sul da Espanha, trata-se de uma cidade grandiosa e histórica. Fenícios, gregos, romanos e árabes já viveram ali, atraídos por suas riquezas minerais e terras férteis às margens do rio Guadalquivir, de onde Cristóvão Colombo partiu para a América (e que, hoje, corta a metrópole moderna). Apesar do agito, Sevilha mantém uma atmosfera interiorana, com um centro antigo, praças, ruelas, vilas e arquitetura de época. Além da beleza, a cidade representa bem o espírito festivo espanhol. Às 13h partimos para Tarifa, cidade e sede de município da Espanha, na província espanhola de Cádis, comunidade autônoma da Andaluzia.

Em Tarifa encontramos a Punta de Tarifa, ou Ilha de las Palomas, o ponto mais meridional da Europa continental. Fortes ventos vindos do Atlântico atraem surfistas, praticantes de windsurf e kite, que dão a esta antiga cidade uma imagem internacional e descontraída. A cidade foi a última parada na Espanha antes do Marrocos. Em nossa chegada a Tarifa, o amigo Mauro sentiu muita dificuldade com os ventos, principalmente por estar com uma moto bem maior que a sua. Na estrada, ele reduziu a velocidade após levar uma rajada de vento em uma curva e eu o acompanhei até que chegássemos ao destino.

A maior dificuldade seria a entrada dos veículos em Tanger. Um processo bastante burocrático, no qual um despachante nos ajudou com os procedimentos. Preenchemos uma “Declaração de Admissão Temporária no Marrocos” do veículo, documento mais importante para transitar e, posteriormente, deixar o país. Nem pensem em perdê-lo! Enquanto isso, policiais conduziam cães farejadores e um dos animais acabou mordendo o banco da moto de Ricardo, o que causou um prejuízo de 270 Euros. Toda essa burocracia demorou aproximadamente 1h30. Tanger, como todas as grandes cidades marroquinas, é muito organizada e possui uma bela arquitetura. Mas, apesar de receber muitos turistas, oferece serviços ruins. Falta de toalhas em banheiros, bebidas sem gelo e atendimento insatisfatório. Assim, procure não se aborrecer com esses detalhes e aproveite suas belezas.

4º DIA – TANGER / RABAT / CASABLANCA: neste dia, contamos com o apoio de Hassan como guia. Ele é um marroquino que já trabalha com turismo há 27 anos. Seria uma grande ajuda, principalmente pela dificuldade da língua, pois, no interior, raramente se fala outro idioma além do Francês e do Árabe. Direção Casablanca: após rodar 45 km, chegamos à cidade de Asilah. No passado, foi a cidade portuguesa de Arzila, conquistada em 1471 durante o reinado de Afonso V. Para defendê-la, foi construída uma praça-forte que, depois, viria a ser ampliada e reforçada em 1509, com cerca amuralhada do seu porto. Os objetivos para Arzila foram atingidos em poucos anos: torná-la um entreposto comercial e estratégico essencial na rota do ouro do Saara. Seguimos viagem para Rabah, capital burocrática do reino. Rabat também é uma das cidades imperiais e seu centro histórico foi classificado como Patrimônio da Humanidade.

Visitamos os exteriores do Palácio Real (a residência oficial do Rei do Marrocos) e as ruínas de Chellah, um sítio arqueológico onde se encontram ruínas da cidade romana de Sala Colónia e uma necrópole medieval merínida, situada nos subúrbios de Rabat. É o assentamento humano mais antigo da área de Rabat e Salé. Depois, seguimos para Casablanca. O trecho de chegada lembra muito a Avenida Brasil, no Rio de Janeiro: é muito comprido, com prédios em seu entorno, e leva-se uma eternidade para chegar ao centro. Nosso hotel, o Casablanca Le Lido Thalasso & Spa, ficava à beira da praia e ali notamos uma característica de grande parte do litoral marroquino: uma neblina espessa cobrindo o céu do litoral atlântico, sobretudo durante a manhã.

5º DIA – CASABLANCA / ESSAOUIRA: Casablanca é a maior cidade do Marrocos, com cerca de 5,5 milhões de habitantes. Trata-se do maior porto e centro industrial e comercial do país. Apesar disso, o lugar é mais conhecido como o cenário do filme “Casablanca” (que, por curiosidade, sequer foi rodado lá!), que narra um romance acontecido em meio à Segunda Guerra, quando a cidade era um ponto estratégico de tráfego para a entrada na Europa. Pela manhã, visitamos a belíssima Mesquita Hassan II, o segundo maior templo religioso do mundo (perde apenas para a mesquita de Meca).

