Confira a segunda parte da emocionante viagem que nossa colaboradora Rosa Freitag fez por cidades de países vizinhos

 TEXTO E FOTOS: ROSA FREITAG

Em janeiro deste ano, minhas duas motos BMW foram confiscadas na Bolívia. Isto foi um problema, mas não pôs fim à viagem que eu fazia com duas amigas inglesas. Elas ficaram sem moto e eu fiquei com a Suzuki DRZ400. As meninas seguiram viagem de ônibus e avião, cumprindo mais alguns marcos do nosso roteiro: acompanharam o Rally Dakar, em Pisco, o último na América do Sul (já está confirmado o Dakar na Arábia Saudita pelas próximas cinco edições) e conheceram Cusco e Machu Picchu e um pouco do clima da Amazônia em Puerto Maldonado e Rio Branco.

Seguindo viagem “solo”, deixei La Paz rumo à fronteira Copacabana – Yunguyo (Peru). Foi um daqueles dias que nos ensinam que, em viagens pela América do Sul, onde há cordilheiras, belos cenários e fronteiras, não dá certo calcular o tempo de viagem baseado em quilometragem: são apenas 160 km até a fronteira, mas levei o dia todo para percorrer essa distância. Começou com pane elétrica na moto – saí somente às 11h. Depois, outra pane na estrada, mas “há males que vêm para o bem”: no tempo que passei no mecânico, me safei de uma tempestade, além de ser premiada com um lindo entardecer na Ruta 2, de Tiquina a Copacabana, contemplando o Lago Titicaca. Cheguei à fronteira às 19h, carimbei a saída da Bolívia e entrada no Peru no passaporte, fiz a documentação de entrada da moto e encerrei os trâmites às 20h. Na verdade, duas horas se passaram: fuso horário de uma hora a menos, o segundo nessa rota rumo ao oeste!

iOVERLANDER

O policial alfandegário informou que, para rodar pelo Peru, é obrigatório ter o seguro SOAT, o que eu deveria providenciar urgentemente. Já que não gosto de pilotar à noite, parei a 100 m dali, em uma hospedaria que era literalmente um “chiqueiro” (acordei ouvindo o barulho dos porcos, o que foi um ótimo incentivo para seguir viagem bem cedo!). Consultei o iOverlander. Este app de celular tem dicas sobre burocracias de fronteiras, hospedagem, restaurantes, turismo, estacionamentos, mecânicos e muito mais para “overlanders” (neste contexto, viajantes por vias terrestres, de moto ou de carro), que são acrescentadas por quem visitou os locais, com avaliações das experiências. Resolvi seguir até Puno, onde fiz o SOAT, troquei o óleo da motoca e realizei um passeio até as ilhas de Uros da forma mais rápida e econômica, graças às dicas de ouro do iOverlander.

PUNO E AS ILHAS DE UROS

As mais de cem ilhas artificiais flutuantes do Lago Titicaca são feitas de totora, uma espécie de junco. Segundo o guia nativo, as ilhas similares em Copacabana, no lado boliviano do lago, são feitas com garrafas pet. Os uros se isolaram para evitar a dominação dos incas e outros invasores, falam o idioma indígena aymara e sobrevivem da caça, da pesca e do turismo. O passeio é bem turístico, mas muito pitoresco. Ali, saboreei meu primeiro e delicioso ceviche!

“SOLO”, MAS BEM ACOMPANHADA

Já nos primeiros quilômetros no Peru, vi uma placa de acesso para uma praia no Lago Titicaca e resolvi conferir. O lado positivo de viajar com a DRZ400 – essencialmente uma moto de competição de enduro – é que um trecho de 1 km de areia se torna algo divertido e convidativo, e não uma ameaça (o que aconteceria se eu estivesse com uma moto pesada). Saí da estrada em outros pontos para apreciar sítios arqueológicos e mirantes, sentindo-me confiante para encarar qualquer tipo de terreno.

Viajando sozinha por lugares ermos e desconhecidos, essa sensação de “parceria” da moto foi muito boa! As cidades na Bolívia e Peru têm trânsito caótico, onde prevalecem a buzina, a falta de cortesia e ruas esburacadas ou de terra. No Peru, os “tuc-tucs” são utilizados como táxis e transitam como “baratas tontas”. Para chegar ao hotel na avenida central em Juliaca, foi um “hard enduro” urbano. E para sair da cidade, tive que desviar de lixo e entulho jogados por toda parte. O espetáculo da Natureza dos Andes contrasta vivamente com esse cenário urbano.

