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De uma viagem a Ushuaia, surgiu o ousado projeto de atingir o outro extremo das Américas: o Alaska. Conheça os detalhes desta incrível jornada sobre duas rodas, que gerou um documentário, uma série de TV e um livro.

Texto: Fernando Nienkötter

Fotos: Rafael Munhoz

Antes de ir em direção ao maior desafio de minha vida, tenho que contar um pouco como foi que eu decidi realizar essa viagem, que acabou se transformando em um livro, um documentário e em uma série de TV.

Em 2015 comecei o início de um sonho, que era percorrer as três Américas de moto e o pontapé aconteceu em janeiro de 2016, quando parti com minha esposa com destino ao Ushuaia. Chegando na placa final da estrada do “Fim do Mundo”, lá estava escrito a distância até o Alaska. Naquele momento eu vi qual seria o meu próximo e mais desafiador compromisso com a minha motocicleta: chegar a Prodhoe Bay, no Alaska.

Voltando, comecei a trabalhar no projeto que intitulei “Caminhos do Alaska”. A ideia inicial era percorrer o trajeto sozinho, mas por pressão da família, resolvi fazer alguns convites para aqueles que tinham um perfil compatível com o projeto.  As pessoas escolhidas foram o Cesar Adil, grande parceiro e motociclista e depois o Daltro de Oliveira e seu parceiro e amigo, Miguel Bard. A equipe estava formada.

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Precisei de preparação física e muito tempo de pesquisa para a viagem, envolvendo rotas, cidades, hotéis, turismo e áreas de risco. Durante oito encontros delineamos todo o percurso, pesquisamos cada cidade e mapeamos todos os hotéis e postos de gasolina. Compramos vários livros que foram nossos companheiros no planejamento, tornando mais próximo cada lugar que ainda iríamos conhecer. Um detalhe interessante de ressaltar é a participação da família durante todo o processo: nossas esposas e filhos eram nossos companheiros e, muitas vezes, participaram ativamente em nossas decisões.

Eu tinha um desafio ainda maior que era de levar a informação em tempo real para a comunidade motociclística pelas redes sociais e gravar um documentário.

Nesse meio tempo, decidi trocar minha Triumph Tiger 800 por uma 1200, que batizei de Preciosa. Ela seria minha companheira de viagem até o Alaska.

Definimos que levaríamos uma equipe de filmagem para garantir a qualidade de nosso documentário, mas ela só poderia participar até San Pedro do Atacama. Depois disso, eu ficaria responsável por filmar e produzir o documentário dentro de nossa programação, sozinho, mostrando as dificuldades e sucessos do dia a dia de nossa expedição.

Enfim, estrada

O dia 11 de Maio de 2017 foi o grande dia. Partimos em 7 motocicletas e um carro de filmagem. O Cesar, que iria conosco até o Alaska, não pôde ficar tanto tempo longe dos compromissos e iria conosco até San Pedro de Atacama, junto com mais três motociclistas. Às 5 horas da manhã saímos de Florianópolis com destino a Foz do Iguaçu, no Paraná, para fazer a saída das nossas motos, que retornariam de navio dali alguns meses.

No segundo dia eu quase sofri um acidente em uma estrada argentina. Estávamos com o cronograma um pouco atrasado e optamos – erroneamente – em seguir pelas estradas à noite. O resultado foi que caí em um enorme buraco que havia no meio da pista, danificando muito a roda de minha motocicleta. Por sorte, consegui evitar uma queda grave, o que certamente colocaria fim na minha viagem.

Até San Pedro de Atacama foram seis dias, já que tivemos que parar em Salta (Argentina) para dar um jeito na roda de minha motocicleta. Aproveitamos para curtir a bela cidade e produzir imagens para o documentário e para o livro. O caminho até o Atacama é lindo e um ótimo roteiro para quem quer começar a viajar pela América do Sul.

Após dois ótimos dias, era hora de seguir em frente. Me despedir dos amigos foi emocionante, já que eu, Daltro e Miguel teríamos outros 63 dias sozinhos, sem saber o que iríamos enfrentar. Além disso, eu assumia de vez a responsabilidade de documentar, em vídeo e fotos, todo o percurso.

A partir dali, seriam 22 dias intensos, percorrendo toda a América do Sul, até a Colômbia. Passamos por chuva, frio, sol, calor, e todas as sensações possíveis: saudade, fome, medo, alegria, encantamento. Como são encantadores nossos países vizinhos. Mesmo na Bolívia, onde estávamos, de certa forma, receosos, recebemos acolhimento em locais extremamente isolados.

Exatamente 30 dias depois de termos saído de Florianópolis, entramos na América Central. Além das belezas naturais, como os vulcões da Nicarágua, enfrentamos fronteiras confusas e policiais corruptos em boa parte do trajeto, exceto na Costa Rica, que surpreendeu positivamente.

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Devido aos problemas, muitos motociclistas optam em pular a América Central, mas como tínhamos o objetivo de percorrer o máximo de países possíveis, passamos por lá. Arrependimento? Nenhum. Mas, não faria novamente.

América do Norte

Quando cruzamos a fronteira para o México, respiramos um pouco aliviados e quando chegamos aos Estados Unidos, o alívio foi total. A América do Norte é linda e cheia de cantos especiais, principalmente no Canadá.

Nas praias mexicanas, o pôr-do-sol de tirar o fôlego. Nos Estados Unidos, rodamos em ótimas estradas com muitos atrativos: Sequoia National Park, Highway 1 e suas belezas naturais beirando o Oceano Pacífico, as lindas cidades de Carmel e Monterrey, os encantos de San Francisco com seus bondinhos, o Pier 39 e a famosa Golden Gate Bridge. Em cada parada, descobríamos lugares incríveis no litoral norte dos Estados Unidos, como Seattle, uma cidade aconchegante onde fizemos as revisões nas motocicletas.

Seguimos em direção ao Canadá. Vancouver nos surpreendeu pela beleza e seus atrativos. A Columbia Britânica mostrou a força e exuberância da natureza canadense no verão. Passamos por muitas cidades com destaque ao Salmon Glaciar, em Stewart, e a famosa Floresta das Placas, em Watson Lake. Depois, seguimos pela Alaska Highway até Haines Junction, onde apreciamos a beleza da montanha congelada, para no outro dia encontrar a famosa placa do Alaska.

Em Fairbanks preparamos a saída rumo ao objetivo final, mas o Daltro optou em não seguir até Prodhoe Bay. Para ele, o fato de chegar até ali já era uma grande vitória. Então, eu e Miguel seguimos em frente, para reencontrarmos nosso parceiro na volta. Por uma fatalidade, Miguel caiu na estrada mais perigosa do mundo, a Dalton Highway, e quebrou a perna a poucas milhas para o final. Foi um susto, mas ele foi socorrido e voltou conosco para o Brasil.

71 dias depois de ter saído de Florianópolis, acabei chegando ao destino final sozinho, mas com ótimas histórias para contar e, principalmente, com algumas lições de vida importantes, entre elas destaco duas: há mais pessoas boas do que ruins e, acredite nos seus sonhos.

Foi uma viagem inesquecível, que mudou minha vida para sempre e que está eternizada em um documentário (disponível em meu canal no Youtube) e em meu livro.  

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