Esta é uma das poucas mesquitas do mundo muçulmano que permite a visita de turistas não muçulmanos (embora existam algumas áreas que só podem ser frequentadas por eles). Partimos, então, para a estrada costeira, visitando a cidade de El Jadida, onde fica a antiga Fortaleza de Marzagão, fundada em 1541 e considerada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO. De todas as fortalezas que os portugueses edificaram no Marrocos, esta é a mais bem conservada. Prosseguimos em direção a Qualidia. Já à noite, chegamos a Essaouira, a “pérola” da Costa Atlântica, e nos hospedamos no Atlas Essaouira.

6º DIA – ESSAOUIRA / MARRAKECH: neste dia, o trecho de viagem seria curto. Apenas 183 km nos separavam de Marrakech. Com incontáveis monumentos considerados Patrimônios da Humanidade, é um dos melhores destinos de viagem do mundo. Chegamos ao nosso hotel, almoçamos e saímos para conhecer seus encantos. Depois, partimos para o Praça de Jemma El Fna, próximo a Medina, onde mercadores oferecem de tudo: óleos de argan, pashminas, pintura de hena nas mãos, prataria, vasos de cerâmica, vestuários típicos, bolsas, quadros e tudo o que se possa imaginar. Eles disputam sua atenção, no incansável objetivo de vender algo aos turistas. O mais interessante é que os preços culturalmente são negociáveis e o comércio é feito majoritariamente por homens (com exceção da pintura de hena, feita por mulheres).

7º DIA – MARRAKECH / ZAGORA: neste dia, o trecho seria mais pesado. Para dormirmos duas noites no deserto, dobramos o caminho, além de enfrentarmos o Alto Atlas, a maior cordilheira ao Norte de África. Estende-se por cerca de 2.400 km e atravessa o Marrocos, a Argélia e a Tunísia. O ponto mais alto ultrapassa os 4.000 metros. A cordilheira, ao atravessar o Marrocos, separa o oceano do deserto, a zona mais rica da mais pobre. A própria paisagem e vegetação são reflexos desta dicotomia. Foi um dia de muitas dificuldades: ao iniciarmos a subida do Atlas, começou a chover e, como viajo com o casaco de verão, isto atrapalhou um pouco. Chegamos à parte mais alta da montanha, que lembrava os Andes Peruanos. Ficamos eufóricos com o visual, de uma beleza rara. No caminho, ainda passaríamos por Quarzazate, que fica a cerca de 200 km de Marrakech. Passando pelo maior oásis do Marrocos, chegamos, à tardinha, à Zagora, conhecida como a cidade dos homens azuis (tuaregues).

8º DIA – ZAGORA / MERZOUGA: dedicamos esta data ao Deserto do Saara. Já perto de Agdz, é impressionante sair da montanha e ver o primeiro dos oásis do Vale do Draa, com milhares de palmeiras que contribuem para que esta seja a “região das tâmaras”. Ao chegarmos, tudo o que vimos foram dunas moldadas pelo vento. Além do calor, o terreno e as motos pesadas (BMW GS1200ADV, com três bauletos e garupas) aumentavam ainda mais a dificuldade do trajeto.

9º DIA – MERZOUGA / ERFOUD: as evidências fósseis mais antigas de representantes da espécie humana foram descobertas por cientistas no Marrocos e revelaram que o Homo Sapiens já se espalhava por toda a África há 300 mil anos. Marrocos é conhecido mundialmente pela grande e variada quantidade de fósseis. Antes de nosso destino neste dia, visitamos, em Erfoud, uma grande loja de artigos relacionados à arqueologia. Ali, uma das meninas teve desidratação, ocasionada pelas comidas picantes e pelo intenso calor. Logo, chegamos ao outro lado das dunas de Merzouga, onde há um acampamento que permite ao viajante pernoitar no deserto. As Bivouac.Dormir, no Bivouac, são uma experiência obrigatória. Do lado de fora das tendas, existe um acesso para banheiros masculinos e femininos. O problema é que, à meia-noite, todos os geradores são desligados. Portanto, de madrugada, tivemos que usar as lanternas dos celulares para acessar o toalete. As noites são animadas e vale a pena acordar cedo para assistir o nascer do sol. Também é recomendado chegar ao final da tarde e dar uma volta pelas dunas em um dromedário.  

Não perca, na próxima edição de Moto Adventure, a segunda parte desta aventura.

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