CUSCO E MACHU PICCHU

Seguindo pela Ruta 3S, levei seis horas para percorrer os 350 km que levam de Juliaca a Cusco. Passei por muitos vilarejos, sempre com muitos animais na pista (cães, vacas e, nas regiões mais altas, alpacas). Com a altitude, vem o frio e, às vezes, a chuva. O centro antigo de Cusco tem ruas estreitas, de paralelepípedos, e os hotéis com garagem ficam distantes. No dia seguinte, fiz um passei a pé e reencontrei Lynn e Trish, que vieram de avião de Pisco. Elas reservaram o passeio para Machu Picchu para o dia seguinte e, às 6h00, saímos do hotel (eu de moto e elas de táxi, por mais uma estrada belíssima).

Parei a moto na estação de trem de Ollantaytambo e guardei os equipamentos na guarita. Comprei bilhetes de ida e volta para o trem panorâmico por US$ 120,00. A estação final é em Águas Calientes e, de lá, é preciso pegar um ônibus (a alternativa é fazer uma caminhada extenuante). O ingresso para as ruínas custa aproximadamente R$ 150,00. Uma vez lá, optei por uma visita guiada, por R$ 30,00, em companhia de um grupo de brasileiros. Valeu a pena conhecer aquele lugar incrível!

À noite, de volta à Ollantaytambo, com elevação de “apenas” 2.800 m, tomei a primeira cerveja Cusqueña. Nos dias anteriores, em altitudes próximas a 4.000 m, não tive disposição para beber e perdi o apetite. Para me prevenir quanto ao “mal da altitude”, tomei Cafiaspirina e as “sorochepills”, vendidas em farmácias e com uma composição similar. Também experimentei o chá de coca, já que é difícil encontrar um bom café por ali.

DAS CORDILHEIRAS À SELVA

Saí embaixo de chuva e acabei encarando um “off” na lama, mas não deixei de visitar as Salinas de Maras. Comecei o rumo Leste, na PE 30C, a Carretera Interoceanica: Puerto Maldonado, 424 km; Rio Branco, 997 km; e São Paulo, 4.601 km. Passei ao longo de rios, belas pontes, montanhas à beira da estrada com deslizamentos iminentes, trechos com cotovelos e altitude de mais de 4.700 m. Era um domingo e as mulheres usavam saias rodadas coloridas e chapelões.

Parei em um vilarejo para comer uma truta grelhada com chá de coca e, ao cair da tarde, começou a chover forte. Segui caminho à procura de alguma hospedagem, mas ao anoitecer ainda não avistara nenhuma. Formaram-se cachoeiras nas encostas, desembocando na estrada em uma correnteza forte. Com medo de atravessar, dei meia volta e esperei a chegada de algum veículo. Uma senhora em um casebre, ao ver minha aproximação, correu para dentro de casa. Por fim, pedi ao motorista de um caminhão que me esperasse passar e acelerei, sentindo a força da água aos meus pés. Uma hora depois, o clima se tornou tropical e cheguei a Quincemil. Total do dia: 350 km.

DE VOLTA AO BRASIL

Saí cedo e fiz o “desjejum” em um carrinho de rua: pão com abacate e vitamina de quinoa. O visual da estrada parecia uma de nossas serras brasileiras, até que o trânsito parou para uma travessia de jiboia! Pernoitei em Puerto Maldonado e, no dia seguinte, cruzei a fronteira com o Brasil. A partir daí, a estrada fica péssima, com imensas crateras e caminhões andando em ziguezague para evitá-las. Mais 350 km na BR-317 e cheguei em Rio Branco no fim da tarde. Na cidade, fui recepcionada por Cassiano, da Eme Amazônia, que me ajudou a organizar o frete da Suzuki de caminhão até São Paulo. Voltei de avião!

Menos de uma semana depois, a DRZ400 chegou a São Paulo. Até o momento, as BMWs continuam confiscadas em La Paz. Mantenho a esperança de um desfecho favorável para a situação, mas continuo sem nenhuma previsão de data.

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